Cimento Nacional (ParteI)

(D.R.)
(D.R.)
(D.R.)

Angola tem cinco cimenteiras — CIF (Bom Jesus), FCKS (Sumbe), Nova Cimangola (Cacuaco), Cimenfort (Catumbela) e Secil (Lobito). Juntas têm capacidade para produzir 8 milhões de toneladas por ano, quando o consumo é de 6 milhões. Apesar do fim do cimento importado, a concorrência interna fez descer os preços. Logo, a saída é a exportação.

9Muitos dizem que Angola avançou muito pouco na diversificação da economia e que existem poucos sectores (excepto o das bebidas) onde a produção nacional já responde à procura interna. Ora, a indústria dos cimentos contraria essa tese. Hoje, a sua capacidade instalada é de 8 milhões de toneladas por ano, ao passo que as necessidades de consumo rondam os 6 milhões. Quem contesta também a pertinência das medidas proteccionistas à importação — em 2014, o Governo subiu a taxa aduaneira de alguns produtos e, em 2015, introduziu quotas — terá de dar o benefício da dúvida ao sector cimenteiro, no qual, desde o início deste ano, o cimento importado deixou (praticamente) de ser vendido em Angola.

Em sentido contrário, quem desdenha a importância da concorrência na economia (basta recordar que alguns dos sectores que estão a ser alvo dessa protecção à concorrência estrangeira são monopólios ou duopólios) terá de aplaudir o facto de o sector dos cimentos ser hoje disputado por cinco empresas fortes — CIF, Nova Cimangola, FCKS, Cimenfort e Secil, por ordem decrescente de vendas. E foi essa competição interna (entre outras causas) que fez baixar os preços. Em 2008, quando imperava a especulação, os angolanos compravam cimento ao preço médio de 180 a 200 dólares por quilo. Hoje, esse valor ronda os 140 dólares.

Outra iniciativa que merece aplauso é que não obstante esse acréscimo de rivalidade interna (verifica-se inclusivamente alguma guerra de preços), tais empresas souberam unir-se (a chamada “coopetição” — acrónimo de competição e colaboração) e criar, em Dezembro de 2013, a AICA (Associação da Indústria Cimenteira de Angola). Presidida por Sindika Dokolo, presidente da Nova Cimangola (o mandato é de dois anos, estando as outras cimenteiras representadas nos outros órgãos sociais), a AICA desempenhou um papel essencial, como interlocutora do Governo, no combate ao cimento importado, parte dele de má qualidade que chegava ao país sem pagar impostos (ao abrigo do programa de 1 Milhão de Casas) fazendo assim concorrência desleal aos fornecedores locais.

Aliás, a AICA fez parte da Comissão Técnica do Cimento, que definiu a política de quotas, na qual a importação, até ao limite anual de 150 mil toneladas, só é permitida nas províncias de mais difícil acesso (Cabinda, Cuando Cubango e Cunene) ou para os designados “projectos estruturantes”. Sindika Dolo confessa em entrevista à EXAME (veja artigo seguinte) que tal quadro legal continua a abrir a porta à entrada de algum cimento importado, maioritariamente vindo da China, destinado a projectos de construção estruturantes.

“Num país onde a oferta excede já significativamente a procura, a manutenção de importações continua a representar um risco para a sustentabilidade do sector”, refere. Isso entronca naquele que é o principal desa_o actual da AICA, maximizar a capacidade das fábricas. Segundo as estatísticas da associação, as cinco cimenteiras trabalham, em média, a apenas 60% a 65% da capacidade instalada. Em 2014, as vendas agregadas foram de 4,9 milhões de toneladas, o que equivale a uma taxa de utilização de 61%. “Se as importações fossem totalmente erradicadas, o sector estaria a operar a 75% do seu potencial. Logo, o rápido aumento desse índice é a preocupação fundamental da AICA”, resume Sindika Dokolo.

