Angola é um país fazedor de paz – Primeiro-ministro santomense

O Presidente José Eduardo dos Santos, com o Primeiro Ministro de S. Tomé e Príncipe, Patrick Trovoada. (Foto: Angop)
O Presidente José Eduardo dos Santos, com o Primeiro Ministro de S. Tomé e Príncipe, Patrick Trovoada. (Foto: Angop)
O Presidente José Eduardo dos Santos, com o Primeiro Ministro de S. Tomé e Príncipe, Patrick Trovoada.
(Foto: Angop)

O Primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, Patrice Emery Trovoada, considera que Angola é experiente, conhece o resultado de um conflito armado e, com a sabedoria política e qualidade humana do Presidente José Eduardo dos Santos, tornou-se num país fazedor de paz.

m entrevista à Angop, na capital santomente, em alusão aos 40 anos de independência de Angola, Patrice Trovoada disse que Angola tem também uma grande experiência militar no continente, pois há poucos exércitos como as Forças Armadas Angolanas (FAA), quer na defesa e segurança, quer na manutenção da paz.

Eis a entrevista na íntegra:

Angop: Senhor Primeiro-ministro da República de São Tomé e Príncipe, que avaliação faz da luta anti-colonial da República de Angola e de outros dos PALOP?

Patrice Emery Trovoada (PET) – Considero sempre que um homem só depois de se pôr de pé é que é um verdadeiro homem. Por isso, pelo facto de um povo se levantar contra a opressão e o colonialismo, para tomar, nas suas próprias mãos, os seus destinos, é um motivo de orgulho e de afirmação. Quero dizer que, para nós, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), foi determinante esta tomada de posição de arrancar a nossa independência. A independência da maioria dos países africanos foi dada e, no caso dos PALOP, ela foi arrancada a fogo. Daí que nós devemos nos orgulhar por termos conseguido libertar as nossas terras. É evidente que foi com muito sacrifício, perda de muitas vidas humanas, desaparecimento de muitos quadros e muitos talentos, o que se poderia ter evitado, mas a liberdade não tem preço.

Angop: Ao dizer que a independência não foi dada, mas arrancada, significa que foi necessária a luta?

PET – Sim, foi necessária a luta. Mas essa luta também ajudou a construir o pôs-independência, porque o sentimento nacionalista, patriótico e de camaradagem entre os homens é sempre necessário, mesmo depois da guerra. Por exemplo, comparativamente a São Tomé e Príncipe, que não houve luta armada, a solidariedade entre os homens e o espírito de sacrifício não é tão forte como em Angola. É verdade que a luta, ou estar na mesma trincheira de combate, cria também condições para que, em tempo de paz, as pessoas possam continuar com a solidariedade de construir um país forte, que é o caso de Angola.

Angop: Gostaria que fizesse uma avaliação do percurso de Angola ao longo dos 40 anos de independência?

PET – Houve um momento em que Angola, provavelmente, tinha que se libertar uma segunda vez. Houve a libertação do colonialismo português e depois Angola tinha que se libertar de outras influências externas, de uma guerra que já não era sua, que era a guerra entre as grandes potências para a cobiça, para a conquista das riquezas de Angola. No meu entender, na primeira fase, luta contra o colonialismo, os angolanos estavam a lutar com um inimigo bem identificado. Mas, na segunda, o inimigo já era mais complexo. Considero que a primeira fase dos 40 anos contribuiu para a afirmação política de Angola como estado, permitiu também criar uma das instituições, fundamental para um estado, que é o sistema de defesa e segurança. Conseguida a paz, esta questão permitiu Angola começar a afirmar-se no domínio económico, fundamentalmente, mas não só, porque tem tido um grande avanço nos domínios cultural e da identidade. Hoje, Angola não é só conhecida pelo seu petróleo e seus diamantes, mas também pela sua música. Já estamos a conhecer Angola pelo seu cinema. Quer dizer que Angola aparece como um país muito jovem, muito dinâmico.

