Morto há 80 anos, Carlos Gardel chegou a levar tiro de Roberto Guevara, tio de Ernesto Che Guevara

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Há 80 anos, Carlos Gardel deixava de ser o maior ícone do tango para se tornar um mito. O cantor, compositor e actor de cinema morreu em 1935 num choque entre dois aviões, no aeroporto da cidade colombiana de Medellín. Registada pela Unesco como Memória do Mundo, a voz de Gardel vai ecoar nesta quarta-feira (24) em homenagens na Argentina, no Uruguai e na Colômbia.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Oito décadas depois da sua prematura morte, aos 44 anos de idade, o ditado popular argentino terá a chance de reafirmar que “Gardel, a cada dia canta melhor”. Os fãs do cantor, chamados de gardelianos, terão agenda lotada ao longo de toda a semana.

Em Buenos Aires, há várias exposições. As duas principais são no Museu Histórico Nacional e na Assembleia Legislativa. Também haverá palestras, concertos e uma homenagem no cemitério de La Chacarita, onde Gardel está enterrado. Os fãs prometem visitar as estátuas do astro no bairro do Abasto, onde ele morava, e no cemitério.

Em Medellín, acontece o 9º Festival Internacional do Tango sob o lema “Antes morrer do que te esquecer”. No aeroporto onde aconteceu o acidente aéreo, apresenta-se a Filarmónica de Medellín. Nessa cidade colombiana, o tango faz parte da cultura local e foi até declarado Património Histórico e Cultural. Hoje, uma estatua de Gardel deve ser inaugurada.

Na capital do Uruguai, Montevidéu, também será inaugurado um monumento. No município de Tacuarembó, a 400 Km de Montevidéu, onde Carlos Gardel teria nascido – segundo os uruguaios -, acontece a Semana Gardeliana.

Além dos 80 anos da morte de Gardel, os uruguaios celebram os 100 anos da primeira apresentação de Gardel no país. Foi a primeira turnê de Gardel ao exterior, em 1915. Naquele ano, o ícone também foi ao Brasil.

Nacionalidade controversa

Gardel cresceu em Buenos Aires, mas a única certeza é que não nasceu na Argentina. A versão mais crível sobre o local onde ele veio ao mundo é a argentina e francesa, documentada com certidão de nascimento. Gardel teria nascido em 11 de Dezembro de 1890 em Toulouse, na França, sob o nome de Charles Romuald Gardes.

Com dois anos e três meses, a mãe dele, Berthe Gardes, foi expulsa por ser mãe solteira e veio à Argentina. Essa versão indica que, quando é declarada a Primeira Guerra Mundial, Gardel com 24 anos de idade, deveria ir ao consulado francês para se alistar. Mas ele não tinha nenhum sentimento francês.

Seis anos depois, acabou se registando no consulado uruguaio em Buenos Aires, em 1920, como nascido no Uruguai – mas esse documento é falso. Um ano depois, ele ganha a nacionalidade argentina.

Já a versão uruguaia diz que Carlos Gardel nasceu no Uruguai, filho de Carlos Escayola, fruto de uma relação ilegítima com outra mulher. Teria sido entregue à francesa Berthe Gardes, que regressa à França onde, três anos depois, tem outro filho. Seria essa a criança que aparece na certidão de nascimento francesa. Depois, a mulher teria voltado ao Uruguai, buscado o filho adoptado Carlos Gardel e se muda para a Argentina.

Os defensores dessa versão querem que o governo uruguaio solicite um teste de DNA nos restos mortais de Gardel, para provar o parentesco com a família uruguaia. O cantor teria vivido com documentos falsos. Na primeira viagem ao Brasil, em 1915, num episódio praticamente desconhecido, Gardel teria sido detido por esse motivo em São Paulo, numa turnê no Teatro Municipal.

Ícone do tango

Carlos Gardel revolucionou o tango, ao colocar voz na música. Ele não foi o único na época, mas foi somente ele quem perdurou. A sua voz, o seu estilo e a sua cadência determinaram como o tango, até então tocado, seria cantado. Ele criou o tango canção.

Gardel tinha uma importação de voz natural. Não precisava colocar a voz num determinado tom numa época em que não se usava microfone. Nunca desafinou, nem recorria ao falsete. O cantor teve uma formação lírica e voz de barítono. O seu legado foi adaptar o canto lírico ao ritmo popular.

Gardel levou um ritmo praticamente clandestino à elite, e exportou a cultura argentina ao cenário internacional. No período em que ele viveu, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo. O tango virou moda no resto do planeta.

Um tiro no peito

Ao contrário do samba, cuja revolução completa na forma de tocar e de cantar foi a bossa-nova, o tango não teve uma revolução completa. Astor Piazzola o revolucionou, em parte: foi para o tango o que Tom Jobim foi para o samba, mas foi instrumental. Não houve um João Gilberto no tango – ninguém conseguiu alterar a forma de cantar. Alguns tentaram suavizar, mas não passaram de uma variação de Gardel.

Mais recentemente, a partir dos últimos 15 anos, o tango começou a se misturar com a música electrónica, o chamado tango electrónico ou eletrotango. Mas, mesmo assim, não há voz: é o bandoneon que guia a melodia.

Gardel, portanto, é único. Ninguém o substituiu. Os últimos grandes cantores de tango seguiam a sua linha. Por isso, a expressão de que “a cada dia canta melhor” faz sentido. O acidente aéreo chegou no melhor momento da sua carreira e o transformou em lenda. Na Argentina, existe uma expressão, “ser Gardel”, que significa ser o máximo, o melhor.

Um episódio pouco conhecido que ilustra bem esse carácter imortal. Na noite de 10 para 11 de Dezembro de 1915, quando ele completava 25 anos e tinha feito uma apresentação, envolveu-se numa briga e acabou levando um tiro. Quem disparou foi ninguém menos do que Roberto Guevara Lynch, tio de quem seria décadas depois Ernesto Che Guevara.

A bala ficou presa no pulmão esquerdo de Gardel, que viveu quase 20 anos com uma bala muito próxima do coração. No tango Volver, ele diz que quer voltar, que a vida é um sopro e que 20 anos não são nada. Ele continua vivo, 80 anos depois. Oito décadas não são nada para um imortal. (rfi.fr)

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