A degradação do Zango

Urbanização do Zango, 50 quilómetros de Luanda (Foto: Angop)
Urbanização do Zango, 50 quilómetros de Luanda (Foto: Angop)
Urbanização do Zango, 50 quilómetros de Luanda
(Foto: Angop)

A transferência dos antigos moradores da Boavista para o Zango animou os debates po­líticos no início do ano 2000.

A forma como essa mudança ocorria fez surgir alguns heróis na época, entre os quais o célebre José Rasgadinho, uma figura até então incontornável, mas que acabou por desaparecer dos holofotes da comu­nicação social.

O Zango hoje é composto por uma mistura de habitantes oriundos de vários pontos da cidade de Luanda. Lá estão os antigos moradores da Bo­avista, da Chicala e até algumas das figuras ilustres do Bairro Operário, que estão a ser transferidas para esta terra prometida, para permitirem que o processo de modernização do bairro avance.

Para estes moradores do Bairro Operário, um histórico da cidade de Luanda e de Angola, ir ao Zango pode ser a pior coisa que lhes terá acontecido na vida. Para outros, os que habitavam por exemplo nas barrocas da Boavista, barracões da Chicala e outros locais inóspitos da capital, esse ponto de Viana pode ter a mesma dimensão daquele territó­rio que Moisés prometeu ao seu povo no antigo Egipto.

O Zango permitiu a muitos que fugissem dos becos, das montanhas e das zonas sem as mínimas con­dições de infra-estruturas. Alguns tiveram a possibilidade de encontrar ruas largas, água potável e energia eléctrica, luxos que podem não ser extensivos a muitos que só agora aportaram no bairro, sobretudo nas ditas casas evolutivas.

Apesar das críticas que possam ser feitas em relação às condições de vida de muitos moradores ou a qualidade das residências existentes, o novo bairro ainda tem condições para ser um sítio melhor para se viver.

Melhor do que ainda vimos em partes da capital, em bairros histó­ricos como Sambizanga, Cazenga, Rangel e não só.

Mas não é o que está acontecer. O Zango está já a ser uma múmia daquela terra prometida em que muitos pensam ter chegado, por estarem a ser vítimas dos velhos há­bitos transportados de muitas partes de Luanda.

Quem por lá passa ultimamente tem a sensação de que aí não existe qualquer tipo de administração. E se existe, certamente quem lá está ain­da deve ter algumas dúvidas sobre o que deve fazer e falta-lhe certamen­te autoridade.

As ruas largas estão apinhadas de lixo. A areia está a apagar as avenidas e o asfalto que conferiam um brilho àquela parte de Viana. Casebres foram instalados nas passadeiras dos largos, por pessoas que anseiam ser desalojadas do próprio Zango e serem colocadas nas milhares de casas ainda existentes no projecto habitacional.

O ritmo de degradação de algumas infra-estruturas começa a ser acen­tuado. Qualquer dia destes, se não se pôr cobro agora à desorganização e à falta de autoridade que campeia naquela circunscrição, corre-se o risco de alguns destes alojados volta­rem a ser desalojados e transferidos a outros locais.

O que se assiste no Zango não pode ser só imputado ao Estado, independentemente das dívidas contraídas com as operadoras de limpeza. Não é por falta de espaço que se coloca lixo nas rotundas, à porta de casa ou nas bermas das estradas.

Não é por falta de espaço que se permite a destruição das casas e hoje já se assiste a uma construção desordenada, a mesma onda que em tempos fez com que os milhares dos actuais habitantes fossem lá parar.

É preciso que as autoridades percebam que o espírito de deixa andar poderá custar muito mais caro no futuro. Não nos espantemos que nos próximos tempos seja necessário implementar um plano de salvação do bairro, em toda a sua extensão, e com milhões de dólares envolvidos. O que se assiste está longe daqueles propósitos perseguidos pelo Exe­cutivo, que passam pela criação de melhores condições de vida para os cidadãos.

O que se está a assistir hoje é um autêntico retrocesso com conse­quências que poderão ser nefastas. E não acredito que seja por saudades dos tempos em que muitos habita­vam em zonas de risco. É preciso que as autoridades despertem. E agora. (opais.ao)

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