Gestão de Divisas: Medida anunciada pelo BNA para aliviar a pressão sobre o dólar coloca operadores em expectativa

(Foto: D.R.)
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Agentes económicos dão ‘voto de confiança’ à estratégia do banco central para a gestão da crise cambial, mas preferem ver os resultados para crer.

Macroeconomista defende que o aumento da oferta de divisas deve ser acompanhado pelo reforço da supervisão do órgão regulador.

Os resultados da implementação da mais recente medida anunciada pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para descomprimir a actual pressão exercida sobre os mercados cambiais, sobretudo do dólar, deixam expectantes vá- rios operadores económicos ouvidos pelo Expansão.

Na passada semana, depois de ter analisado, na 6.ª sessão ordinária conjunta da Comissão Económica e da Comissão para a Economia Real do Conselho de Ministros, um memorando sobre o mercado cambial com um diagnóstico da situação e medidas de gestão com vista a ajustar o actual contexto de desequilíbrio entre a oferta e a procura de divisas no mercado cambial, o Executivo autorizou o banco central a intervir, de forma livre, no mercado.

Como primeira medida, o governador do BNA, José Pedro de Morais Júnior, anunciou, por orientação do Governo, o aumento de dois para três o número de leilões semanais de venda de divisas aos bancos comerciais, reconhecendo que estes não têm tido capacidade de resposta para a procura de divisas, situação confirmada pelo Expansão, numa ronda feita pelos balcões de várias instituições bancárias.

Pedro de Morais reconheceu que a redução de 30% na ‘injecção’ de divisas por parte do BNA à banca comercial, que se regista desde o início do ano face a 2014, devida à quebra nas receitas com a exportação de petróleo, está a reflectir-se na actividade empresarial do País.

“O BNA recebeu mandato para tomar as medidas necessárias para descomprimir, na medida do possível, esta pressão ao nível do mercado cambial, para evitarmos situações de rupturas de stock, para resolvermos alguns problemas que se começam a colocar com grande acuidade a nível dos operadores económicos”, afirmou, em declarações a imprensa, no final da reunião. Reagindo ao anúncio do n.º 1 do banco central, José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), disse que fruto das várias reclamações de, empresários sobre o difícil acesso a divisas, a organização reuniu na passada semana com o órgão regulador do mercado, tendo sido confirmada a existência da crise cambial.

Logo de seguida, o Conselho de Ministros orientou o BNA a lançar mais divisas no mercado. “Ainda não há reflexo disto, nem se sabe bem como é que isto vai ser feito. Fica por se saber se se vai sacrificar as reservas líquidas, ou se se fará recurso a financiamento externo. Agora há uma grande expectativa”, disse José Severino.

De acordo com o responsável, não é apenas a crise cambial que começa já a afectar a actividade empresarial no País.

A ela junta-se, também, a “crise da falta de pagamentos da dívida pública”, que afecta, fundamentalmente, o sector da construção civil e obras públicas. Escassez de divisas já afecta petróleos A crise cambial vigente começa já a afectar também o sector dos petróleos, tendo muitas empresas prestadoras de serviços deixado de receber pagamentos.

“Como consequência da crise cambial há empresas que deixaram de receber pagamentos. Algumas têm recorrido às suas ‘casas-mãe’ fora do País para a obtenção de empréstimos no sentido de sobreviverem, mas há outras que já estão descredibilizadas no mercado e, por esta razão, estão em vias de paralisar as operações em Angola”, revelou Pedro Godinho, director-executivo da Câmara de Comércio Estados Unidos da América-Angola (USACC).

Pedro Godinho reconheceu que, apesar da crise, o sector petrolífero tem sido contemplado com divisas, mas sublinhou que, no entanto, os recursos que têm sido postos à sua disposição não cobrem, no seu todo, as necessidades.

O director da USACC mostrou-se esperançado que, com o aumento do número de leilões do BNA de venda de divisas à banca comercial, a situação de acesso às divisas conheça melhorias, e alertou que a situação tem retraído, também, as intenções de investimento.

Por um lado, referiu, “estamos em crise e queremos atrair investimentos”, mas, por outro, as condições que o País neste momento oferece “não estimulam nem motivam a ninguém em investir”, pois “quem investe com capital proveniente do exterior quer ter a capacidade de repatriar dividendos e tentar cumprir com as obrigações em termos de fornecimentos de bens e serviços”. “Não havendo o cumprimento deste binómio, naturalmente que as pessoas não se sentem motivadas em investir no País. Estive agora em Houston e, nas várias reuniões que participei, levantou-se este problema, notando-se uma retracção muito grande dos investidores”, notou.

Da teoria à prática

No seguimento do anúncio feito, o BNA aumentou a ‘oferta’, na semana passada, em mais de 30%, de 300 milhões USD em cada uma das primeiras três semanas de Maio, para 400 milhões USD na quarta semana, dando assim início às medidas que visam colocar mais cambiais à disposição da banca comercial.

Dados disponibilizados esta segunda-feira pelo banco central indicam que, na semana de 25 a 29 de Maio, as divisas foram vendidas a uma taxa média de referência do mercado cambial interbancário de 110,868 Kz por cada dólar.

O governador do BNA disse esperar que, com o aumento da oferta de cambiais aos bancos comerciais, a situação se comece a resolver paulatinamente. Porém, Cristóvão Neto, macroeconomista do Ministério do Planeamento e Desenvolvimento do Território, afecto ao gabinete de acompanhamento de políticas macroeconómicas, defende que a disponibilização de mais divisas pelo banco central deve ser acompanhada pelo reforço da supervisão junto dos bancos comerciais, para se apurar como é que estes repassam os dólares que adquirem nos leilões ao mercado secundário.

Aumento da oferta dirigido a mercadorias Um especialista em assuntos financeiros considerou que o aumento de 100 milhões USD verificado nos leilões da semana passada melhora as expectativas dos operadores económicos, explicando que tudo indica que tal incremento vise atender as mercadorias, concretamente as cartas de crédito, e não outro tipo de operações, como a de invisíveis correntes, que incluem viagens, por exemplo, o que, a julgar pelas declarações do governador do BNA tem alguma consistência. (expansao.ao)

Por: Francisco de Andrade

 

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