Escola de música ‘encalha’ no petróleo

Teddy Nsingi, guitarrista (Foto: D.R.)
Teddy Nsingi, guitarrista (Foto: D.R.)
Teddy Nsingi, guitarrista
(Foto: D.R.)

Com o propósito de contribuir na massificação do ensino da música popular angolana, o músico Simão N’Singi “Tedy” apresentou, em 2013, ao Ministério da Cultura e à União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-S.A), o projecto de uma escola de música, denominada “Centro de Formação e Superação de Guitarra”. Segundo o próprio, o apoio para a edificação do estabelecimento artístico está “encalhado” na queda do preço de petróleo

Desde tempos remotos, em Angola, particu­larmente em Luanda, o aprendizado da mú­sica popular angolana sempre ocorreu espontaneamente, em casas e em quintais de artistas consagrados, entre os quais David Zé, Artur Nunes, Tony do Fumo, Toy Cazevo, Marito, entre outros.

Na “luta” pelo seu almejado sonho, Tedy sempre desfilou o engenho e a qualidade estética que imprime nas obras, bem como a técnica no acto de tocar uma guitarra. A exiguidade de guitarristas com elevada ex­periência na música popular angolana, foi o grande factor impulsionador para o arquitectar do “Centro de Formação e Supe­ração de Guitarra”, na zona do porto seco, município de Viana.

O referido centro idealizado em 2008, além das três salas previstas, albergará também escritórios para a área adminis­trativa e outros compartimentos.

Terá um total de 180 alunos, nos dois períodos diurnos. O orça­mento do mesmo ronda os 20 milhões de kwanzas.

“Desde a entrega do projec­to, no dia 28 de Junho de 2013, até à data presente, não recebi nenhuma informação. Mas tudo indica que a paralisação do processo de concessão dos referidos apoios às actividades artísticas deve-se à queda do preço de petróleo, entretanto, tenho a esperança que a escola será erguida, porque enquanto há vida há esperança”, desaba­fou o guitarrista.

O desejo de ter a sua escola é tão grande que recusou inúme­ras propostas, entre as quais de dirigir o centro de música que estaria situado no interior do Centro Profissional do Cazenga, entre o Mercado do Asa Bran­ca e a empresa de Transportes Colectivos e Urbano de Luanda (TCUL). Para ele, a conservação do nosso legado cultural parte, igualmente da música, razão pela qual transmite esse teste­munho aos jovens artistas sem nada cobrar.

Simão N’Singi constatou que as Academias de Música não en­sinam como se executa o Kwas­sa, o Rumba, o Semba, a Rebita e outros estilos que caracterizam o povo africano e, em particu­lar o angolano, restringindo-se apenas à Música Clássica. Por esse motivo insiste na massifica­ção da música popular angolana como substracto importante da nossa cultura.

 ‘Momentos e encantos’ a caminho

TedyAos 61 anos de idade, Simão N’Singi ou simplesmente Tedy, encontra-se preocupado com a preservação dos ritmos que caracterizam a música popular angolana, pois que o “Centro de Formação e Superação de Guitar­ra” espera por deferimento. Tedy tra­balha há já algum tempo na produção do seu primeiro CD instrumental, intitulado “Momentos e encantos”. O CD, com 10 faixas musicais, é um retrato dos mais de 40 anos de car­reira, cheio de alegrias e de muita de­terminação. “Momentos e encantos” resulta de inúmeros sucessos que fez ao longo de anos, cujo objectivo descreve-se na conservação, valori­zação e transmissão do seu conheci­mento musical aos mais novos.

“O álbum dispõe de alguns suces­sos do passado, porém, temos uma geração que desconhece tais melo­dias, por isso as trago para o nosso tempo com uma nova dinâmica”, descreveu, tendo acrescentado que começa com os ritmos da Repúbli­ca Democrática do Congo, por ser o país que o viu nascer artisticamente, seguindo as canções que marcaram os conjuntos “Inter-Palanca”, “Iº de Maio” e tantos outros sucessos. Entre o pacote de 10 faixas, inseriu-se tam­bém um tema inédito, que propiciará aos apreciadores da música instru­mental, mais fascínio e deleite. Conta com as participações de um grupo de quatro sopradores, um percussionis­ta (Correia Miguel), dois bateristas, três baixistas e Chico Madne, que se responsabilizou pela programação inicial do trabalho. Segundo o mú­sico, o seu primeiro trabalho a solo chegará ainda este ano ao mercado musical nacional e permitirá que os jovens artistas ganhem ter conhe­cimento dos nossos estilos, e assim praticá-los com elevada sensibilida­de artística. Salientou ainda que esta obra mostrará de maneira sintetizada o trabalho que tem desenvolvido ao longo de 40 anos, desde a sua en­trega a música, a sua passagens por diversos conjuntos; ao passo que nas próximas obras exibirá o seu enor­me tecnicismo e o engenho estético-musical. De referir que o “Momentos e encantos” está a ser gravado no So­narte Estúdios, sito no bairro Golf 2, sob coordenação de Firmino Andra­de. Após ter terminado a captação e os arranjos artísticos, restando agora a parte gráfica e a masterização, antes então de ser enviado à fábrica.

