Paraisópolis, a favela ‘pop’ que começa a sofrer com a especulação imobiliária

Vista da favela de Paraisópolis: região cobra melhorias. / Eduardo Knapp (Folhapress)
Vista da favela de Paraisópolis: região cobra melhorias. / Eduardo Knapp (Folhapress)
Vista da favela de Paraisópolis: região cobra melhorias. / Eduardo Knapp (Folhapress)

Encravada ao lado do Morumbi, um dos bairros mais nobres de São Paulo, na zona sul, Paraisópolis é a segunda maior favela da capital paulista em termos habitacionais (tem cerca de 100.000 habitantes) e certamente a mais famosa do Estado _mesmo antes de estar diariamente na televisão dos brasileiros, com a novela I Love Paraisópolis (TV Globo), no ar há um mês. Vizinha de mansões e prédios de luxo do Morumbi, e um dos símbolos da desigualdade da cidade, sempre foi valorizada, sobretudo pela proximidade com áreas como a Berrini e a Juscelino Kubitschek, onde multinacionais têm sede. Embora especialistas não sejam unânimes em apontar para a gentrificação da região, ouve-se pelas ruas uma queixa frequente: ficou mais caro morar por lá. Agora, seus moradores pretendem aproveitar o efeito novela para reivindicar que as melhorias no bairro alcancem o ritmo do aumento do custo de vida.

Um barraco com um quarto/sala, uma cozinha e um banheiro não sai por menos de 400 reais mensais, mas frequentemente esse valor chega a 600 reais, pouco menos de um salário mínimo. O EL PAÍS ouviu reclamações principalmente pela alta dos preços dos aluguéis, ainda que área sofra com uma série de problemas comuns às favelas brasileiras: faltam obras de saneamento básico, infraestrutura e moradias populares; os alagamentos e incêndios são frequentes; a segurança é débil e o acesso ao transporte público não é dos melhores.

Em meio a isso, a comunidade vive uma notória verticalização: basta uma volta a pé pela região para ver a proliferação de andares – os famosos puxadinhos – que crescem sobre as casas de alvenaria, que às vezes alcançam até sete andares, construídos pelas mãos dos próprios habitantes. Nos novos andares, mais cômodos colocados para locação.

“O que aumenta o custo de vida em Paraisópolis é principalmente a falta da construção das unidades habitacionais que a prefeitura prometeu. Porque com 6.000 pessoas recebendo aluguel social da prefeitura, é óbvio que o preço do aluguel vai subir”, reclama Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores e Comércio de Paraisópolis.”Tem gente de Paraisópolis, que viveu a vida inteira aqui, e que agora não conseguem mais ficar”, completa.

Segundo uma pesquisa feita pela Serasa, divulgada no último domingo no Fantástico (TV Globo), um em cada três moradores de Paraisópolis estão endividados, índice um pouco acima do percentual registrado em toda capital paulista, que é de um a cada quatro.

“Quem reclama que está mais caro viver nas favelas está certo. E isso não aconteceu somente em Paraisópolis, mas na maioria das favelas da zona sul do Rio de Janeiro também”, diz Renato Meirelles, diretor do Data Popular. Uma pesquisa deste instituto realizada em fevereiro com 1.007 moradores de favelas em São Paulo apontou que 57% dos ouvidos acreditam que “está mais caro viver na favela do que um ano atrás” e 48% dizem que “o lado ruim do desenvolvimento da favela é o aumento do preço do aluguel”.

“Você tem alguns fatores que levam a isso, um deles é que está mais caro para viver no Brasil. Ponto. E a renda das favelas cresce mais que a do país, o que aumenta a procura por produtos e serviços, gera inflação, etc. Mas tem um fator externo, e é isso que Paraisópolis tem em comum com o Vidigal ou com o morro do Alemão, que é a notoriedade dessas comunidades. Seja para o turismo, sejam pessoas de outras áreas que agora querem morar em Paraisópolis ou no Vidigal… Isso aumenta o valor do metro quadrado e, consequentemente, encarece o custo de vida”, explica Meirelles.

