Henriques Carriço: “Há maior procura pela produção local”- Gerente de exploradora de granitos na Huíla

Henriques Carriço (Foto: Arão Martins)
Henriques Carriço (Foto:  Arão Martins)
Henriques Carriço
(Foto: Arão Martins)

A escassez de divisas já leva as empresas a adquirirem as rochas ornamentais transformadas no país o que favorece a economia angolana segundo o sócio-gerente da empresa Emanha, Henriques Carriço.

O apoio que o Estado angolano tem proporcionado às empresas nacionais na produção e transformação dos produtos na Huíla está a incentivar a exploração de várias actividades que contribuem para a diversificação da economia do país. Em entrevista ao JE, o director geral da empresa nacional de transformação de Granito (EMANHA), na Huíla, Henrique Carriço, disse que o incentivo faz com que as empresas da “Nova Angola industrializada” prestem o máximo para o crescimento e desenvolvimento do país.

Qual é o contributo que a empresa tem dado no processo de reconstrução nacional?

A Emanha é uma empresa transformadora de granito e pioneira da nova era da industrialização de Angola. É uma empresa nacional e de capital exclusivamente angolana, que resultou também da conquista dos 40 anos de independência que se comemoram este ano, cujos ganhos são enormes.

O seu contributo no processo de reconstrução nacional é um facto. A empresa tem fornecido imensas obras no mercado nacional, sobretudo a várias empresas de construção civil. Todas as grandes empresas já trabalharam com a Emanha, desde a Omatapalo à MotaEngil. Porém, são dezenas de empresas que já utilizaram os produtos locais. Podemos dizer ainda que, através da banca, os produtos da Huíla estão presentes em todas as províncias do país.

Existem obras de referência no país feitas com produção nacional e pela empresa?

Uma das várias obras visíveis que utilizaram a produção nacional e feita na Huíla foi a construção dos estádios de futebol que albergaram o Campeonato Africano das Nações (CAN-2010), bem como do Aeroporto Internacional da Mukanka.

Quando há capacidade de empresas meramente nacionais a produzirem e a darem exemplos, isto também orgulha o país?

Sem dúvida. Creio que em Angola não somos diferentes dos outros povos. Nas obras públicas e com alguma visibilidade e que tentam impor imagem bonita ao país, já é utilizado material nacional, conforme acontece noutros países industrializados. É um orgulho ter em obras de vulto o material nacional. Conforme já fiz referência, por exemplo, o aeroporto internacional da Mukanka, no Lubango, província da Huíla, é um exemplo, porque toda pedra ali empregue e sem excepção foi fornecida pela Emanha.

Numa altura em que decorre o processo de diversificação da economia, as empresas que trabalham na transformação e exploração do granito e das rochas ornamentais também podem dar um contributo valioso na economia no país?

Já estão a dar. Na província da Huíla existem 16 empresas a explorarem a pedra. Apesar de muitas optarem em exportá-las para serem transformadas, mas que representa uma boa facturação e consequentemente a entrada do dinheiro vivo na economia regional, provincial e nacional, porque pagam-se os impostos, royalty e significa uma mais-valia, além de serem grandes empregadores.

Quando se tira jovens do desemprego também se contribui para o programa de combate à fome e à pobreza?

Sem dúvidas que sim. Ao empregar pessoas que nunca tiveram colocação, e que passam a ter alguma capacidade de subsistência com os vencimentos que auferem nessas empresas, é claro que se está a contribuir para melhorar as condições sociais das pessoas e das famílias dos trabalhadores e não só deste sector. A preocupação é do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que tem incentivado a participação do empresariado nacional nesta tarefa.

A Emanha já foi distinguida por várias vezes com diplomas de mérito, fruto da qualidade e contributo que tem dado no processo de reconstrução?