Angop: Terminada a guerra, Angola vive, há 13 anos, num clima de paz. Que futuro prevê para este país?

PET – Eu penso que Angola está no bom caminho. Toda esta caminhada, até a conquista da paz, fortaleceu Angola em vários aspectos, fazendo com que o país tenha pela frente um grande futuro. Nós começamos a assistir a diversificação da economia angolana, pois hoje fala-se muito da agricultura e, se olharmos para o caminho que Angola está a seguir, eu diria que está a recuperar do ponto de vista económico. Angola já foi tida como agrícola, mas tudo está de volta de novo. É um país de futuro e os angolanos devem abraçar a estabilidade.

Angop: Disse que Angola é um país de futuro, será promissor esse futuro?

PET – Acredito que sim. Penso que é um país jovem, está a formar muitos quadros, a diversificar a sua economia e a consolidar as instituições democráticas. Tem uma população que está a crescer, um território grande, ainda por povoar, daí que acredito num bom futuro para Angola.

Angop: Como classifica o papel da diplomacia angolana na pacificação de conflitos no continente?

PET – O papel de Angola é fundamental, porque tem experiência de conflitos. Sabe quanto custa um conflito, daí que é um fazedor de paz.  Angola sabe muito bem gerir e podemos reconhecer e tirar o chapéu de que o Presidente José Eduardo dos Santos soube gerir bem a vitória, conseguindo, de facto, fazer com que o fogo cessasse e não deixasse que pequenas bases pudessem reacender. Acho que isso é um marco de alguma sabedoria política e de qualidade humana que, traduzido na diplomacia, Angola pode aconselhar outros países a buscarem a paz. Angola também tem uma grande experiência militar. No continente, há poucos exércitos que têm a experiência do exército angolano e eu diria que, quer na manutenção da paz, quer as forças de defesa e segurança angolanas, têm competências que servem de facto a diplomacia angolana.

Angop: Que avaliação faz das relações de cooperação Angola/São Tomé e Príncipe?

PET – As relações políticas são boas. Não podemos questionar, são mesmo excelentes. As relações económicas poderão ser melhoradas, porque temos uma relação com a Sonangol. Existem ainda várias áreas que podemos desenvolver, como a do turismo e da imobiliária. Há mercado para desenvolver a imobiliária em São Tomé e Príncipe. Há oportunidades de investimentos cruzados entre os dois países. Queria referir-me à Agricultura, que é também aqui um potencial. Não em termos de quantidade, mas em termos de qualidade, nomeadamente o cacau. O nosso cacau tem sido bastante apreciado no mercado internacional, daí que Angola e os angolanos podem provavelmente investir em São Tomé e Príncipe em condições bastante razoáveis de rentabilidade.

Angop: Quais são os principais investimentos de Angola em São Tomé e Príncipe e vice-versa?

PET – Em Angola nós não temos investimentos, temos sim santomenses residentes e que desenvolvem lá as suas actividades, uns com algum sucesso. Aqui, Angola tem o maior investimento, através da Sonangol, que é na distribuição de combustível. Temos angolanos que investiram no domínio imobiliário, na agricultura e na indústria. As coisas estão a crescer.

Angop: Então os investimentos angolanos tendem a aumentar?

PET – Sim, tendem a aumentar. Queremos mais investidores angolanos, daí que temos de trabalhar para melhorar a nossa oferta. Temos consciência de que, do nosso lado, temos que ser bastante atractivos, porque o angolano para vir investir em São Tomé e Príncipe, embora seja um país perto, quer pela cultura, quer pela geografia, as nossas condições têm de ser mais atraentes.

Angop: A Lei de Investimento Estrangeiro facilita?

PET – Nós estamos a rever o código de investimento. Mas já fizemos também a nível bilateral. Há algumas vantagens, ainda particulares, porque o angolano, para investir em São Tomé e Príncipe, tem que se sentir como se estivesse a investir no seu país.

Angop: Como estão as trocas comerciais entre os dois países?

