Sobrinho. Quem é o maior investidor individual no Sporting?

(Foto: D.R.)
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Álvaro Sobrinho é o principal acionista individual do Sporting e o rosto associado à reestruturação financeira do clube de Alvalade que começou no ano passado. O empresário angolano tem 29,8% do capital da SAD do Sporting, que é controlada por entidades do Sporting com 63,9%. Os outros accionistas  individuais identificados são Joaquim Oliveira com 3,2% – o empresário que lançou a Sport TV é acionista de referência de vários clubes de futebol – e os gestores do próprio clube com participações residuais.

Sobrinho chegou a esta participação depois de no ano passado ter convertido em capital um empréstimo de 20 milhões de euros ao clube. Esta operação foi anunciada em 2013, pouco depois de Bruno Carvalho ter chegado à presidência do clube. Mas a ligação de Sobrinho ao Sporting é anterior e remonta, pelo menos, a 2011 quando o clube fechou um contrato de parceria financeira e desportiva com a Holdimo.

Sobrinho quis participar na reestruturação do Sporting

Em 2013, a Sporting SAD vendeu à empresa de Sobrinho para dos interesses económicos dos passes de 28 jogadores. O clube garantiu a reestituição do valor aplicado até julho de 2014, mas entretanto a Holdimo manifestou interesse em participar na reestruturação financeira do Sporting já conduzida por Bruno Carvalho, segundo é relatado no propeto das obrigações que estão a ser colocadas. Foi neste processo que converteu o crédito de 20 milhões em capital social da SAD. Apesar da valorização recente das ações do clube, até à ordem da suspensão dada esta sexta-feira pela Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) os títulos do Sporting subiram mais de 17% para 60 cêntimos, o atual valor de mercado ainda é bastante inferior ao investimento de Sobrinho que correspondeu a um euro por ação. Hoje vale em bolsa cerca de 12 milhões de euros.

O clube desmentiu esta quinta-feira o envolvimento financeiro de Álvaro Sobrinho e de investidores da Guiné Equatorial na contratação de Jorge Jesus, para além do decorrente da qualidade de acionista. Sobrinho tem quase 30% da SAD, através da Holdimo, mas os acionistas da Sporting SGPS, sociedade que controla 37,3% das ações de categoria B, não estão identificados nos documentos da SAD.
Sobrinho por Sobrinho
Eis como o banqueiro angolano descreve o seu envolvimento com o clube, pessoal e empresarial. “Como fã desde criança foi meu prazer juntar-me aos investidores do Sporting Clube de Portugal no ano passado e desejo um futuro longo e de sucesso com a equipa e a todos os associados a esse clube lendário”. A frase é traduzida do inglês, língua escolhida por Álvaro Sobrinho no seu site pessoal  onde fala sobre si e sobre os seus projetos e no que acredita, sobretudo para o continente africano.

O empresário descreve o passado profissional no setor bancário angolano, do BESA ao Banco Valor, onde é presidente não executivo, e sublinha a sua confiança apaixonada na tecnologia e os investimentos que está a fazer em novos sistemas e serviços em África, em como projetos de filantropia na área das telecomunicações, educação e cultura (trabalhando com a editora Babel). Sobre os investimentos em Portugal praticamente não fala, com uma excepção para o Sporting.

O gestor de 53 anos formado em matemática foi a escolha pessoal de Ricardo Salgado para presidir ao BESA (Banco Espírito Santo Angola) no início do milénio. O ex-presidente do BES, pelo menos até 2012, considerava Álvaro Sobrinho “um grande banqueiro” e fazia questão de despachar diretamente com ele, excluindo outros órgãos e gestores do banco. As palavras são de Hélder Bataglia, presidente da Escom, que foi parceiro de Sobrinho no BESA (na administração) e em outros negócios.

O BESA foi uma história de sucesso até 2012, mas transformou-se num pesadelo que contribuiu para afundar o Banco Espírito Santo em 2014. O banco concedeu empréstimos de 5,7 mil milhões de dólares, alegadamente de forma descontrolada, durante a gestão de Sobrinho. Esta concessão de crédito foi financiada pelo próprio BES, que foi alimentado o financiamento à sua participada angolana até ultrapassar os três mil milhões de euros.