Temos certificados internacionais e nacionais de qualidade. A certificação feita é baseada em normas internacionais no aspecto de organização e métodos de produção na transformação da pedra. Para nós é uma grande referência porque todos os anos decorre a reavaliação. Não é algo que se consegue e termina. Não. Todos os anos há um processo de reavaliação para ver se se está a cumprir as exigências estabelecidas. Porém, para se alcançar este feito, é graça também a liderança forte que temos no país.

Representamos recentemente o país na feira internacional de construção decorrida na cidade de Madrid, Espanha. A nível nacional, quer nas feiras da construção em Luanda, quer na Expo-Huíla temos recebido vários prémios.

Qual é a avaliação que faz do mercado nacional, há muita concorrência?

Eu penso que já começa haver alguma concorrência. Os chineses às vezes entram também com a pedra muito mais barata do que aquela produzida no país. É de facto a única origem do mercado que nos faz frente. Mas não podemos comparar com a qualidade da produção nacional que é sempre superior. As obras nacionais são executadas através da medida conforme se faz localmente, e o polimento também é diferente. A qualidade no campo das cinzas é diferente, porque o de Angola tem melhor nível. Por exemplo, o granito negro de Angola é o único no mundo. Temos ainda o roza-Huíla que é também único. Recentemente introduziu-se com muito sucesso o calcário.

Abriu-se uma pedreira na província de Benguela para explorar calcário com dois objectivos: o primeiro objectivo é de produzir blocos de rochas ornamentais, o que faz parte do programa da diversificação da economia e da oferta da própria empresa, porque mói se esse produto para a correcção da acidez dos solos agrícolas. Já há essa mais-valia implantada na província de Benguela.

Qual é o objectivo com a introdução de métodos de correcção de solos?

O objectivo é de fazer com que os níveis de produção e colheita sejam melhorados. Tem sido aposta do Executivo de aumentar a renda das famílias com a atenção que se presta na área da agricultura e a correcção da acidez dos solos agrícolas. É reconhecido que a maior parte dos solos agrícolas ainda têm ácido, o que faz com que nem sempre a produção se desenvolva em pleno, e precisem de correctores de acidez. É o que se está a produzir em Benguela. Já se lançou e começou-se a produzir, o que vai fazer com que as terras sejam mais fertéis para produzir alimentos e se aumente a renda das famílias. O produto que é fino ao ser incorporado no solo tenha uma interacção com solo muito rapidamente, para melhorar a acidez.

A melhoria do solo é extensiva a outras províncias?

Na província de Benguela é onde o material é extraído e transformado. Mas há capacidade de fornecer para todas as províncias do país. Aliás, já se está a enviar quantidades significativas para a província do Cuanza Norte e na Huíla, sobretudo nas fazendas da Matala.

Quais são os actuais níveis de produção da pedra transformada em mármore e outros?

Os níveis de produção na Emanha neste momento não estão famosos. Acabamos esse ano quase a quadruplicar a capacidade de corte de pedra. Simplesmente não se contava com a retracção do mercado. Nós produzimos em função das encomendas e nessa altura as diminuíram, daí, produziu-se menos em comparação com o ano passado. As encomendas baixaram na ordem dos 60 por cento.

Qual é a causa da baixa das encomendas?

Sabemos que estamos a viver a crise financeira que resultou da redução do preço do petróleo e esse factor tem muita influência directa.

Sabemos que a economia angolana tem girado a volta do petróleo. Quer dizer que o rendimento do petróleo é que faz de uma forma directa andar a economia. Se a principal fonte de receitas teve uma baixa significativa no país, e houve a necessidade de revisar o Orçamento Geral do Estado (OGE), é evidente que há muito menos massa monetária a circular na economia. Então, isso faz com que haja obras que estejam adiadas e a espera de melhores dias para poderem avançar. Sentimos que está-se a espera de melhores dias, porque o nível de encomendas concretas diminuiu, conforme acabei de dizer. Mas as propostas, os pedidos estão a aumentar. Temos muitos, mas a encomenda vai sendo progressivamente adiada.

