Desvalorização do kwanza era “inevitável”, dizem especialistas

(Foto: D.R.)
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Na passada sexta-feira, o BNA procedeu a uma desvalorização do kwanza em 5,1%, de 111 Kz por cada USD no início da semana, para 117 Kz, no quadro das já anunciadas medidas de ‘descompressão’ das divisas.

A desvalorização da moeda nacional, o kwanza, efectuada, de forma ‘brusca’, na passada semana pelo Banco Nacional de Angola (BNA), é uma medida “esperada e acertada”, face ao actual cenário, caracterizado por uma escassez de dólares, como consequência da queda do preço do barril de petróleo, principal fonte de arrecadação de divisas para o País, consideram especialistas ouvidos pelo Expansão.

Há uma semana, o BNA procedeu a uma desvalorização do kwanza em 5,1%, de 111 Kz por cada USD no início da semana, para 117 Kz, no quadro das já anunciadas medidas de ‘descompressão’ da moeda norte-americana.

A medida, que surgiu uma semana depois de o Executivo ter dado ‘luz verde’ ao banco central para intervir de forma livre no mercado cambial, levou os bancos comerciais a actualizarem as cotações e, em função disto, passaram a vender a clientes 1 USD acima dos 120 Kz, incluindo taxas e despesas administrativas.

João Fonseca, administrador executivo do Banco Angolano de Investimentos (BAI), afirma que era “inevitável”, nas actuais condições, acontecer uma correcção da taxa de câmbio, para melhor reflectir a oferta e a procura de divisas.

O especialista em assuntos financeiros entende que a medida não pode ser vista de forma isolada, uma vez que, com a desvalorização, o BNA aumentou a disponibilidade de divisas e alterou o método de cálculo das reservas obrigatórias, promovendo mais o financiamento ao Estado sob a forma de cumprimento parcial das reservas em Obrigações do Tesouro (através da aplicação de ponderadores em função do prazo do título).

O banco central, acrescentou, alterou também as regras para a realização das sessões de venda de moeda estrangeira, salientando a exigibilidade de constituição de uma “reserva especial” por parte dos bancos comerciais, junto do BNA, de igual montante às suas necessidades de moeda estrangeira.

“Com as actuais regras, e numa leitura simplificada, um banco que queira agora habilitar-se à compra de moeda estrangeira, tem que depositar no BNA entre 115% a 125% do valor em kwanza-equivalente à moeda estrangeira que pretende adquirir – 15% a 25% de reservas obrigatórias mais 100% para cobrir o valor da moeda estrangeira que pretende adquirir”, explicou.

No seu conjunto, prosseguiu, com estas medidas, algumas das quais de âmbito extraordinário – que se presumem temporárias -, espera-se que haja uma diminuição da pressão no mercado cambial e, consequentemente, sobre a taxa de câmbio, um aumento do crédito ao Estado, uma desaceleração do crédito à economia e uma redução das cedências de liquidez entre os bancos.

Empréstimos vão custar mais Segundo João Fonseca, a desvalorização também irá implicar que o crédito em moeda estrangeira fique mais caro para os clientes que não têm capacidade de o reembolsar nesta moeda, podendo implicar dificuldades na sua liquidação e, consequentemente, o aumento do crédito malparado.

Alinhando no mesmo ‘diapasão’, o economista Rui Malaquias, considera que a medida serve meramente para eliminar os desequilíbrios do mercado cambial e restaurar a paridade do poder de compra de uma moeda em relação à outra.

“A situação actual causava desequilíbrios, porque determinados agentes estavam a obter vantagens derivados de medidas administrativas, pois se há agentes que se dispõem a vender um bem (moeda estrangeira) a um preço inferior ao que outros agentes estão dispostos comprar, abre-se um gap para os mais espertos fazerem milhões num abrir a fechar de olhos”, frisou.

Porém, como consequência desta medida, o também professor universitário aponta que, no imediato, se verificará um ajustamento para cima dos preços na economia, o que, diz, por norma deveria demorar algum tempo, se desvalorização tivesse ocorrido há mais tempo.

“Desta vez, o BNA correu atrás do prejuízo, pois, no mercado paralelo, o dólar já havia disparado. Os agentes económicos só esperavam por esta conformação oficial para adequarem os preços a sua nova realidade de custos”, refere Malaquias.

A depreciação do kwanza é uma medida que vinha sendo defendida por empresários angolanos, como forma de reduzir se a crescente procura por dólares no mercado. Por exemplo, José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), já defendeu uma desvalorização na ordem dos 8%, média que se equipara ao crescimento actual do sector produtivo.

A desvalorização do kwanza nestas proporções era uma forma que o presidente da AIA apontava para se travar a “acentuada” diferença entre a taxa de câmbio definida pelo BNA e os valores praticados no mercado informal, onde a nota de 100 USD chega a ser comprada a 20 mil Kwanzas.

A última desvalorização ‘brusca’ do kwanza ocorreu em Outubro de 2009 – situou-se em cerca de 18%. Mas, ao contrário do que então sucedeu – a desvalorização decorreu da realização de leilões de preços competitivos (comprava quem pagava mais) -, a desvalorização de sexta-feira passada terá sido menor porque foi realizada através de sessões de venda directa aos bancos, com um preço definido pelo BNA, o que demonstra a sua preocupação em procurar controlar a estabilidade dos preços. (expansao.ao)

Por: Francisco de Andrade

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