A um clique de Deus: Faceglória, a rede social brasileira para evangélicos

(Foto de Miguel Schincariol/AFP/Arquivos)
(Foto de Miguel Schincariol/AFP/Arquivos)
(Foto de Miguel Schincariol/AFP/Arquivos)

Nuvens macias passam por um céu azul na tela de login. Uma música gospel toca enquanto aparecem as publicações dos amigos virtuais. Embaixo, o botão “Amém” substitui o “curtir”. É o Faceglória, o site de relacionamentos evangélico que, em menos de um mês, arrebanhou 100.000 usuários no Brasil.

Há três anos, quatro brasileiros cristãos cansaram de encontrar conteúdo adulto ao entrar em seus perfis da rede social criada por Mark Zuckerberg.

“No Facebook há muita violência e pornografia, por isso pensamos em fundar uma rede em que pudéssemos falar de Deus, do amor, e compartilhar sua palavra”, lembra o web designer Atilla Barros em uma sala em Ferraz de Vasconcelos, cidade a 27 km de São Paulo.

Ele e os outros três fundadores do Faceglória, todos com menos de 32 anos, funcionários da prefeitura de Ferraz, são os proprietários desta rede social que quer competir com o Facebook no Brasil, tendo como alvo os 42 milhões de evangélicos do país.

Com o apoio pessoal do prefeito da cidade, criaram uma empresa que conseguiu 16.000 dólares em doações para projetar o esqueleto do Facegloria.

Patrulha ‘online’

Mas toda o layout da rede é obra sua, o logo em forma de nuvem e a cor azul que domina o site até as regras que regem os ‘posts’.

A inscrição é livre, mas não é permitido publicar palavrões – há uma lista negra com mais de 600 termos -, conteúdo violento, erótico ou fotos e vídeos de beijos entre casais homossexuais.

“Queremos ser melhores moralmente e estruturalmente que o Facebook. Descobrimos que eles já sabem que nós existimos. O que pretendemos é que todo o público evangélico brasileiro migre para o Faceglória”, diz Barros.

Na frente dos monitores trabalham mais de 20 voluntários patrulhando a rede. Fotos de biquíni, ‘selfies’ insinuantes ou imagens onde apareçam álcool ou cigarro serão avaliadas segundo o contexto.

“Mas nosso público não publica esse tipo de fotos, é uma audiência mais seleta”, argumenta Daiane Santos, de 26 anos, que se divide entre seu trabalho na secretaria de Indústria e Comércio da cidade e as mais de seis horas diárias que dedica ao Faceglória.

Facebook na mira

O Brasil, país com o maior número de católicos em todo o mundo (63%), experimenta há anos um aumento exponencial da população evangélica. Em 1980, apenas 6% dos brasileiros professavam essa fé, enquanto em 2010 os evangélicos já alcançaram 22%.

Se este ritmo prosseguir, espera-se que em 2040 estes fiéis de um braço do protestantismo superem os católicos no maior país da América do Sul.

“Os evangélicos cresceram junto ao intenso processo de urbanização dos últimos 50 anos. O discurso pentecostal, que toca muito a periferia e as favelas, dá muita importância ao indivíduo, que é responsável com seu comportamento por obter a ajuda divina. Essa fé se adapta melhor à cidade”, explica o doutor em Ciências da Religião e professor da Universidade Católica de São Paulo, Edin Abumanssur.

Os livros mais vendidos dos últimos dois anos no Brasil são os volumes da biografia do bispo Edir Macedo, fundador da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário do terceiro império de mídia brasileiro.

Enquanto a bancada evangélica no Congresso exerce sua influência na política, o evangélico Neymar – que tem uma cruz tatuada na nuca – celebra seus títulos na Europa com uma faixa na cabeça onde se lê “100% Jesus”.

Nesse contexto, os fundadores do Faceglória não veem limites para sua rede.

“Em dois anos queremos chegar a 10 milhões de usuários no Brasil. Desde 4 de junho, quando entramos no ar, já contamos com 100.000 perfis e ainda não estamos nos celulares. Em dois meses, quando sairão os aplicativos, esperamos outro pico de usuários”, diz Barros.

O prefeito Acir dos Santos, titular da empresa editora do Faceglória, vai além. “Nossa rede vai ser mundial. Compramos também o domínio Faceglory em inglês e em todos os idiomas que se possa imaginar. Queremos incomodar o Facebook e o Twitter tanto no Brasil como no mundo”, diz.

O próximo passo é começar a receber receita de publicidade e criar um chat para encontrar alguém de acordo com os princípios cristãos.

“O que buscamos é que o Faceglória não deixe de se renovar, que não morra nunca”, diz Daiane. (afp.com)

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