Tem sido preocupação do Estado o incentivo da utilização daquilo que é nacional. Acha que a Emanha, em função das solicitações, já sente essa pressão de preferir a produção nacional?

Já sim. Houve um salto enorme nesse aspecto, que já sentimos no ano passado, por força da orientação do Executivo, que determinou que as obras públicas devem procurar “inputs” nacionais, tais como a pedra e outros elementos que entram na construção civil. Por outro lado, a situação proporciona vantagens ou desvantagens.

As dificuldades que as empresas têm de aceder às divisas para importar material, leva-as também a equacionar a compra. Para comprarmos no mercado interno não precisamos de divisas, logo, esse é também um factor potenciador da indústria de transformação. Por esses factos vai haver maior procura desses materiais.

Como tem sido o trabalho de exportação daquilo que se produz?

No início exportávamos basicamente para a Europa, através de Portugal. Não foi tanto assim, mas exportámos. A partir do momento em que o país entrou na fase de reconstrução começou-se a sentir maior pressão no mercado interno e não fazia sentido estar a vender para o exterior, quando o mercado nacional podia absorver toda produção. Por outro lado, é preciso não esquecer que muito recentemente toda economia mundial entrou em crise financeira, logo, também houve uma retracção de países como Portugal, Espanha, Itália, a própria França. As grandes obras pararam e esses mercados deixaram de absorver a pedra que absorviam e os preços baixaram. Preferimos ficar no país, porque nem sempre os preços acabam por ser interessantes. Na Europa as empresas para sobreviverem baixaram os preços. As empresas angolanas escusam-se de concorrer.

Já se nota a utilização de pedras calcetadas na pavimentação de algumas ruas, não só da cidade do Lubango, mas também de outras províncias. Qual é a durabilidade dessa pedra ao fazer a utilização na pavimentação das ruas?

Ao utilizar a pedra, a durabilidade que se terá é também a da pedra. O ganho vai fazer com que muitas gerações tenham a oportunidade de usufruir desta qualidade. Há exemplos concretos de países que utilizaram esses sistemas e ainda hoje estão lá. Grandes cidades europeias têm ruas calcetadas. Este sistema permite absorver água e provocam equilíbrio. É uma boa técnica.

A Emanha tem quantos trabalhadores?

A Emanha tem 50 trabalhadores, destes, a maior parte são técnicos angolanos, entre engenheiros e técnicos médios nas áreas de manutenção e operadores de máquinas.

Existem muitas reservas de pedra na província?

Há. Apesar de que as reservas de maior qualidade estejam a diminuir. Mas há muita pedra. Há casos concretos, que não adianta anunciar. Mas apesar de ter havido reservas destinadas a cada empresa, compra-se também pedra a outras pedreiras e percebe-se que a qualidade é ainda estável, apesar de escassear pouco a pouco.

Como se sabe, a pedra não é um recurso permanente e renovável. Ela esgota com muita facilidade. Por exemplo, quando se identifica uma montanha com pedra, ao se tirar pouco a pouco ela vai gastando. Temos que ter cuidado com as reservas.

Que política se deve adoptar para proteger as reservas do Estado?

Como política, passo aqui a minha modéstia opinião: o Governo devia tentar fixar a mais-valia da pedra em Angola, como ao invés de autorizar a exportação de bloco em bruto, para depois serem transformadas noutros destinos, o que retira mais valor a pedra e do que fica no país, pois, era bom começar a vender chapas de bloco já cortadas com várias feituras, ao contrário de blocos. Embora não necessariamente polido, essa actividade e

se fosse permitido exportar apenas chapas de bloco em preparação, seria uma mais-valia para a província e para o país.

Há condições para que se exporte apenas chapas já cortadas a partir da Huíla?