PET – Há poucas. Sabe que temos problemas nas ligações marítimas, mas creio que, nos próximos meses, teremos algumas embarcações que irão facilitar essas trocas entre São Tomé e Luanda.

Angop: De onde são provenientes as embarcações?

PET – Da Europa e chegam ainda antes do fim-de-ano.

Angop: Qual é o volume de negócios entre os dois países?

PET – Temos sim o do combustível. O combustível é significativo. É preciso ver que a energia nesse país é produzida a partir do gasóleo. Os carros andam aqui com gasóleo e gasolina angolana. Por isso, estamos a falar de vários milhões de dólares.

Angop: Considera Angola um país estratégico para São Tomé e Príncipe?

PET – Todos os países são estratégicos. Por isso, Angola é estratégica, por aquilo que pensamos que podemos fazer juntos hoje, amanhã e depois de amanhã. Com outros, faremos outras coisas.

Angop: Depois de empossado no cargo de primeiro-ministro, a sua primeira viagem para o exterior foi para Angola. Porquê que escolheu Angola?

PET – Escolhi Angola por duas razões – pessoal e política. Como já disse, há uma grande sabedoria política e diplomática do Presidente José Eduardo dos Santos que, com a sua maneira de pensar e de agir, permitiu que as eleições aqui se realizassem da melhor forma e que toda a gente participasse nelas. Daí que eu tinha um dever moral de, primeiro, agradecer ao Presidente e, segundo, reforçar as relações.

Angop: Uma mensagem para o povo angolano, que no dia 11 de Novembro vai comemorar o 40º aniversário da proclamação da independência?

PET – Os 40 anos de independência são interessantes, embora sejam celebrados num momento de crise económica, em que o preço do petróleo está muito baixo. Do meu ponto de vista, quero dizer que o futuro de Angola está nas mãos dos jovens. O futuro será aquilo que eles pretenderem e se pretenderem um país a crescer, um país em paz, um país alegre e um país moderno, assim será Angola. Não há razões para que seja o contrário. É preciso acreditar e, digo, sem sombra de dúvidas, que Angola está preparada para dar saltos ainda mais altos.

PERFIL
Nome: Patrice Emery Trovoada
Pai: Miguel Trovoada, antigo presidente de São Tomé e Príncipe
Data de nascimento: 18 de Março de 1962, em Libreville (Gabão)
Estado civil: casado
Filhos: Cinco
Formação: Iniciou os estudos em Lisboa, onde concluiu o 12º ano. Partiu depois para a Roménia onde começou os estudos universitários em Economia, concluídos em França.
Cargos: Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Setembro de 2001 a Fevereiro de 2002. Posteriormente assessor do Presidente Fradique de Menezes para as questões petrolíferas. Em 2006, foi candidato à Presidência da República pela Acção Democrática Independente (ADI), tendo obtido 38,8% dos votos. Em Fevereiro de 2008, foi nomeado primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, cargo que ocupou até Junho do mesmo ano. Mais tarde, em Agosto de 2010, voltou à chefia do governo e permaneceu até Dezembro de 2012. Em 25 de Novembro de 2014, voltou a ocupar o cargo de primeiro-ministro.

Tempos livres : Tem pouco, mas quando consegue faz caminhadas e, às vezes, toca viola.
Comida preferida: Carne (considera-se carnívoro), mas aprecia calulú e muamba. Gosta de funje seco, sem molho, não sabe porquê, mas gosta de engolir funje seco.
Cozinha: Sabe preparar bem refogado de coelho com vinho, assim como cozinha esparguete, arroz e prepara bife.
Bebida preferida: Água fresca, mas não dispensa champagne e um bom vinho.
Desporto: Desportos de combate, gosta de boxe tailandês, pratica três a quatro vezes por semana. De vez em quando, com os amigos, joga basquetebol.
Equipa: Gosta de ver bons jogos, o que importa é um bom jogo, não é fã de nenhum clube.

Depois de deixar a política, vai dedicar mais tempo à família e dar aulas, transmitir a sua experiência. (portalangop.ao)

Por: Paulino Neto

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