Roderick Nehone dá à luz “Filho querido”

Roderick Nehone, autor do romance Filho querido (Foto: D.R.)
Roderick Nehone, autor do romance Filho querido (Foto: D.R.)
Roderick Nehone, autor do romance Filho querido
(Foto: D.R.)

Em alusão ao Dia de África, foi apresentada pelo Prof. Francisco Soares, na União dos Escritores Angolanos a obra mais recente de RODERICK NEHONE, “FILHO QUERIDO”, editada pela Leya – Texto Editores, no quadro de uma parceria que visa divulgar a literatura e os autores angolanos no estrangeiro.

No âmbito deste objectivo, a obra foi lançada no passado dia 14 de Maio em Lisboa. O referido lançamento enquadra-se numa parceria entre a UEA, o Camões/Centro Cultural Português e a Leya -Texto Editores. Em “FILHO QUERIDO” Roderick Nehone, num estilo coloquial, descreve, com a ironia que o caracteriza, o quotidiano de duas famílias numa Luanda, marcado por emoções, afectos, anseios, dramas, frustrações, trai- ções e amores clandestinos. Uma história marcada por encontros e desencontros. Um enigma com algum suspense, só desfeito no final na personagem de um raper falhado, a circular num Daewo Tico azul-escuro.

Uma narrativa que deixa aflorar a tensão entre a cultura tradicional e as conquistas da ciência, particularmente no domínio da inseminação artificial. “Barrigas de aluguer” consideradas produto nefasto, resultado de muitas viagens dos jovens, “que se deixam influenciar pelos maus hábitos dos brancos e desembarcam aqui com esses costumes”. Personagens delirantes como a Tia Santa, a exalar sabedoria por todos os poros da sua provecta idade. Uma escrita oral apurada até ao detalhe pelo autor. Um final, se não totalmente feliz, pelo menos conciliador. REALISMO De acordo com o apresentador da ora, o professor Francisco Soares, “o trabalho artístico de Nehone se destaca por acentuar o realismo, moderar a experimentação e vincar as preocupações sociais (não propriamente políticas, mas sociais). O critério que parece regular a composição das suas obras é o da busca e experimentação de padrões definidos e este livro – Filho querido – confirma-o largamente.

A intriga do livro, sobretudo no princípio, nos parece elementar. As cenas iniciais praticamente reportamse a dois casais recentes, de posição social diferente, incluindo a narração curta das respectivas ‘luas de mel’. A preocupação com o padrão ‘natural’ dos acontecimentos sente-se logo no primeiro evento decisivo para o avanço da intriga: um acidente automóvel provocado pelo exagero de certo condutor num trânsito caótico e asfixiante. Só pode soar ‘lógico’ e ‘natural’ o acontecimento, antecipado por um curto episódio em que o condutor insulta e põe em perigo outro condutor pouco antes de provocar o acidente. Os motivos (trânsito caótico, condução irresponsável) são bem conhecidos por todos os que vivem em Luanda e bem explicados no texto a partir da maneira como a cidade cresceu. Eles denunciam também, desde logo, a preocupação didáctica do autor, pois o resultado que produzem para a narrativa (acidente quase mortal) inibe os comportamentos perigosos. (…)

Convidados (Foto: D.R.)
Convidados
(Foto: D.R.)

O surgimento da segunda intriga vem, por si, colocar a questão fundamental do amor, ou melhor, das relações entre amor e casamento. Porque, apesar de ambos amarem os seus parceiros, ambos os traem. Essa traição, como não podia deixar de ser, num autor preocupado com padrões de comportamento e não só estéticos, há-de se tornar perigosa para ambos os casais. Outro facto comum, embora menos comum que o das relações extraconjugais, é o da infertilidade. Ela torna os casais instáveis e isso vai possibilitar um desenvolvimento algo inédito da intriga, porém sustentado por um facto comum. (…) Se a infertilidade é incómoda para qualquer casal, em Angola é sentida com muito mais intensidade por força das tradições bantu. (…)

O casal, porém, vai romper com a tradição e procurar uma solução ‘moderna’: a da inseminação artificial.” CHOQUE DE CULTURAS “A opção do casal permite à narrativa expor o choque entre a cultura urbana e cosmopolita de hoje e a cultura conservadora e rural anterior, actuante ainda no quotidiano luandense”, segundo Francisco Soares. “Mas abre também para o momento seguinte e para o desenlace da narrativa. Porque é a amante que vai oferecer-se para servir de ‘barriga de aluguer’. Estranhamente, sem que o autor tenha necessidade de fazer intervir forças ocultas, é justamente por ela que a mulher infértil opta.

Estranha, mas logicamente: quem mais queria sê-lo mais se esforçaria por ser – atenta, simpática, descomplexada, preocupada em agradar inspirando confiança. (…) Apesar da procura dominante de padrões harmoniosos e realistas, a narrativa termina em aberto. Em aberto na medida em que não sabemos o que será da criança nesse depois da reconstituição dos casais. Nem isso já interessa, porque a meta estética e a preocupação social estão cumpridas.

Apresentação 1O romance pode, portanto, acabar. E, canonicamente, deve.

REVELAÇÃO DA FICÇÃO RODERICK NEHONE, pseudónimo literário de Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso, nasceu em Luanda em 1965. Licenciou-se em Direito na Universidade Central de Las Villas, em Cuba, e foi docente da Universidade Agostinho Neto, de 1991 a 2004. É membro da Ordem dos Advogados de Angola e Vice-Presidente da União dos Escritores Angolanos. Da sua vasta obra publicada constam “Génese”, Prémio António Jacinto de Literatura (1996), “Estórias Dispersas da Vida de um Reino”, Prémio Sonangol de Literatura (1996), “O Ano do Cão”, Prémio Sonangol de Literatura (1998), “Peugadas de Musa” (2001), “Tempos de Véu” (2003) e “Uma Bóia na Tormenta” (2007)

A vasta obra de RODERICK NEHONE tem merecido críticas favoráveis de nomes de referência como Luís Kandjimbo, que o considera “uma das mais fulgurantes revelações da ficção narrativa angolana, exibindo uma diversidade de recursos a que se associa especialmente o fôlego para a construção de mundos fantásticos”. (cultura.ao)

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