“Parcerias entre empresários portugueses e angolanos são naturais”

Miguel Frasquilho (Foto: D.R.)
Miguel Frasquilho (Foto: D.R.)
Miguel Frasquilho
(Foto: D.R.)

A pouco mais de uma semana do 1.º Fórum Empresarial Angola-Portugal, que ocorre a 23 de Junho, em Luanda, o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal traça as metas do evento e faz o balanço das relações entre os dois países. Ambos ganham com as actuais e futuras parcerias, afirma.

O fórum está ligado à diversificação da economia angolana. Como olha para os desenvolvimentos que Angola tem feito neste capítulo?

Os países ricos em matérias-primas têm, em geral, poucos incentivos naturais para diversificar a sua economia para além dos sectores-chave, no caso, o petróleo. São circunstâncias especiais movidas por uma moeda sobrevalorizada que induzem comportamentos que até podem parecer lógicos e automáticos, mas não incentivam a substituição das importações por produção local. Também é verdade que Angola, na primeira década de paz, concentrou esforços e recursos na reconstrução, na recuperação de infra-estruturas, na construção de hospitais, escolas e casas sem as quais não poderíamos hoje pensar nos processos de industrialização e diversificação da economia. Assim, chegamos à data de hoje com alguns passos dados e outros por dar, mas sobretudo com uma necessidade muito grande para que esta frente não petrolífera se dote urgentemente de capacidade e se assuma como uma alternativa.

As empresas portuguesas têm apoiado este processo?

Sim, na medida do possível. Segundo os relatórios anuais da ANIP, Portugal tem estado sempre, senão no primeiro lugar, entre os dois ou três principais investidores no sector não petrolífero, mas pensamos que há margem para mais. Portugal tem hoje a exportar para Angola cerca de 10 mil empresas – quase o dobro das exportadoras para Espanha.

Este contributo pode ser aumentado?

O primeiro contributo das empresas portuguesas, ainda numa óptica de exportação, é na oferta e disponibilização de produtos que geram valor. Os produtos portugueses têm qualidade, porque são produtos europeus certificados, confiáveis, e isto, em sectores como o alimentar e farmacêutico, é crítico. Cegam a custos muito competitivos e introduzem alguma concorrência num mercado onde os consumidores poderiam, de outra forma, estar sujeitos ao poder dos monopólios. O segundo contributo é quando passam de exportadores a investidores, sendo que o segundo estatuto, na maioria das vezes, requer a passagem pelo primeiro. Como investidoras, as empresas portuguesas podem, melhor do que ninguém, transferir tecnologia e conhecimento.

A crise de divisas e o abrandamento do crescimento económico de Angola tem suscitado menos interesse por parte das empresas portuguesas em entrar no País?

O actual contexto veio criar situações de atraso de pagamentos, por um lado, e de ausência de novas encomendas e redução do mercado, por outro. Mas o que é certo é que as empresas portuguesas estão cá! Angola não é um mercado de circunstância para as empresas portuguesas. Muitas têm estruturas no mercado e outras têm canais e linhas de produção dedicadas ao mercado que não podem abandonar ao primeiro abanão. É necessária alguma paciência, uma melhor preparação e a montagem de instrumentos de apoio ajustados a esta circunstância. Foi isso que fizemos, por exemplo, ao criar a linha de apoio à tesouraria com o tecto de 500 milhões de euros. E temos reforçado as iniciativas de capacitação empresarial no sentido de alertar para a preparação na abordagem ao mercado e, neste caso, o estabelecimento de unidades de produção local pode ser uma das alternativas.

As empresas portuguesas que procuram investir em Angola querem vir sozinhas, ou a criação de parcerias locais tem aumentado?

As parcerias entre portugueses e angolanos são naturais. É por isso que a primeira vaga de empresas portuguesas vinha em parceria; os riscos eram elevados, mas o retorno para ambas as partes era claro. Numa segunda vaga, algumas destas parcerias correram menos bem, o que resfriou esta forma de entrada. Agora, vamos organizar um Fórum Empresarial Angola-Portugal porque queremos promover estas parcerias. Queremos que os empresários portugueses conheçam os empresários angolanos ávidos de contribuir para a construção do seu país.

Quais as principais preocupações das empresas portuguesas que já estão em Angola e das que querem vir?

Os custos e riscos de Angola são conhecidos. Não obstante terem sido feitos esforços recentemente na redução da burocracia e da informalidade, na agilização dos processos de constituição de empresas, na redução da opacidade de alguns processos e na resolução de conflitos, continuam a ser aspectos sensíveis de acordo com os investidores que acompanhamos. Também no sector da energia acompanhamos os ambiciosos projectos públicos e público-privados que estão a ser implementados, e que sem dúvida contribuirão para uma melhoria muito significativa da atractividade de Angola. E finalmente, na área da formação da mão-de-obra e qualificação dos quadros, saudamos os esforços do Plano Nacional. Este é um sector onde pensamos que as instituições portuguesas, através de processos de intercâmbio de quadros, as entidades formadoras, as empresas, todos os agentes económicos podem dar um contributo.

Quantas empresas se espera que estejam presentes no fórum?

A AICEP está muito empenhada em envolver o maior número de empresas portuguesas. Em especial, a nossa delegação em Luanda tem feito um trabalho de mobilização muito intenso. O nosso delegado, Luís Moura, com todo o apoio da AICEP, está a mobilizar grandes exportadores portugueses ainda sem presença em Angola, bem como empresas portuguesas já estabelecidas no País e que são, por isso, prováveis investidores noutros sectores de actividade. Estamos a mobilizar também empresas angolanas empreendedoras, que procuram dar o seu contributo para a industrialização e diversificação da economia angolana. É a primeira edição do fórum e sabemos que não conseguiremos tudo agora, mas queremos criar uma regularidade que pretende mobilizar cada vez mais agentes económicos. Gostaríamos de poder acolher todas as empresas que quisessem e pudessem vir. As inscrições são gratuitas mas obrigatórias e podem ser feitas através do site da AICEP www.portugalglobal. pt -clicando no ícone sobre o fórum).

Que sectores vão estar representados?

De manhã, teremos apresentações sectoriais nas áreas das infra-estruturas, energia e águas, agricultura, indústria, transporte e logística; à tarde, mesas-redondas sobre quatro temas – a diversificação, os financiamentos, as parcerias, e a formação e capital humano. Teremos ainda intervenções sobre oportunidades nas províncias e terminaremos com uma prova de vinhos.

O que se espera deste encontro, em concreto?

Esperamos constituir e aprofundar parcerias que criem oportunidades de negócio. Esperamos que entre as empresas angolanas e portuguesas se reforcem e identifiquem oportunidades no âmbito dos processos da diversificação e industrialização de Angola. Mais parcerias significam mais riqueza e mais formação qualificada para os dois países.

Que outras iniciativas poderão vir a surgir, no âmbito da AICEP em Angola, nos próximos tempos?

Em Julho, teremos a participação de Portugal na FILDA. Este ano, contamos com mais de 65 empresas que ocuparão o Pavilhão de Portugal. Na rentrée, continuaremos a promover a presença portuguesa nas feiras sectoriais, a apoiar as missões ao mercado de associações e empresas, e a acompanhar os processos de estabelecimento de empresas portuguesas em Angola. E continuaremos a tentar dinamizar iniciativas de prospecção e identificação de oportunidades, incluindo nas províncias, e ainda eventos de consolidação da presença no mercado – sejam de capacitação empresarial ou de networking com decisores e agentes económicos locais. (expansao.ao)

Por: Ricardo David Lopes

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