(D.R.)
(D.R.)Aliás, a AICA fez parte da Comissão Técnica do Cimento, que definiu a política de quotas, na qual a importação, até ao limite anual de 150 mil toneladas, só é permitida nas províncias de mais difícil acesso (Cabinda, Cuando Cubango e Cunene) ou para os designados “projectos estruturantes”. Sindika Dolo confessa em entrevista à EXAME (veja artigo seguinte) que tal quadro legal continua a abrir a porta à entrada de algum cimento importado, maioritariamente vindo da China, destinado a projectos de construção estruturantes.“Num país onde a oferta excede já significativamente a procura, a manutenção de importações continua a representar um risco para a sustentabilidade do sector”, refere. Isso entronca naquele que é o principal desafio actual da AICA, maximizar a capacidade das fábricas. Segundo as estatísticas da associação, as cinco cimenteiras trabalham, em média, a apenas 60% a 65% da capacidade instalada. Em 2014, as vendas agregadas foram de 4,9 milhões de toneladas, o que equivale a uma taxa de utilização de 61%. “Se as importações fossem totalmente erradicadas, o sector estaria a operar a 75% do seu potencial. Logo, o rápido aumento desse índice é a preocupação fundamental da AICA”, resume Sindika Dokolo.

Crise cambial e subida dos combustíveis, prejudicam

11Tal necessidade de eficiência é particularmente importante nos cimentos, uma indústria de capital intensivo, que exige investimentos elevados (em Angola deverão rondar os 200 milhões a 350 milhões de dólares) e prazos de retorno alargados. Outra das suas características é que o produto — desde que seja de qualidade (e as fontes contactadas pela EXAME garante que todas a unidades fabris do país têm laboratórios que a certificam diariamente) — é relativamente homogéneo. Logo, a diferenciação, faz-se, sobretudo, através do preço. Obviamente que para se oferecer preços competitivos é necessário ter escala (daí o sector ser dominado, à escala global, por multinacionais) e ser e_ciente (leia-se trabalhar ao máximo da capacidade) de forma a reduzir os custos operativos.

Angola tem algumas particularidades que tornam essa eciência mais difícil. Por exemplo, as empresas têm de possuir centrais próprias de geração de energia, pois não se podem dar ao luxo de interromper o processo produtivo devido às falhas da rede pública. E o consumo de fuel (cujo preço tem vindo a subir no país) é uma das rubricas mais importantes na estrutura de custos. Por outro lado, a indústria também precisa de importações — desde as máquinas, às peças, aos contratos de manutenção — ou seja, de divisas, hoje mais raras e mais caras (devido à desvalorização do kwanza).

Felizmente, as matérias-primas existem em abundância em Angola (aliás as cimenteiras estão localizadas na proximidade desses depósitos). Numa explicação simplista, o cimento é composto por uma mistura de argila e calcário (a proporção é uma para quatro, sendo que algumas produtoras juntam minério de ferro), depois levada ao forno à temperatura de 1450 graus, até os dois elementos se fundirem.

O resultado são pequenas “bolas” designadas clínquer (a base de 80% do cimento). Acontece que só as unidades fabris mais recentes produzem clínquer (CIF e FCKS). A Nova Cimangola (em parte), Cimenfort e Secil têm de o comprar (quando se diz que o cimento é o produto mais importado do país, na verdade estamos a falar de clínquer). Logo, o trio referido é o mais afectado pela crise cambial.

Todas têm projectos para aumentar a capacidade

Continuando a referida explicação simplista, o clínquer (depois de arrefecido) é acrescido de minério de gesso (gipsita) e moído até ficar em pó. Para o endurecer e ser usado em construções, o pó precisa de receber água (formando uma pasta) e areia (que engrossa a mistura impedindo que o cimento rache). Outro factor importante é que o cimento pode ser produzido pela via húmida ou seca (sem adição de água). Esta última — a técnica mais moderna, que foi inventada no Japão — gera poupanças no consumo de água e de combustível. Comparativamente, um forno de via húmida consome cerca de 1250 quilocalorias por cada quilo de clínquer, contra 750 quilocalorias de um forno por via seca. Mais uma vez, as unidades fabris recentes (CIF e FCSK), estão em vantagem competitiva face às três restantes.

