Lula: PT perdeu a utopia, “só pensa em ser eleito”

(AFP 2015/ Nelson Almeida)
(AFP 2015/ Nelson Almeida)
(AFP 2015/ Nelson Almeida)

Em conferência realizada nesta segunda-feira (22) pelo Instituto Lula em São Paulo, o ex-presidente do Governo da Espanha Felipe González falou sobre a crise grega, a questão dos imigrantes e os erros de política que levaram o continente europeu à sua atual crise de governança e democracia.

O evento, organizado em parceria com as Fundações Friedrich Ebert e Perseu Abramo, também contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que decidiu se pronunciar ao fim do debate.

“A vinda do companheiro Felipe González para o debate pode ser o começo de um novo momento de discussão que a gente tenha que fazer no Brasil. Durante muito tempo nós nos trancamos na nossa verdade e também durante muito tempo assistimos a esquerda europeia ir definhando, definhando, perdendo cada vez mais o discurso”, disse Lula, agradecendo a presença de González.

Sobre a experiência no poder do Partido dos Trabalhadores (PT), o ex-presidente disse que seu “maior legado” foi o exercício da democracia. “Nunca antes na história do Brasil o povo exerceu tanta democracia”, disse ele, destacando mecanismos de participação nas decisões políticas introduzidas durante seu governo.

No entanto, Lula reconheceu que o partido precisa repensar sua atuação, principalmente porque, segundo suas palavras, “perdeu um pouco a utopia” que o caracterizava antes de ter chegado ao poder.

“A gente nasceu de um sonho, e era um sonho muito pequeno: que a classe trabalhadora pudesse ter vez e ter voz. E nós construímos essa utopia. (…) Acontece que o partido político cresce (…), e quando isso acontece entramos na roda gigante da política. E muitas vezes, ao invés de mudar a politica, a gente vai se adequando à política”, ponderou o ex-presidente.

“O PT perdeu um pouco a utopia. Lembro como a gente acreditava nos sonhos, como a gente chorava quando falava. (…) Hoje a gente só pensa em cargo, (…) em ser eleito. É o vício do partido que cresceu e que chegou ao poder. O PT precisa construir uma nova utopia”, acrescentou, muito aplaudido pelo público.

“Temos que decidir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou salvar o nosso projeto”, resumiu.

Lula também comentou a crise da democracia na esfera internacional. Citando o caso recente do Egito, ele destacou que uma promissora “Primavera Árabe” acabou desembocando, atualmente, na volta dos militares ao poder.Sobre a Líbia, Lula disse que “a morte do [presidente Muammar] Khadafi não tem explicação para a democracia”. “Resolveram transformar a Líbia no inimigo da humanidade, e hoje a situação está muito pior”, disse ele, lembrando ainda o caso de Saddam Hussein, “quando os americanos inventaram que tinha que invadir o Iraque”.

“A democracia nunca correu tanto risco como agora, porque pessoas insensatas tomaram decisões insensatas”, afirmou Lula, em crítica aberta às intervenções militares patrocinadas por líderes do Ocidente.

González, por sua vez, disse que a União Europeia errou ao priorizar a imposição de medidas de austeridade ao invés de fortalecer “políticas anticíclicas” para enfrentar a crise econômica na Grécia.Em suas palavras, a prática neoliberal que caracteriza o poder dos mercados financeiros globalizados sobre os governos nacionais se traduz como um “esforço de austericídio”, que levou Atenas a aumentar sua dívida de um patamar que era de 20% sobre o PIB grego em 2010 para 190% em 2015.

“A verdadeira consequência [da queda da União Soviética] é que pela primeira vez na História se dá mais importância ao mercado do que à democracia”, pontuou o ex-presidente.

“Nosso verdadeiro poder [enquanto governo] não é a produção de riquezas (…), é criar um marco regulatório previsível e eficaz capaz de proteger as grandes massas e não deixá-las abandonadas”, acrescentou.

González também falou sobre os movimentos anti-imigração que têm se fortalecido na Europa, por vezes com nuances potencialmente fascistas e xenófobas.

De acordo com o palestrante, “na Europa os fluxos migratórios são uma necessidade para a sobrevivência do continente”, mas os políticos europeus não podem mais reconhecer este fato publicamente sem perder os votos de uma camada cada vez mais expressiva da população hostil aos imigrantes.A situação, segundo González, é reflexo de outro erro de julgamento político da liderança europeia. Ele citou, particularmente, o caso da intervenção militar da OTAN na Líbia em 2011 para derrubar o governo de Khadafi, operação que, segundo o ex-presidente espanhol, levou à “desintegração completa do país” e provocou uma enorme onde de refugiados e imigrantes.

González disse ainda que, na época, tentou explicar para a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, bem como para o então presidente francês Nicolas Sarkozy, que a intervenção na Líbia levaria a uma catástrofe, mas não teve sucesso.

Após sua fala, o ministro da Educação, Renato Janine, disse que o processo democrático na América Latina está “sob ataque”, com certas “forças” da extrema direita contestando até mesmo a legitimidade de governos de esquerda eleitos democraticamente, e pediu a opinião de González sobre a melhor forma de enfrentar essa tendência.O ex-presidente espanhol pontuou que a melhora das condições sociais fomentada por governos de esquerda, em geral, acompanha naturalmente o aumento das demandas populares, bem como das críticas e dos ataques, justamente porque o povo ganha condições materiais para poder exigir mais direitos. No entanto, González enfatizou sua total aversão a qualquer movimento golpista, ressaltando a necessidade, para a democracia, de se respeitar a legitimidade das eleições.

Terceiro presidente do Governo desde a volta da democracia na Espanha, González contribuiu entre 1982 e 1996 para a consolidação da democracia espanhola após o fim da ditadura de Francisco Franco, que foi de 1936 a 1975. Membro do Partido Socialista Obrero Español, ele se definiu na conferência desta segunda-feira como membro da “tribo da Internacional Socialista”.

“Durante seus quatro mandatos, ajudou a Espanha a reduzir a inflação, modernizou a economia e ampliou a integração com o continente europeu. Foi um dos responsáveis pela entrada do país da Comunidade Europeia, embrião da União Europeia. Além disso, garantiu a expansão da democratização espanhola dando independência ao judiciário e fortalecendo a liberdade de expressão e de imprensa; promoveu a inclusão social ampliando o acesso das camadas mais pobres à saúde e à educação”, segundo informa o site do Instituto Lula. (sputniknews.com)

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