TAP já suspendeu piloto que presta assessoria ao sindicato

Greve de dez dias provocou 35 milhões de euros à TAP (AFP PHOTO / PATRICIA DE MELO MOREIRA)
Greve de dez dias provocou 35 milhões de euros à TAP (AFP PHOTO / PATRICIA DE MELO MOREIRA)
Greve de dez dias provocou 35 milhões de euros à TAP (AFP PHOTO / PATRICIA DE MELO MOREIRA)

A TAP decidiu suspender o piloto que prestou assessoria ao sindicato nos últimos meses, incluindo durante a greve de dez dias que ocorreu em Maio. A suspensão de funções está relacionada com o inquérito aberto pela companhia de aviação para apurar se foram violadas regras de ética e de segurança.

A decisão, que foi tomada em Junho, vigorará até que as averiguações sejam concluídas, podendo estas terminar com um processo disciplinar cujas consequências ainda são difíceis de prever. Mas, no limite, a transportadora aérea poderá exigir que o trabalhar cesse definitivamente funções.

Além de funcionário da TAP, Paulo Lino Rodrigues detém uma empresa de consultoria desde 2008, através da qual prestou serviços ao Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil. Já no passado a sua ligação ao sindicato tinha gerado polémica, provocando, aliás, a saída de muitos associados.

O contrato com a P. Rodrigues Consultores foi interrompido temporariamente durante o mandato de Jaime Prieto, que deixou o lugar de presidente do SPAC no final do ano passado, tendo sido eleito nessa altura Manuel Santos Cardoso (que entretanto pediu a demissão depois da greve de Maio).

Apesar de ter estado sempre nos bastidores, Paulo Lino Rodrigues foi uma peça central tanto nas negociações com o Governo no final de 2014, que levaram à assinatura de um acordo com nove sindicatos da TAP e ao cancelamento de uma greve de quatro dias entre o Natal e o Ano Novo, bem como na decisão de avançar com a paralisação de dez dias no mês passado.

Numa das suas poucas aparições públicas, a que o PÚBLICO assistiu, o piloto agora suspenso pela TAP surgiu no Parlamento, numa audição da comissão de Obras Públicas, como um dos porta-vozes da plataforma sindical que assinou o acordo com o executivo em Dezembro.

Na base deste inquérito aberto pela empresa está o facto de o comandante ser, em simultâneo, assessor do SPAC – uma função pela qual a estrutura sindical admitiu que Lino Rodrigues era remunerado. Há, por isso, questões de ética na base do processo, já que a companhia de aviação entende que a actividade que desenvolve enquanto consultor está intimamente relacionada com o cargo que exerce na TAP.

Por outro lado, a transportadora aérea também está a avaliar se a assessoria que presta ao sindicato, e que se tornou mais intensa no período da greve de dez dias, colocou em causa a segurança operacional. Numa das ocasiões, quando a administração da transportadora aérea e os pilotos tentavam um último acordo para travar a paralisação, na véspera do início dos protestos, Paulo Lino Rodrigues terá estado ao serviço do sindicato quando faltavam três horas para levantar voo, quando as regras obrigam a descanso total.

Contactada pelo PÚBLICO, fonte oficial da TAP recusou prestar esclarecimentos sobre este inquérito e as suas consequências. “Não fazemos comentários sobre questões disciplinares”, referiu.

Já o SPAC emitiu um comunicado ainda no sábado em que garantiu que “é falso que o comandante Paulo Lino Rodrigues tenha sido o estratega da greve dos pilotos”, explicando que a decisão de avançar com a paralisação de dez dias “foi decidida em assembleia” e votada por 434 associados, com 360 votos a favor.

“A manutenção da greve foi da exclusiva responsabilidade da direcção do SPAC, devidamente mandatada pela assembleia de empresa, que decidiu manter a mesma devido à frustração das negociações com a administração da TAP. É falso que o Comandante Paulo Lino Rodrigues tenha participado nessas negociações. É falso que a actividade do comandante Paulo Lino Rodrigues tenha tido qualquer influência nas decisões tomadas pelo SPAC no âmbito da declaração e manutenção da greve”, refere o sindicato em comunicado.

E, por isso, a direcção do SPAC “repudia veementemente, porque falsas, as acusações imputadas pela TAP ao comandante Paulo Lino Rodrigues”.

A greve de Maio gerou um mal-estar profundo, mesmo dentro do sindicato. Além da vaga de contestação aos protestos de dez dias agendados pelos pilotos, que reclamavam o cumprimento do acordo de empresa e uma participação até 20% no capital da TAP, houve rupturas internas.

Com a demissão do presidente do SPAC, foram convocadas já novas eleições, que vão decorrer entre 29 de Junho e 3 de Julho. Há três listas na corrida.

Para a companhia de aviação, a greve trouxe prejuízos de cerca de 35 milhões de euros, aos quais a administração terá ainda de responder com um plano de ajustamento exigido pelo Governo para controlar os custos e aumentar as receitas. O objectivo é aliviar a pressão sobre a tesouraria, que a paralisação dos pilotos acabou por aumentar. (publico.pt)

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