Em 2013, o presidente de Angola assina uma garantia de Estado a favor do BESA, que protege o banco angolano e o acionista português do incumprimento desses empréstimos cujos destinatários não são todos conhecidos. Aliás até hoje. A lista de beneficiários das operações que estavam cobertas por garantia, entretanto suspensa depois da resolução do BES, nunca foi revelada. Mas há fortes suspeitas, confirmadas pela auditoria do Banco de Portugal, que uma parte do dinheiro tenha ido parar a Portugal ou a sociedades offshores associadas a ex-gestores do BES, mas também a Álvaro Sobrinho.

Uma das declarações que mais espantou os deputados da comissão de inquérito ao BES foi quando o ex-banqueiro afirmou que afinal o tal dinheiro emprestado pelo BES ao BESA nunca teria saído de Portugal.
O mistério da fortuna de Sobrinho
O nome do empresário angolano também surge associado ao negócio falhado de venda da Escom pelo Grupo Espírito Santo à Sonangol e à Akoya, empresa financeira suíça investigada por suspeita de branqueamento de capitais.

O ex-presidente do BESA que respondeu com grande calma e detalhe técnico a quase todas as perguntas na comissão de inquérito ao BES, em dezembro de 2014, só se irritou quando lhe perguntaram sobre a sua fortuna pessoal, alegando que não queria ficar com a perceção errada da audição, realizada em dezembro. Eis as explicações que deu: “Quando fui para o banco (o BESA), não era um mero empregado, tinha bens e fiz a minha declaração de rendimentos”. Mas recusou explicar como financiou os investimentos conhecidos em Portugal.

Sobrinho desmentiu ter recebido crédito do BESA, operação proibida pela lei angolana, mas confirma investiu na Espírito Santo Internacional (ESI). “Graças a Deus saí antes do rombo da Espírito Santo Internacional. Não tive inside information, tive sorte”, garantiu.

O gestor adiantou ainda que a sua família representava um dos primeiros grupos económicos (presume-se que privados) em Angola. De acordo com um perfil publicado pelo Jornal de Negócios  em dezembro, Álvaro Sobrinho nasceu numa família tradicional de Luanda. O pai, Carlos Madaleno, foi fiscal de mercado da Câmara de Luanda, estatuto que manteve após a independência de Angola. Foi já neste período que assumiu uma pastelaria num antigo mercado que, segundo o Negócios, terá passado a ser a principal fonte de receitas, tendo permitido à família Madaleno enviar os três filhos para estudar em Portugal. Álvaro Sobrinho é casado como uma portuguesa e tem dois filhos.
Futebol, jornais, conservas e casas
Para além do prazer em investir no Sporting, Sobrinho refere que está na administração de uma empresa de media internacional, presume-se que será a Newshold, a holding que em Portugal controla os jornais Sol e i e que chegou a ter participações qualificadas na Impresa e na Cofina.

As ambições da Newshold envolveram a privatização do canal 1 da RTP, interesse que levou um dos administradores da empresa a identificar os acionistas da empresa de media, com sede no Panamá, como Álvaro Sobrinho e a família Madaleno.  A Newshold chegou ainda a negociar a aquisição da Controlinveste com Joaquim Oliveira e os bancos credores, mas o negócio não foi fechado e empresa dona da TSF, DN e JN, acabou por ser parcialmente vendida a outro empresário angolano, António Mosquito.

Os negócios de Sobrinho em Portugal passarão também pela empresa de conservas açoriana Cofaco, dona da marca Bom Petisco, que terá sido comprada em 2012, e por investimentos imobiliários. Segundo o Jornal de Negócios, o empresário adquiriu seis apartamentos no condomínio de luxo da Estoril Sol, na marginal.

Sobrinho chegou a ser investigado por suspeitas de branqueamento de capitais em Portugal, quando ainda estava à frente do BESA, mas um Tribunal da Relação de Lisboa acabou por considerar “inexistentes os indícios de responsabilidade criminal do arguido”.

É por esta altura que surgem os conflitos com Ricardo Salgado que levam à saída de Sobrinho do BESA no final de 2012. Coincidência ou não, começam pouco tempo depois surgir notícias negativas sobre o ainda presidente do BES que este classificou “como um bombardeamento” contra si, movido por influência do seu antigo braço direito em Angola.

Por outro lado, este negócio é um espelho das dificuldades – mas também dos riscos – que podem estar à espreita. Vários economistas têm alertado que os clubes de futebol podem estar a entrar numa bolha inflacionista que coloque em risco a sustentabilidade do futebol, como o conhecemos. (observador.pt)

 

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