‘Yetu-a nossa música’

Gabriel Baguet Jr (OJE)
Gabriel Baguet Jr (OJE)
Gabriel Baguet Jr (OJE)

No histórico Cinema São Jorge em Lisboa já são muitos os nomes da Cultura do nosso País que passaram pelo palco de tão singular casa de Cultura e das Artes da capital portuguesa. Seja no plano do Cinema onde o filme de longa-metragem de ZéZé Gamboa foi exibido ou no domínio da Música angolana como Bonga, Waldemar Bastos, Paulo Flores, Aline Frazão e mais recentemente o extraordinário Documentário de Ulika da Paixão Franco, intitulado “Yetu- A Nossa Música”, mostra em diferentes domínios quer da História, quer da Antropologia, quer da História da Música de Angola, a importância das nossas raízes, mas o devir e o futuro. Esta clara aposta do apoio do Banco de Desenvolvimento de Angola neste projecto documental sobre a Música e muito dos Músicos de Angola demonstrou uma clara ideia de que como o Mecenato Cultural pode e deve apoiar a Cultura e as Artes de Angola no seu todo. Aliás e por razões de equidade não se pode ignorar o papel que um conjunto de várias Instituições Financeiras angolanas têm tido ao longo da nossa História e do quanto contribuíram para a valorização de muitos Criativos e Criadores angolanos no mais amplo domínio da concepção artística. Seja nas Artes propriamente dito, na Literatura, na Dança, na Música e no Património Cultural no seu todo. Nesta viagem, Ulika da Paixão Franco auscultou e faz Homenagem a várias vozes de Angola. Umas permanecem entre nós e nosso convívio diário e outras pela natural condição do fim das nossas vidas já não estão entre nós, mas foram recordadas. É justo dizer isso. Relembra os N’Gola Ritmos, Belita Palma. Lily Tchumba, Rui Legot e neste cruzar da Memória com a Cultura, faz-se a História. Em declarações exclusivas ao “OPAÍS”, Ulika da Paixão Franco explicou como surgiu esta ideia de homenagear a nossa Música: «Em Maio de 2013 fui consultada pelo Banco de Desenvolvimento de Angola. A área de Responsabilidade Social desta instituição tem, ao longo dos anos, desenvolvido toda a uma estratégia de comunicação que passa pelas ofertas premium. No ano antes, por exemplo, tinham publicado um livro sobre a moeda e, em 2013, consultaram-me para pensar num produto que valorizasse a cultura de Angola. Com o Conselho de Administração do BDA acordámos por uma colecção de música. A instituição recebia periodicamente pedidos de patrocínio para a produção de discos ou apoio à actividade dos músicos. Sendo uma instituição pública engajada com as políticas económicas nacionais, entendiam que o apoio à cultura não devia ser particularizado num músico. Assim, uma colecção que homenageasse a música e os músicos acabou por ser uma opção de excelência.

Discutimos o modelo de colecção e delineei uma estratégia para o processo de trabalho. Cheguei à conclusão que, sendo eu consultora e produtora, e não etnomusicóloga, não dominava e possuía os conhecimentos desejáveis para elaborar um alinhamento musical isento e honesto, e acima de tudo reflexo da primazia e importância das produções de música angolana. Assim, e de forma a justificar as escolhas, entendi esquematizar um processo de trabalho onde os músicos fossem escutados e me guiassem – a mim e à equipa que formei – na cultura e nas produções de música. Neste processo de trabalho incluí também pesquisas a arquivos e é desta opção conceptual que nasce a colecção de música composta por três CDs de música de Angola – i) Música Tradicional; ii) Música Urbana Pré-independência; iii) e Música Urbana Pós-independência e até ao virar do seculo XX – um DVD com o registo do processo do trabalho – no qual se incluem entrevistas a músicos e registos de pesquisas em arquivos – e um Catálogo comentado com breve exposição da História da Música de Angola».

Mas desta visão, surge também a consciência individual de internacionalizar este Projecto Musical e é nesse sentido que defende a internacionalização quando questionada sobre esta ideia: «Honrar-me-ia muito se tal acontecesse. Mas enquanto produtora de uma obra que pretence a uma colecção privada – e isto é realidade desde o primeiro minuto, ou seja, o propósito da colecção foi servir o Banco de Desenvolvimento de Angola – não tenho qualquer propriedade nem decisão sobre a mesma. Do que sei da estratégia do Conselho de Administração do BDA essa questão não se coloca. Assim que o propósito foi atinguido deixou fazer de sentido, para eles, o apoio a outras acções subsequentes. Eu tenho, enquanto produtora, meios técnicos e intelectuais para abraçar um projecto de internacionalização, mas não tenho forma de o financiar. Do que sei, o Ministério da Cultura também considera este projecto como terminado. Não há qualquer engajamento da parte deles, e eu aceito que assim seja da mesma forma que aceitaria, obviamente que mais entusiasmada, o contrário», diz Ulika da Paixão Franco que sobre a possibilidade do Documentário ser lançado em Angola não depende da sua exclusiva vontade e explicou-nos a razão de ser desse passo: «No ano passado fui contactada pelo Director do FIC – Festival Internacional de Cinema de Luanda no sentido de o incluir na programação do evento. Seria fora de competição, exibido no Auditório do Instituto Camões, num horário pouco óbvio. Ainda assim a proposta foi bem acolhida por mim e obviamente pelo proprietário da colecção, o Banco de Desenvolvimento de Angola. Entretanto, o festival foi adiado sem data e, pese embora a programação prevista pelo festival para acontecer no Instituto Camões se tivesse mantido, a exibição do documentário foi cancelada. De resto, não creio que exista grande vontade do programador de cinema em recuperar este trabalho e exibi-lo em Angola. Enquanto produtora a trabalhar faz mais de dez anos em cultura sinto algum pesar, mas não discuto decisões políticas. Não tenho essa autoridade nem presunção». Neste traço de análise referiu ao nosso Semanário e cito que « cumpri com Angola, com os meus antepassados e familiares». E nesta longa caminhada não deixou de referir como se sente face a este Projecto que a todos, entre outros, nos deve orgulhar:« Venho de uma família angolana com mais de cinco décadas. Uma família engajada no serviço público, no serviço à nação de Angola. Por razões pessoais a minha mãe escolheu Portugal para viver quando eu tinha dois anos e eu escolhi Angola para me encontrar quando terminei os meus estudos. Ter realizado este projecto fez parte desta escolha que cada um de nós faz: todos temos o direito de escolher qual a nossa pátria, por onde caminham os nossos afectos. E se a vida nos fez viajar por outros territórios, todos temos direito ao regresso. Oiço música de Angola desde que nasci. O meu pai morreu muito novo, tinha eu ano e meio, no Maio de 77, e esse facto marcou-me e irá marcar-me para sempre. Não tenho heranças, apenas os discos de vinil da minha mãe que aos domingos colocava a tocar no gira- discos enquanto cantarolava “Um assobio meu”. Sei de cor as músicas, da mesma forma que sei de cor como me chamo. É o som de Lamartine, de Liceu Vieira Dias, de Teta Lando que moldam a minha identidade e por isso regressar a Angola e caminhar pela história da música foi muito importante para mim. Agradeço profundamente à anterior Administração do BDA por me ter dado a honra de honrar os meus antepassados, e agradeço à actual por me ter permitido terminar este projecto. Abracei a cultura há muito tempo e por isso não sou paraquedista, nem oportunista. Se o que faço e a importância do que faço. Confesso que me sinto feliz porque cumpri, mas com a nostalgia normal de quem gostava de fazer mais, mas não pode». Esta nostalgia é própria de quem sente a História e o Futuro que se impõe construir e foi no quadro da 7ª Edição do FESTIN, Festival Internacional de Cinema de Língua Portuguesa que “YETU-A Nossa Música” marcou encontro com vários espectadores e gerações no Cinema São Jorge em cujo ecrã se projectaram as vozes de Adão Filipe, Aline Frazão, Américo Kwononoca, André Granjo,Anjo Sebas ,|Ariel de Bigault, Aureliano de Oliveira Neves, Belmiro Carlos, Bonga, Botto Trindade,Carlos Burity, Conceição Legot, Cristóvão Kajibanga, Dionísio Rocha, Eduardo Nascimento, Elias dya Kimwezo, Euclides da Lomba, Filipe Mukenga, Filipe Zau , Fonseca e Sousa, Francisco Vasconcelos ,Gaby Fernandes, Garda, Gaspar Neto, Gerard Kubik, Hugo Ribeiro, Jaime de Sousa Araújo, José Kafala, José Luís Mendonça, Lito Graça, Luís Cília, Luís Serrano, Manuel Le Boss, Manuel Freire, Manuel Vungo, Mário Alberto Assis, Massano Júnior, MCK, Milita, Mito Gaspar, Nanô Manuela, Nanuto, Nástio Mosquito, Nelo Carvalho, Nuno Sardinha, Patrícia Faria, Paulo de Carvalho, Paulo Flores, Peter Cocopy, Roldão Ferreira, Rosa Pegado, Rui Legot, Santos Júnior, Sara Chaves, Sebastião Lino, Spektor, Velho Madura,Víctor Gama, Walter Ananás, Wiza e Zitson Alberto. Mas há também as outras vozes históricas que marcaram para sempre a História Musical e que vendo e ouvindo este Documentário, lembramos a Memória de Carlos Aniceto Viera Dias “ Tio Liceu Vieira Dias “, Euleutério Sanches, Belita Palma, Rui Mingas, Rui Romano e Ana Maria de Mascarenhas e uma histórica actuação do grande Compositor que é Waldemar Bastos também no conhecido Coliseu de Lisboa há cerca de 20 anos. “YETU-A Nossa Música” deixa em aberto um trabalho ainda por concluir, mas é claramente um Projecto que enuncia inquietações, mas revela a clara importância do nosso Património e do quanto é importante é incluir todos os Homens e Mulheres que têm contribuído em diferentes áreas do Saber e da Cultura angolana para a afirmação da Nação Angolana. Preservar e dar a conhecer quem somos, é um imperativo, creio do nosso Caminho presente e futuro. (opais.co.ao)

por Gabriel Baguet Jr

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Extraordinário e brilhante Artigo. Como é possível este quadro de Angola não tem outro aproveitamento face ao que nos demonstra? Os seus artigos são de uma grande pertinência, revelando Cultura, sensibilidade analítica e visão do futuro. E como sempre o Portal de Angola atento aos bons Artigos. Vi o Documentário e é lamentável que não estivesse mais gente. Enfim! Um bom trabalho de Ulika da Paixão Franco. E de novo Parabêns ao autor do Artigo

  2. Concordo inteiramente com o que refere a Colega Marta Bettencourt. Admira-me que os variados e valiosos quadros que Angola tem nem sempre são chamados para certas funções e Projectos. É estranho. Continua a ser inquietante. Por coincidência e acompanhado de família e amigos estive no Cinema São Jorge. Um belo Documentário e um excelente Artigo de análise. Aliás este compatriota deu muitas provas do seu trabalho em Portugal na Comunicação Social e foi um dos que defendeu muito Angola numa altura que era proibitivo falar de Angola. É um homem do Mundo, mas é um grande divulgador da nossa Cultura Um Abraço Gabriel Baguet

  3. Um Artigo extraordinário que puxa para um longa viagem pela nossa Música. Aliás, deste Autor angolano outra coisa não seria de esperar. Não pude ir ao Cinema São Jorge, mas daqui de Benguela dou os Parabêns à Autora do Documentário, aqui muito elogiado neste trabalho. Esperemos que a Direcção do Portal de Angola encontre um rápido parceiro. Já estamos habituados à qualidade e à diversidade da informação.

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