A Alemanha deveria deixar o euro?

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Muito se falou sobre a possível saída da Grécia, mas alguns economistas levantam outra opção: a Alemanha deixar a moeda comum. Enquanto alguns aprovam a ideia, outros afirmam que ela seria catastrófica para a Europa.

Depois de toda a discussão sobre mais austeridade para Atenas, credores com medo de não receber de volta o que emprestaram para os gregos e temerosos de uma possível saída da Grécia da zona do euro, alguns economistas sugeriram que pode haver uma terceira via: a Alemanha deixar a moeda única europeia.

Segundo esse raciocínio, a Alemanha deveria deixar o euro e, assim, abrir caminho para que países do sul da Europa – Grécia, Itália, Espanha e talvez Portugal – possam estabilizar suas dívidas com uma moeda fortemente desvalorizada e finalmente pôr em ordem as suas economias.

O último a sugerir isso foi Ashoka Mody, da Universidade Princeton, nos EUA. Ele escreveu um artigo para a Bloomberg que, de forma sucinta, explica por que o Gerxit (saída da Alemanha) seria uma opção melhor que o Grexit (saída da Grécia).

“Algum tipo de reorganização da união monetária é praticamente inevitável ao longo dos próximos 25 ou 30 anos”, disse Mody à DW. “A única questão que surge nesse ponto é: qual é o caminho mais sensato, menos disruptivo, para se alcançar isso?”

Mody avalia que o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, confunde o problema da dívida grega com o problema que é a “experiência zona do euro”. “Schäuble parte da premissa de que, se a Grécia se for, a zona do euro vai funcionar perfeitamente bem com os membros que restaram, e que o problema não está nos fundamentos da zona do euro, mas é algo específico dos gregos, que não conseguem se adaptar à zona do euro”, explica Mody.

Ele reconhece que a Grécia tem um problema de endividamento, mas ressalta que a questão da dívida é algo à parte dos outros problemas que afligem a união monetária. “Se tudo o que acontecer é a Grécia deixar a zona do euro, a possibilidade de que um problema semelhante surja é quase uma certeza. O fato de que países tão distintos não podem ficar numa camisa de força monetária e fiscal não vai mudar.”

Mody, como tantos outros economistas e críticos da zona do euro, afirma que a Itália será o inevitável sucessor da Grécia no papel de criança-problema. “Não sabemos se a Itália algum dia estará em condições de pagar as suas dívidas. O processo de forçar países de condições, histórias e culturas tão diferentes para dentro de um molde não funciona.”

Gerxit e não Grexit

Mody diz que a maneira menos disruptiva da acabar com a crise seria a Alemanha voltar a adoptar a sua moeda anterior, o marco alemão. “A Alemanha seria a que menos teria problemas em deixar o euro”, assegura.

A ideia de um Gerxit em vez de um Grexit não é nova. Ela remonta a 2012, quando o magnata americano George Soros publicou um post sobre como seria uma saída da Alemanha do euro e por que ela seria benéfica: a Alemanha teria uma moeda própria e forte, e países com economias mais fracas teriam condições de estabilizar a sua dívida com um euro muito mais fraco. Em resumo, os alemães seriam mais ricos, e os europeus do sul teriam uma chance de melhorar.

No mesmo dia em que Mody publicou sua análise na Bloomberg, Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve (o banco central americano), publicou um artigo de opinião no site do Brookings Institute, um influente think thank de Washington. Nele, ele argumenta que a Europa não está fazendo a sua parte para solucionar a crise da dívida grega.

Enquanto o desemprego na zona do euro subiu para 11% nos últimos anos, nos Estados Unidos ele está em 5,3%, o menor percentual em anos. Mesmo dentro da zona do euro há fortes diferenças: na Alemanha, a taxa de desemprego é inferior a 5%, enquanto no restante da zona do euro ela oscila em torno de 13%.

“A promessa associada ao euro era tanto elevar a prosperidade como apoiar a integração europeia”, escreve Bernanke. Só que isso não está acontecendo e não vai acontecer enquanto os países tiverem desempenhos económicos tão díspares, destaca.

Os países do euro não têm somente desempenhos económicos díspares, eles também têm condições económicas totalmente diferentes, avaliam analistas. Por isso, afirma Mody, criar uma união monetária entre eles nunca foi uma decisão economicamente sensata. “A união foi formada sem muita reflexão, e o sofrimento era inevitável”, diz.

Se não houver uma grande vontade política para manter a zona do euro intacta, a ruptura é inevitável, avaliam especialistas. O país que menos sofreria com essa dolorosa separação, como Mody, Bernanke, Soros e muitos outros afirmam, é a Alemanha.

“Essa percepção permite pensar como seria o melhor equilíbrio para países diferentes”, diz Mody. “Esse equilíbrio poderia ser a existência de duas moedas, o euro no sul e o marco alemão no norte. Mas também é possível que haja 15 novas moedas nos próximos 30 anos”, comenta.

Um desastre

Entretanto, especialistas como Iain Begg e John Ryan, ambos da London School of Economics, não têm dúvidas de que a saída da Alemanha da zona do euro seria um desastre. “Depois da criação da União Europeia, o euro foi a maior conquista da Alemanha no pós-guerra”, disse Ryan à DW. “Do ponto de vista político, investiu-se muito nesse projecto. Deixar o euro enviaria um sinal ruim para a sustentabilidade da própria União Europeia”, avalia.

Além disso, o euro é uma grande conquista geopolítica, e a Europa é vista hoje como um lugar seguro para investir e fazer negócios, observa: “A saída da Alemanha do euro seria um sinal destruidor, e não é concebível que a zona do euro pudesse sobreviver a isso.”

Se a Alemanha deixasse o euro, o mundo veria, numa sucessão rápida de acontecimentos, Holanda, Bélgica, Áustria e os países bálticos fazerem o mesmo, assegura Begg. O continente iria se partir ao meio, e tanto o norte como o sul iriam sofrer as consequências. Países como Irlanda, Eslováquia e Eslovénia ficariam perdidos.

A Alemanha fora do euro, somada à subsequente divisão do continente, teria fortes repercussões na integração europeia e mais ainda na restante zona do euro, avalia Begg. “Isso seria visto como catastrófico em Berlim.”

O marco alemão, ressuscitado, tornar-se-ia logo uma moeda forte, concordam os dois especialistas. O que soa como algo positivo teria, porém, um forte impacto negativo nas exportações alemãs, já que os produtos fabricados no país se tornariam mais caros.

“A saída da Grécia seria ruim para o euro, mas nada comparável à saída da Alemanha”, afirma Ryan. “Isso seria uma catástrofe para a Alemanha e para a zona do euro e colocaria em xeque toda a construção europeia.” (dw,de)

 

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