Venda clandestina de sangue em Luanda

(Foto: D.R.)
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Famílias angolanas vêem-se obrigadas a comprar sangue na candonga, junto de dadores que cobram pela doação. Unidades de saúde queixam-se da falta de sangue – e funcionários estão coniventes neste esquema de venda.

Por escassez de sangue nos hospitais públicos, há pessoas que o vendem clandestinamente nas imediações destas unidades de saúde – e até com a conivência de funcionários dos hospitais. O SOL foi verificar a situação numa ‘ronda’ em Luanda.

Nas unidades visitadas, o SOL constatou que alguns familiares de pacientes com estado de saúde debilitado tiveram de recorrer a dadores de sangue ‘informais’, a troco de valores monetários. A razão prende-se com a falta de sangue nos hospitais ou postos de saúde. Apercebendo-se deste facto alguns cidadãos fazem disso o seu ganha-pão, permanecendo perto dos hospitais e pactuando em alguns casos com funcionários dos mesmos.

Arlete Miguel (nome fictício) conta o seu caso ao SOL. Diz ter sido obrigada a recorrer ao mercado informal de venda de sangue para salvar a vida do pai. Este, do grupo sanguíneo AB, encontrava-se entre a vida e a morte no hospital municipal de Viana e precisava de uma transfusão – mas os médicos alertaram de que não dispunham daquele tipo de sangue, razão pela qual a família tinha de arranjar um dador urgentemente.

«Para minha surpresa e felicidade, uma enfermeira que estava de serviço indicou, próximo do local, um grupo de jovens que doa sangue. Encontrei pessoas de grupo compatível e, como precisava de dois balões, cobraram-me por cada um 15 mil kwanzas», relata.

Falta crónica de dadores

Contactada pelo SOL, a directora do Centro Nacional de Sangue, Luzia Dias, afirma que quem doa sangue em Angola são, na maior parte dos casos, grupos religiosos e núcleos de pessoas ligadas a determinadas entidades. Mas a escassez de sangue nas unidades de saúde mostra que estes dadores são insuficientes.

A interlocutora revela que no país não existem associações: «Há uma que já foi criada mas ainda não proclamada para o efeito».

De acordo com a responsável do Centro Nacional de Sangue, o maior problema que Angola enfrenta é o facto de a maior parte dos dadores serem de reposição – faltando assim os dadores voluntários, aqueles que garantem um sangue mais seguro.

Também o jovem Edmilson da Ressurreição (nome fictício) foi vítima da falta de sangue. Os médicos do hospital Josina Machel, conta, negaram uma transfusão de sangue ao seu progenitor e a uma senhora de idade por suposta falta de balões de sangue na unidade.

O entrevistado garante que as médicas daquela unidade sanitária têm sido coniventes neste tipo de negócio: «Lembro-me de ter visto uma delas a ligar para um jovem a dizer que havia um paciente com o mesmo grupo sanguíneo. Ele tinha de se fazer presente no hospital no dia seguinte para doar sangue e o valor acordado foi de 40 mil kwanzas». Edmilson acrescenta: «Não foi a primeira vez que vivenciei isso, tem sido um negócio frequente em muitos hospitais públicos».

Este cenário, no entanto, forçou o interlocutor – que é membro de direcção de uma organização de solidariedade – a exigir dos seus colegas de organização que deixassem de doar sangue nos hospitais.

O jovem acredita que as iniciativas criadas por eles têm sido defraudadas propositadamente pelos médicos dos hospitais.

«Eles aproveitam-se das pessoas, recebem sangue doado para salvar vidas, mas guardam para comercializá-lo. Muitas pessoas não sabem mas isto tem acontecido com regularidade», garante.

Modelo ‘militar’

Angola também assiste a outras formas de reagir a esta questão da escassez – sem passar pela candonga da venda do sangue.

No Hospital Militar Principal, por exemplo, é exigido aos pacientes internados que necessitem de transfusão de sangue que arranjem três pessoas para cada uma delas doar um balão, independentemente do grupo ser compatível ou não, apurou o SOL.

O médico cardiologista cubano Heitor Padilha, em entrevista ao SOL, lamentou o facto de algumas pessoas fazerem negócio clandestino com o sangue quando muitas pessoas morrem no mundo devido a falta deste bem necessário para o funcionamento do corpo humano.

«Parece-me que em Angola falta uma certa educação no que toca a doação de sangue», considera.

O médico lembra que a doação de sangue é um acto humanitário e que quem o faz sem tirar dividendo é alguém com amor ao próximo. Isso leva-o a afirmar: «As pessoas que comercializam sangue têm um coração muito pobre».

O interlocutor defende que o Governo deve criar uma estrutura que de facto funcione para apoiar a doação de sangue em todas a regiões do país para se evitar o elevado número de pessoas que morrem em Angola por falta de sangue. Apesar de não haver dados oficiais, são recorrentes as campanhas de sensibilização para a doação de sangue, nomeadamente para fazer face aos milhares de feridos que o país soma, todos os anos, em acidentes de viação. (sol.ao)

1 COMENTÁRIO

  1. sim na verdade existia a deficuldade de doadores de sangue mais a tres anos agora ja existe a brigada jovens solidarios que ja tem nucleos provinciais que doa sangue voluntariamente em angola ja passamos por 17 provincias a doar sangue e com mais de 100 jovens voluntarios nao e verdade que nao existem doadores voluntarios nos bjs existimos sim e com muito sucesso

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