 Doces lembranças

 Filho de Simão N’Singi e de Teresa N’Zima, Simão N’Singi, “Tedy”, nasceu aos 26 de Abril de 1954, no município do Maquela do Zombo, província do Uíge. Por forças do conflito armado em que Angola esteve submersa durante largos anos, emigrou à vizinha República Democrática do Congo, concreta­mente em Kinshasa.

Na década de 60 conheceu Dally Kimoko, um dos pioneiros da música popular congolesa, que lhe ensinou os primeiros acordes de guitarra, designadamente o dó maior, fá e sol.

Esse aprendizado representou o marco de uma carreira promisso­ra. “Tudo começou em Kinshasa em 1966, 1967, quando soube que Dally Kimoko tinha conhecimen­to de guitarra, aprendi as noções básicas e depois só foi aperfeiço­ar”, contou.

Essa paixão pela música, par­ticularmente pela guitarra, vem desde tenra idade. Mesmo sem ter algum músico na família, Tedy conseguiu aprender a executar a guitarra sem passar por uma escola de música. Numa época em que as sonoridades estran­geiras dominavam as discotecas, as rádios e não só, recorrereu ao Soukouss original que o orientou.

O entrevistado também alegou que, no seu tempo, tinham de adoptar uma forma rápida de aprender, que consistia em imagens visuais, para que quando chegassem a casa pudessem praticar o que haviam visto, tendo recordado que era inconcebível pedir a guitarra de um mais velho para executa-la, limitando-se unicamente a esprei­tar. A ouvir guitarristas como B.B. King, Carlos Santana, Gorge Benson e outras sonoridades, contribuiu para que desenvolvesse o seu pró­prio estilo.

“Lembro-me que fomos convi­dados ao primeiro aniversário da República da Namíbia, em 1991, e o presidente José Eduardo dos Santos havia dito que “hoje estão a tocar a pura música angolana”. Essas palavras deram-me forças para me enraizar neste género”, sublinhou.

Regresso em grande

No dia 30 de Setembro de 1976, Simão N’Singi e outros artistas pisa­vam o solo angolano. O interlocutor disse que se sentiu bastante feliz, porque se encontrava na sua terra natal depois de 15 anos ausente, ten­do frisado que o regresso concreti­zou-se ao convite do seu confrade, Matadidi Mário Buana Kitoko.

Explicou que a integração fora muito difícil, porque encontraram um regime totalmente diferente do que o deixado. Entre os regressa­dos estavam, além de Tedy, Mogue (viola baixo), Migue (baterista), Mostangue e Diana (cantores) e dois trompetistas. “Volta camarada”, “A nossa terra é boa”, “Café”, entre outros temas, garantiram o grande sucesso do seu grupo “Inter-Palan­ca”.

No primeiro espectáculo decorri­do no Estádio Nacional da Cidadela, no dia 12 de Novembro de 1976, o “Inter-Palanca” marcou o seu regresso em grande estilo, entre aplausos, gritos, pulos, e assobios da plateia, imagens que até à presente datanão lhe saem da memória. Em 1981 fundaram o “Instrumental Iº de Maio” afecto à União Nacional dos Trabalhadores Angolanos (UNTA), que se chamou posteriormente de “Semba África”.

Após o desaparecimento do “Semba África” da arena musical nacional, Tedy passou a colabo­rar com alguns conjuntos, entre os quais “Os Jovens do Prenda”, “Os Anjos” e “Novo Horizonte”, tendo trabalhado como freelan­cer até 1999. Ainda nessa data, recebeu o convite do Movimento Espontâneo para integrar a “Ban­da Movimento”. Desde 2003, a banda passou a pertencer à Rádio Nacional de Angola (RNA).

Simão N’Singi divide a sua vida entre os palcos e a família. Pai de cinco filhos, nomeada­mente Edgar N’Singi, Muiza Jean Michael, Jannette Catukala, Ageu e Manuel. Tedy vive maritalmen­te com Josefa Epifánia. Para si, a inspiração provém do Todo-Poderoso (Deus), e para se manter em forma passa bastante tempo a “namorar” as suas 14 guitarras; entre as quais seis eléctricas, qua­tro semi-acústicas, três clássicas e uma folk, para além de uma guitarra composta de 12 cordas.

Questionado sobre o significado que a música tem na sua vida, o entrevistando permaneceu alguns minutos em silêncio e, logo a seguir, disse ser um elemento bastante importante para si. Na ocasião, Josefa Epifánia, esposa, teceu algumas palvaras para o guitarrista. “Desejo-lhe muitos êxitos na sua carreira profissional, poque é um óptimo companheiro e, principalmente, pai”, exterio­rizou. (opais.ao)

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