O kwanza derrapa e deixa miserável o salário

NORBERTO CARLOS (Foto: D.R.)
NORBERTO CARLOS (Foto: D.R.)
NORBERTO CARLOS
(Foto: D.R.)

Dizem os entendidos que os economistas quase sempre erram feio nos prognósticos. Outros dizem que as previsões destes pecam por disgnosia.

Não somos apologistas destas teorias. Mas, diante de alguns fenómenos económicos, temos de nos vergar. Os últimos desenvolvimentos da nossa economia obrigam-nos a isso. Todas as previsões mostram que algumas destas previsões falharam.

E mais triste do que isso é constatar que exímios conhecedores sobre a matéria, aqui na banda, insistem constantemente no erro. Fazem previsões optimistas, dizem que a nova pauta aduaneira vai incentivar a produção nacional, desestimulando a importação dos produzidos no País. Prevê-se um aumento exponencial da produção mercantil.

Fala-se em investimentos quando a pequena produção agrícola individual mal chega, na totalidade, aos mercados consumidores. Quando as infra-estruturas rodoviárias ainda estão em falta, enfim, fala-se de uma economia com boas perspectivas. Mas, juntando retalhos, dá para ver que estas previsões não são realistas e mostram que o caminho que trilhamos não parece ser tão sensato assim, nem de tanta confiança.

Os primeiros indícios dos desequilíbrios que nos sacodem vêm lá de longe e agravaram-se em 2014. Neste fatídico ano, todos os erros anteriores vieram à tona. Para piorar, a queda do preço do petróleo acelerou as nossas desgraças.

Vieram, depois, as mudanças de liderança no BNA, a escassez do dólar, as dificuldades nas transacções internacionais, os discursos desencontrados entre os bancos comerciais e o BNA, o deslize acelerado do kwanza e a subida repentina dos preços de alguns bens e serviços.

Para piorar, foi também em 2014 que entraram em vigor a nova pauta aduaneira e as restrições aos produtos importados que podem ser substituídos pelos nacionais. Todo esse ‘rolo’ gerou escassez e sacrifícios.

Abriu uma porta à especulação e ao enriquecimento ilícito daqueles que têm acesso aos poucos dólares disponíveis no mercado. As prateleiras dos supermercados viram menos variedades de produtos, e os preços, em alguns casos, dispararam.

Tudo isso junto fez ruir o salário do trabalhador. Este perdeu metade do seu valor real, no mercado informal que sustenta parte da nossa vida. Hoje já não podemos caprichar na mesa. Quem ganha até 200 mil Kz não pode dar-se ao luxo de comer fiambre ou queijo e beber leite, com regularidade. E ainda vai ter de comer menos pão, e até vai ficar difícil substituir alguns destes produtos pela mandioca ou a batata-doce.

Tudo encareceu, incluindo os produtos nacionais, e os preços, às vezes, oscilam. Estamos a pagar mais por menos. As frutas e hortaliças cá da banda também estão mais caras. O cinto chegou ao fim, já não dá mais para apertar. Estamos a ficar a cada dia mais pobres. Acrescido a tudo isso, subiu o valor das propinas, do transporte escolar dos miúdos, enfim, a vida endureceu. Com o salário curto não dá para viver, com dignidade, durante o mês.

Admitamos agora, para fins de argumentação, que todo esse imbróglio configure mesmo um sacrifício necessário que poderá, lá para a frente, transformar-se em esperança de dias melhores. Talvez. Mas nada configura que sim, tão rápido. O que se passa hoje na nossa economia está a enraizar, outra vez, a tendência dos cidadãos em poupar ou guardar dinheiro no garrafão.

A convivência disforme, entre o kwanza e o dólar americano nos mercados formal e informal arrasta o cidadão para o descrédito do sistema financeiro. Os riscos são múltiplos. Se o kwanza está em acelerada erosão, o dólar escasseia, e mesmo a poupança, nesta última moeda, é arriscada. Fazê-la nos bancos, muitas vezes, não dá garantias de que estará disponível quando a desejarmos. Pior ainda para realizar algumas transacções.

Como qualquer uma das hipóteses não trava a desvalorização do kwanza, a alternativa é gastá-lo, ou, para evitar a erosão, mas lá para frente, trocá-lo no informal e fazer alguma poupança, em dólares americanos, em casa. Com tantas incertezas assim, o melhor para não ser pessimista, no fundo, é acreditar na célebre frase “deixe a vida me levar”.

Os palpites falhados, que não coincidem com o curso dos acontecimentos do mercado, levam-nos a recear, pois, que continue a prevalecer, entre nós, uma visão provinciana da economia. Um olhar que tende a valorizar apenas os ‘doutores’, considerando todos aqueles iluminados que não sejam especialistas em economia, portadores de experiências económicas ou de reconhecido prestígio nas lides da vida real, como pessoas de segunda categoria neste quesito. Enquanto essa for a fantasia colectiva, não podemos deixar de lembrar que, hoje, mesmo doutores enfrentam dissabores e, às vezes, as previsões sobre os diferentes mercados mostram ser um redondo fracasso.

Diante de tudo isso, a única alternativa que nos resta, para segurar os desequilíbrios e a velocidade imparável da erosão do kwanza e de tantas incertezas quanto ao futuro económico, imediato, do País, é apelar para o Fundo Soberano como reserva estratégica do Estado para a capitalização da economia e fortalecimento económico do País.

É urgente, por isso, que se faça alguma coisa para a contenção desta degradação acelerada da nossa vida económica e social. Por que já convivemos com a triste constatação do moçambicano Mia Couto segundo a qual “saímos todos os dias para a rua, para produzir riqueza, mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho nem esperança”. (expansao.ao)

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