Mukwa kwiza*

(Foto: D.R.)
(Foto: D.R.)
(Foto: D.R.)

Já imaginou se um dia destes os luandenses se sentissem no direito de escorraçar todos aqueles que não nasceram em Luanda e quisessem-na só para eles?

Ou que algum governante pirómano, natural de Luanda, se apresentasse nas eleições autárquicas com uma proposta, segundo a qual o problema do lixo na capital passaria pela saída de todos aqueles que ainda estão aqui ‘refugiados’, fugidos do conflito armado, treze anos depois do seu término?

Deixem lá. São apenas algumas ideias avulsas que nos últimos dias têm azucrinado a minha cabeça. Os primeiros que pensassem desta forma seriam logo esmagados e o político, por ironia do destino, dificilmente teria condições para se recompor da derrota que sofreria nas urnas e do sacrifício exigido pela própria sociedade.

Em princípio, Luanda, a capital, é o palco onde convivem todos. Todos os povos, todas as culturas, todos os hábitos e costumes. É a cidade dos ambundu, dos umbundu, dos tchokwe, dos luvale, dos nganguela, dos ibinda e não só.

Luanda é ainda a terra prometida onde milhares de estrangeiros, de todos continentes, procuram melhores condições de vida.

Esta convivência de hábitos e costumes que se assiste em Luanda, a capital, não é comum em muitas partes do território angolano. Essa situação, conhecida em muitas regiões pelo nome Mukwa kwiza, estará a ganhar passos mais perigosos.

Infelizmente, a competência ainda não é o requisito desejável em muitas partes deste país para se assumir determinadas funções, sejam elas a nível das empresas privadas, repartições públicas e até nos governos provinciais.

Quando assumiu o posto de governador do Kuando-Kubango, em 2013, o calulense Higino Carneiro foi confrontado meses depois com uma carta, supostamente feita por algumas autoridades tradicionais locais, que reclamavam não só da sua presença, como do facto de ter despromovido alguns filhos da terra.

Em momento algum os subscritores do tal documento ativeram-se ao facto de os supostamente afastados estarem ou não capacitados para ocuparem os lugares em questão ou se deveriam merecer a confiança do general.

No Kuanza-Norte, o luandense Henrique André Júnior, que substituiu o maquisard Manuel Pedro Pacavira, natural da província e que era fortemente contestado pelos seus próprios conterrâneos, parece ser o governante que tem sido colocado cada vez mais à prova.

Em causa está a circunstância de supostamente não ser natural do Kuanza-Norte e que o lugar no Governo Provincial deve ser ocupado, única e exclusivamente, por um filho da terra. Por causa disso, o seu palácio já foi invadido por gente estranha e até uma cobra terá sido depositada numa das suas pastas de trabalho, segundo informações publicadas pela imprensa em Luanda.

Ser natural de uma localidade não pressupõe que sejamos, à partida, os mais aptos para a dirigirmos. Luanda, a cidade dos mil e um problemas, chegou a brilhar mais às mãos do uigense Aníbal Rocha e não o contrário. Os luandenses de gema têm estado a ver fumo, apesar da confiança que já lhes foi depositada.

O fenómeno Mukwakwiza, que chegou a ser tratado e mencionado pelo próprio Presidente da República, numa reunião do MPLA, continua vivo e cada vez mais sofisticado.

Depois daquela chamada de atenção, há quatro ou cinco anos, não ouvimos da sociedade, particularmente dos historiadores, dos sociólogos e de outros intelectuais, propostas para se debelar esse mal que grassa no interior.

Não se trata somente de uma situação visível a nível das grandes estruturas, onde alguns incautos utilizam pessoas menos preparadas, em nome do suposto amor pela terra onde nascemos, como detentores absolutos dos direitos da sua governação.

Até nos escalões inferiores já é visível. Quando há dias ouvimos que a Comissão Para Economia Real, dirigida pelo vice-presidente, Manuel Domingos Vicente, defendera a necessidade de o Executivo criar condições para a contratação de mais professores, médicos e outros quadros para o país veio-me, outra vez, está questão do ‘mukwakwizismo’ à cabeça.

Em muitos casos, a desistência destes quadros em se estabelecerem no interior do país não está só associada à falta de condições infra-estruturais, salariais ou outros tipos de incentivos.

A discriminação de que são vítimas muitos destes quadros, por parte dos supostos ‘donos da terra’, tem contribuído também para desistência de muitos. É preciso que a sociedade e as autoridades encontrem mecanismos, incluindo legais, para se punir e prevenir possíveis situações mais complexas no futuro.

Infelizmente, temos preferido, conscientemente, guerrear os nossos irmãos de sangue pelo simples facto de não terem nascido no mesmo sítio que nós, mas assistimos em muitos casos os nossos lugares e as oportunidades a serem ocupadas por estrangeiros de várias latitudes.

Basta ver que não se quer um angolano no mesmo espaço com uma cantina ou qualquer outro tipo de negócio, mas temos ao lado os cidadãos estrangeiros a venderem o simples quilo de sal, pão ou até mesmo a zungarem.

Não quero com isso dizer que não se pode empregar pessoas que tenham nascido noutros países. Mas, o que está a acontecer entre nós é pura hipocrisia.

*Expressão utilizada em algumas partes do país para designar os ‘forasteiros’ (opais.ao)

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