Actualmente ainda não há muita capacidade porque a maior parte das empresas em execução está exclusivamente virada para extrair a pedra e para explorarem os blocos em bruto dessas massas de 20 a 30 toneladas que se vêem passar. Tudo isso pode ser feito por Decreto. Tem que haver um horizonte temporal suficientemente longo para que as empresas se poderem sobreviver e aumentar a qualidade no país.

Quando se exporta a pedra em bloco, perde-se muito?

Perde-se porque todo valor e toda mais-valia do processo de transformação da pedra até chegar ao produto final, até entrar em qualquer obra.

O que estou a defender é que algum desse trabalho poderia ser feito já em Angola. Quer dizer que nós ao invés de vender pedra em bruto e blocos conforme se vê, podíamos vender já chapas serradas conforme se tem dito tecnicamente, o que significava uma mais-valia substancial sobre o valor da mercadoria que se está a exportar.

Vem aí a edição 2015 da Expo-Huíla. A Emanha já está a se preparar para que o potencial da sua actividade seja exposta nesta nova edição?

Há dois anos consecutivos que nos é atribuído um prémio na área e melhoramos sempre em função dos materiais que vão aparecendo nas obras e não só. Este ano vai ser inaugurada uma obra em Luanda, o Museu da Moeda, que é uma obra de vulto, praticamente concluída. Quero salientar que todo material foi feito e proveio do Lubango, através da Emanha. É tudo produto nacional e no caso particular fornecido pela Emanha. Vai ser a obra de referência da empresa nos próximos tempos.

Podemos ter mais obras de vulto com a produção feita no país?

Se conseguimos fornecer produto ao Museu da Moeda uma quantidade enorme de pedra polida e transformada, antes do prazo, há capacidade e qualidade no produto final, fruto do incentivo que o Executivo tem dado às empresas nacionais. Isso faz crescer e valorizar ainda mais aquilo que se faz no país  desde a transformação do granito em mármore e calcário.

As dificuldades momentâneas que o país atravessa devido à baixa do preço do petróleo, também nos aguçam. Nós hoje estamos também a apontar para uma área que é associar a pedra a outros materiais e nós próprios fazermos casas de qualidade.

O grupo a que a Emanha pertence, já começou, há dois anos, a diversificar também a sua actividade. Ou seja, nós hoje também temos apostado na área da agricultura, no município da Matala, com a existência de silos instalados, moagens, sistemas de regas instalados por pivôs e vai se expandir à capacidade de produção e armazenamento de graus com resultados satisfatórios. Estamos preocupados em participar activamente na diversificação da economia, em função daquilo que são as necessidades do país.

Contribuir no sucesso do programa de combate à fome e à pobreza é o contributo que se pretende dar?

A diversificação da economia deve começar pelos empresários. Os empresários não se devem estar centrados apenas na sua actividade, mas a sua atenção na diversificação da economia. Vamos manter as empresas estruturadas e arranjar outras formas de contribuir para a economia do país e neste caso na construção de casas e na agricultura.

A concorrência no sector de transformação do granito é salutar?

É saudável. Temos as melhores relações e não há qualquer atrito. Mas a relação é boa, quer a nível pessoal, quer institucional. Muitas vezes trocamos a capacidade de resposta em função das encomendas que são feitas pelas empresas públicas e privadas, para o contínuo processo de reconstrução do país nas áreas da educação, saúde, estradas, entre outras. Temos nos apoiado uns aos outros para dar resposta à procura.

Tem havido apoio do Governo?

O apoio, quer do governo provincial da Huíla, quer nacional, tem sido vital para o progresso da actividade das empresas que transformam o granito negro na província. Desde o início das actividades, sentimos que sempre fomos acarinhados pelos governadores e sem excepção. (jornaldeeconomia.ao)

2 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia, eu possuo uma pedreira de granitos e gostaria de saber se vocês se interessam em fazer uma parceria para que possamos extraí-los.
    Favor me retornar. No aguardo.
    Antecipadamente agradeço.

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