Gentrificação é o termo usado por urbanistas para explicar um fenômeno comum em várias partes do mundo: pessoas de maior poder aquisitivo passam a viver em bairros pobres, obrigando os moradores locais a se mudarem para outras áreas devido ao consequente aumento do custo de vida. Além do encarecimento local, a gentrificação muda a cara do bairro como um todo. No linguajar brasileiro popular, seria algo como a gourmetização das favelas. Enquanto no Vidigal a instalação de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) foi apontada como o fator da elitização, em Paraisópolis, as obras de urbanização iniciadas há dez anos pela prefeitura, além da proximidade de bairros nobres como o Morumbi, é o que atrai olhares estrangeiros. Mas para Meirelles, o fenômeno ainda não é o que ocorre em Paraisópolis.

“Não acho que há. Falar em processo de gentrificação é muito pesado. O que acho é que há um claro processo de valorização da região. Agora, isso também traz muita coisa boa. Não dá para falar que aparecer numa novela é ruim para a comunidade. O seria melhor então? Permanecer afastado? Virar um gueto?”, pondera o pesquisador.
Efeito novela

Em abril, Paraisópolis realizou um protesto cobrando da Prefeitura de São Paulo e do Governo do Estado ma série de reivindicações. De Fernando Haddad (PT), a população cobra a retomada das obras de urbanização da favela, que dizem estar paradas há dois anos – como a construção de novos conjuntos habitacionais populares, de um hospital, o aumento do aluguel social, e a canalização de um córrego que inunda em dias de chuva. Já de Geraldo Alckmin (PSDB), querem principalmente a garantia de que o Linha 17-Ouro do Metrô, o monotrilho, passará pelo bairro.

Dias depois, o governador se reuniu com a associação local e firmou um compromisso de que o monotrilho não sofrerá alterações nesse sentido, a despeito do que pedem alguns vizinhos do Morumbi, que apelidaram a linha pejorativamente de manotrilho e levaram o caso à Justiça. Inicialmente, o Governo estadual havia prometido que a linha ficaria pronta para a Copa do Mundo de 2014, mas as obras atrasaram e a nova previsão de entrega é para 2017.

Já a prefeitura argumenta que não parou de investir na região – em 2013, pouco após assumir seu mandato, Haddad visitou o bairro. Mas a União dos Moradores fala agora em “abandono”. “Nos primeiros meses de gestão nós tivemos uma série de reuniões, as obras chegaram a ser retomadas um pouco, mas depois paralisou por completo. E aí o que aconteceu? Não tem diálogo. A prefeitura está ignorando Paraisópolis”, criticou Rodrigues.

Procurada pela reportagem, a prefeitura rebateu a acusação e negou o abandono. Em nota, afirmou que “atua em diversas frentes para beneficiar a região”. “As obras de urbanização contemplam diretamente 20 mil famílias, com implantação de drenagem, infraestrutura, pavimentação, redes de água e esgoto, além de construção de unidade habitacional, com investimento de 113,8 milhões de reais, entre recursos municipais e federais. Já foram investidos 73,2 milhões de reais. Toda a comunidade já foi beneficiada com 305 novas unidades entregues em parceria com a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Atualmente são 4.728 famílias em Paraisópolis que recebem o benefício do auxílio aluguel. Elas foram removidas de áreas de risco ou de frentes de obras públicas”, afirmou.

Enquanto isso, quem passeia pelas ruas da favela lê, em ao menos trinta pontos, a frase que dá nome à novela global, acompanhada da hashtag #urbanizaçãojá — um intento de tentar direcionar as câmeras e a visibilidade alcançada para os pedidos da população local. Paraisópolis quer mais de seus minutos de fama. (elpais.com)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA