Economia 100 Makas: A rainha vai nua

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

Certa noite, há uns anos, estava eu a entrar para o carro acabado de dar aulas no campus da Universidade Católica de Angola (UCAN) ao Palanca, quando um jovem veio ter comigo pedindo-me boleia para a zona dos Congolenses, pois o seu carro recusava-se pegar. Obviamente que acedi ao pedido.

A caminho da cidade, fiquei a saber que o jovem estudava de noite, na UCAN, Economia ou Gestão, não me lembro exactamente o quê, e que trabalhava na Sonangol. Como era estudante de Economia ou Gestão, pensei que o seu trabalho na petrolífera tivesse alguma coisa a ver com o curso que frequentava, finanças por exemplo. Mas não. “Sou arquitecto na Sonangol”, informou para enorme surpresa minha.

“E o que faz exactamente?”, perguntei. “Nada”, respondeu. “Nada, como?”, insisti. “Nada, não tenho nada para fazer! A empresa subcontrata todos os trabalhos de arquitectura”, esclareceu. Como era de noite e não havia trânsito, chegámos rapidamente ao destino e a conversa ficou por ali. Lembrei-me do jovem desta conversa e trago-a à colação a propósito do documento programa de trabalho n.º 18/2015 do presidente Francisco de Lemos José Maria intitulado Sonangol – Resgate da Eficiência Empresarial datado de Luanda 15 de Maio de 2015 e que o Expansão divulgou na semana edição da passada sexta-feira 26 de Junho.

“O actual modelo operacional, que adquiriu dimensão diferente e acrescida após 2008, caracteriza-se pela crescente dependência da Sonangol quer da ‘contribuição de terceiros para a geração de resultados’, quer de ‘encargos para terceiros – outsourcing de serviços do básico ao especializado’, é insustentável (a ‘redução da contribuição de terceiros’ é incompatível com a ‘inflexibilidade de um custeio rígido e fixo’)”, lê-se na página 5 do documento.

“O modelo operacional da Sonangol fracassou e está falido” reconhece o presidente que explica o sucedido da seguinte forma: “Deixámos de aprender a ‘saber fazer’ e aprendemos a ‘contratar/subcontratar'”, “Proliferam os contratos de prestação de serviços em toda a companhia, desde as finanças aos serviços médicos, desde a ESSA – Formação à gestão da cadeia logística, com a presença crescente de ‘contratos-fantasma’, contratos in-house e até contratação connosco próprios”, exemplifica Francisco de Lemos. “Funções (consideradas) críticas são desempenhadas por terceiros em virtualmente todas as subsidiárias da empresa”, reforça, adiantando números: “A empresa emprega cerca de 8.500 trabalhadores. Simultaneamente e através de variada tipologia de contratação de serviços, empregamos adicionais 4.500-5.000 empregados, que connosco convivem todos os dias, exercendo pressão adicional sobre toda a infra-estrutura de apoio, de base, institucional e social.”

Se é o próprio presidente da empresa que o diz… está dito. Mas Francisco de Lemos José Maria não se limita a identificar os problemas. Avança com as soluções contidas num “catecismo” a ser seguido pelas recém-empossadas lideranças dos negócios para o período 2015-2017, durante o qual o principal desafio é “o resgate da eficiência empresarial”.

Para o presidente da Sonangol, o resgate da eficiência empresarial passa pelo “divórcio com o passado e o início de uma era diferente” consubstanciada numa “mudança de cultura”, com “o renegar da cultura de ‘dependência de terceiros’ e a ‘adopção da cultura de esforço, da inteligência, da inovação e do empreendedorismo”. Entre as novas práticas orientadas por Francisco de Lemos, chamaram-me particularmente à atenção as referentes à obrigatoriedade de concurso público para compras superiores 1 milhão USD e, sobretudo, para aquisição de combustíveis, gás butano, lubrificantes e asfaltos no mercado no mercado internacional.

Confesso-me estupefacto. Em qualquer empresa, a realização de concursos públicos é uma prática corrente. Pelos vistos não era assim na maior empresa do País, um ‘Estado dentro do Estado’, como muita gente lhe chamou. E só agora deram por isso? Criada em 1976, como uma empresa estatal vocacionada para gerir a exploração dos recursos de hidrocarbonetos em Angola, a Sonangol transformou-se nos últimos anos num autêntico conglomerado multinacional, com interesses em múltiplas áreas de negócio, além dos hidrocarbonetos, em vários países.

Como tudo na vida, a estratégia empresarial seguida até aqui pela Sonangol foi questionada, em especial as suas incursões por áreas de negócio totalmente estranhas ao seu core business. Mas os responsáveis da empresa sempre se defenderam, dizendo que os resultados globais dessa estratégia foram um sucesso, tendo guindado a Sonangol a patamares dificilmente imagináveis há uns anos. Afinal, soube-se agora, a rainha vai nua. (expansao.ao)

1 COMENTÁRIO

  1. O reflexo da calamidade em que o país está mergulhado faz-nos vislumbrar a identidade dos prevaricadores…

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