Falta referir outra característica da indústria — ela depende do crescimento da economia, em particular da construção civil, a principal compradora de cimento. Ora, como é sabido, Angola vive uma fase de contenção nas obras públicas. Mas esse não parece ser um factor que preocupe os empresários. “Independentemente das conhecidas dificuldades conjunturais do país, a perspectiva de médio prazo mantém-se favorável, sendo convicção da AICA que o cimento continuará a crescer acima do PIB”, diz o presidente.

Os números parecem conformar esse optimismo. De facto, as vendas de cimento em Angola cresceram 12% em 2014 (acima do PIB e acima também da expansão de 8% veri_cada em 2013). Nos primeiros quatro meses deste ano, segundo as estatísticas da AICA, as vendas ascenderam a 1,75 milhões (um aumento de 15% face ao período homólogo do ano anterior). Parte desse mérito deve- -se à CIF —China Internacional Fund Limited (colosso chinês que é parceiro do Governo em megaprojectos como as novas centralidades, o novo Aeroporto Internacional de Luanda e a rede de caminhos-de-ferro) com uma quota de mercado de 58%, equivalente a um volume de vendas de 2,7 milhões de toneladas em 2014. Localizada no Bom Jesus, a fábrica foi criada há três anos e tem duas linhas de produção — uma capaz de produzir 3,6 milhões de toneladas de clínquer e a outra 4 milhões de cimento Portland (ou 3,8 milhões segundo as estatísticas da AICA).

A unidade está implantada numa área de 1 milhão de metros quadrados, usa matérias- primas locais e tem uma central térmica que gera 145 megawatts (MW). Fontes da CIF contactadas pela EXAME garantem que a empresa emprega 1200 pessoas, o investimento até agora realizado foi feito com capital próprio (só não ficamos a saber se o capital também é 100% chinês) e existem planos para construir uma terceira linha de produção (também não sabemos quando).

A segunda do ranking, com uma quota de 18% (as vendas rondaram 1 milhão de toneladas em 2014), é a Nova Cimangola. Ela é também segunda mais antiga do país, após a Secil — a fábrica do Cacuaco, que nunca parou de produzir, remonta a 1955. Antes detida pela Cimpor, em parceria com o Estado, a empresa passou a ter accionistas locais desde 2006. A imprensa portuguesa da época relatou que a Cimpor vendeu a sua participação de 49%, por 74 milhões de dólares, à Ciminvest, liderada por Isabel dos Santos, tendo o português Américo Amorim saído da estrutura accionista em 2010. Esclarece também que o Estado se manteve no capital (via Cimangola UUE na altura com 40,2%), BAI (com 9,5%) e outros sócios individuais com 1,2% (a imprensa lusa acrescenta que recentemente terá havido um aumento de capital, através do qual a Ciminvest reforçou a posição maioritária).

DE QUE MASSA É FEITA: As sete principais características da indústria do cimento

1. CAPITAL INTENSIVO

Investimento é elevado (150 milhões de dólares por cada 1 milhão de toneladas de capacidade) equivalente a cerca de três anos de facturação.

2. CONSUMO DE ENERGIA

Cada tonelada de cimento produzido requer entre 60 a 130 quilos de fuel e, dependendo do processo, consome 110 kWh de electricidade.

3. MÃO_DE_OBRA REDUZIDA

Devido à evolução tecnológica, uma fábrica moderna apenas necessita de cerca de 150 pessoas na componente operativa.

4. PRODUTO HOMÓGENEO

Apesar das matérias-primas poderem variar, o produto é sensivelmente igual, pelo que a diferenciação se faz, sobretudo, pelo preço.

5. CUSTOS DE TRANSPORTE

Transporte rodoviário é caro e só é economicamente viável num raio de 200 a 300 quilómetros da fábrica (marítimo e ferroviário é mais eficaz).

6. MERCADO MADURO

Média mundial de consumo é de 566 quilos por habitante. Os países emergentes (China e Índia) têm sido os motores do consumo.

7 . CICLO ECONÓMICO

Usado sobretudo na construção civil, o cimento é considerado um “barómetro” da economia (em regra, procura cresce ao ritmo do PIB). (exameangola.ao)

 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA