Editorial: Desvalorização do Kz: uma faca de dois gumes

BNA (Foto: Contreiras Pipa)
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(Foto: Contreiras Pipa)

O Banco Nacional de Angola (BNA) decidiu, na passada semana, assumir o desafio da desvalorização da moeda nacional, correspondendo aos apelos que vêm, desde há um tempo a esta parte, a ser feitos, quer dentro quer fora de Angola, que alertavam para as desvantagens de um kwanza forte, dada a dependência excessiva do País das exportações.

É verdade que, nos últimos meses, o banco central vem fazendo ligeiras desvalorizações contínuas do kwanza, mas não existem dúvidas de que esta última, feita de forma brusca, foi a mais relevante dos últimos cinco anos.

Numa altura em que se regista uma ‘seca’ na captação de divisas, como consequência da queda do preço do barril do petróleo nos mercados internacionais, principal fonte de arrecadação de receitas do País, parece-me que que o banco central acaba por tomar a decisão mas sensata. Com o dólar cada dia mais escasso, julgo ser esta, também, uma das saídas para ajudar a aliviar a pressão sobre o mesmo.

Se a longo prazo a depreciação do kwanza pode vir a resultar em efeitos macroeconómicos positivos, consubstanciados, como já referido, na ‘descompressão’ do mercado cambial e, consequentemente, sobre a taxa de câmbio, no aumento do cré- dito ao Estado e no encarecimento do crédito em moeda externa, o mesmo não acontecerá, certamente, no curto prazo.

É certo que, com a desvalorização da moeda nacional, não tardará a levar a que comecemos a assistir a um ajustamento para cima dos preços, o que, logo depois, nos criará pressões inflacionárias, uma vez que a nossa economia ainda está fortemente ancorada às importações.

Agora, para pagarem aos fornecedores no exterior do País, os importadores precisarão de muito mais kwanzas para comprarem os dólares, e quem irá fazer a necessária ‘compensação’ serão os cidadãos, pagando um pouco mais pela aquisição de um determinado bem ou serviço.

A curto prazo poderá verificar-se também a uma desaceleração do crédito à economia e uma redução das cedências de liquidez entre os bancos, com implicações também no encarecimento do crédito em moeda estrangeira, o que poderá promover o aumento dos empréstimos em situação irregular.

Na prática, os efeitos da desvalorização da moeda nacional não serão diferentes dos de uma faca de dois gumes. Resta-nos respirar fundo e esperar que a tempestade passe, até que cheguem dias melhores. (expansao.ao)

Por: Francisco de Andrade

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