Travessia de Benguela a Santa Catarina reconhecida 40 anos depois da Independência

Angolana residente no Brasil há mais de 40 anos recebe passaporte nacional (ANGOP)
Angolana residente no Brasil há mais de 40 anos recebe passaporte nacional (ANGOP)
Angolana residente no Brasil há mais de 40 anos recebe passaporte nacional (ANGOP)

Rio de Janeiro – Dez dos oitenta e seis angolanos residentes em Itajaí, Santa Catarina, receberam recentemente o seu primeiro passaporte, que lhes confere a cidadania angolana, num acto orientado pelo cônsul geral de Angola no Rio de Janeiro, Rosário de Ceita.

A história destes cidadãos começou a 5 de Novembro de 1975, precisamente a seis dias da proclamação da Independência de Angola, quando 32 famílias de pescadores, num total de 53 pessoas residentes na Baía Farta, decidem abandonar Benguela, devido à insegurança político-militar que se vivia na época, fazendo-se ao mar.

“Era uma instabilidade muito grande e nós já tínhamos feito a nossa escolha partidária, mas de repente era um exército estrangeiro que dominava a rua principal da Baía Farta com dois tanques blindados. Não havia outra solução, tínhamos que colocar a família em segurança”, conta o mais velho do grupo, Adriano Correia, de 76 anos.

E assim começou a travessia. Acreditando que se dirigiam a Luanda, em busca de segurança, os pescadores e suas famílias, todos funcionários de um empresário português de nome Pinheiro, instalaram-se a bordo. Cinco embarcações deixam o porto pesqueiro nessa mesma noite e, por ordem do proprietário, chegam a Walvis Bay (Namíbia) passados cinco dias.

Apesar de, aos olhos dos viajantes, o povo da cidade visitada aparentava ser amistoso, ainda na década de 70, altura em que o regime congregacionista do Apartheid dominava os territórios da Namíbia e da África do Sul. E claro, um mês depois, precisamente a 01 de Janeiro, o grupo fazia-se ao mar mais uma vez, tendo vendido uma das cinco embarcações para comprar mantimentos e outros.

Passadas três semanas a bordo do barco “Pioneiro”, onde nasceu uma menina a quem foi baptizada com o nome Guiomar, Adriano Correia e o grupo chegam ao porto pesqueiro da cidade de Itajaí, Santa Catarina, sul do Brasil. Começa uma nova luta de resistência e de cidadania.

“Recebíamos todo o apoio das autoridades brasileiras, mas, ainda assim, eu estava desfeita. Tinha deixado a minha filha mais velha de 13 anos, Maria, em Benguela. Ela vivia com os meus pais porque estava em idade escolar e na Baía Farta não tínhamos escolas. Quando se deu a confusão, o irmão ainda tentou traze-la, mas o caos já se tinha instalado na cidade e ele não conseguiu chegar à casa dos avôs. Era uma desilusão olhar para o meu filho e ver que se sentia culpado sem culpa nenhuma”, conta Maria da Luz Peixoto, a angolana mais velha do grupo e viúva de um dos pescadores.

Seis meses depois de chegar a Itajaí e depois de cumprida a quarentena, os angolanos começaram finalmente a abandonar os barcos e a viver em casas de aluguer. Já estavam quase todos empregados, com os filhos a estudar e, portanto, a dar alguma dignidade a sua vida. Mas precisavam de traçar o seu futuro.

“Sabíamos que Angola já estava independente, mas que a situação político-miltar continuava instável. Além disso, nenhum de nós tinha passaporte. Naquela confusão, alguns nem bilhete de identidade trouxeram. Portanto, vivíamos uma situação delicada”, esclarece Maria Peixoto.

A fim de tentar solucionar a questão, e porque entre os pescadores havia também portugueses, cabo-verdianos e peruanos, as autoridades brasileiras optaram por negociar com Portugal a sua ida para Lisboa, já que vinham de uma ex-colónia e todos tinham documentos portugueses. Mas apenas os portugueses seguiram viagem. Os angolanos negaram-se.

“Primeiro, a nossa luta tinha sido essa mesma. Deixarmos de ser colonizados; segundo, sentíamo-nos todos angolanos, apesar de muitos, como eu, terem nascido em Cabo Verde. Cheguei a Angola aos 12 anos e sai de lá aos 36 e apenas em consequência da guerra civil. Mas tenho ricas memórias do país onde passei a melhor fase da minha vida, onde vivi a minha adolescência e só não digo que sou angolano porque nasci em Cabo Verde. O meu coração oscila muito entre Angola e Cabo Verde, pois casei-me em Angola e os meus cinco filhos são angolanos”, recorda Adriano Correia.

Para o patriarca, o grupo veio de Angola já dentro de um espírito nacionalista, com princípios de liberdade: “Também íamos atrás dessa liberdade e quando, pouco antes da independência a nossa área foi tomada pela guerra, fomos forçados a fugir, mas na esperança de voltar. Infelizmente aqui só ouvíamos más notícias – que o país estava parado e que a guerra estava a destruir todo o sul. Mas hoje tenho a certeza que se não tivesse família, na época, eu jamais teria saído de Angola. Mas com crianças pequenas o que eu podia fazer? No entanto, sempre me magoou aquele sentimento de me ter ausentado na hora em que o país mais precisava de mim. Por isso, não fazia sentido irmos para Portugal. Seria quase como uma traição à causa”.

Por isso, ainda nos anos 90, assim que se apercebe da existência da representação de Angola no Rio de Janeiro, o grupo, agora constituído por 86 angolanos, decide escrever uma carta a explicar a sua situação e a exigir direitos de cidadania. A situação foi sendo protelada até a chegada do embaixador Osvaldo Serra Van-Dúnem, que os aconselha a constituir uma organização e a fazer uma carta.

É assim constituída, em 1998, a Associação dos Naturais e Amigos de Angola (ANANG), com objectivo de preservar a identidade, cultura e união do grupo de pescadores da Baía Farta e suas famílias, que fugidos da guerra, procuraram refúgio no Brasil.

Regresso e esperança frustrada

Já com o apoio da Embaixada, em 2006, é entregue um salvo-conduto à Maria Peixoto e ao filho mais velho João, para se deslocarem a Benguela e tentarem fazer um levantamento da situação dos 53 habitantes da Baía Farta.

“Na verdade, eu queria mesmo é saber da minha filha Maria, que até hoje ninguém me dá notícias. Por isso, com o coração na mão e cheia de esperanças e expectativas regressei ao meu país, depois de 31 anos”, conta.

Maria Peixoto é natural do Huambo e por isso a busca levou-a também a sua terra natal: “Fui até ao Huambo à procura de notícias da minha filha. Mas nada… Voltei com o coração partido. Ninguém me conseguia dar notícias certas sobre a menina. Além disso, o país estava muito diferente. Achei tudo feio. Eu chorei quando vi o meu bairro, a minha Camunda. Chorei muito. Nem consegui identificar a minha rua, a rua do Comércio, na cidade do Huambo, que era tão bonita. Estava destruída. Foi uma viagem decepcionante”, lamenta.

Em função dessa primeira viagem e dos contactos mantidos, Maria Peixoto conseguiu regressar a Angola em 2009. “Desta vez já gostei. Angola já estava muito diferente. Dava mostras visíveis de desenvolvimento. Mas ainda não consegui encontrar a minha menina”, explica.

Já em conversa com o filho, João informou à Angop que conseguiu, com a ajuda de uma organização internacional, saber que a irmã havia sido raptada e levada para a Jamba, província do Cuando Cubango, onde foi morta. Não sabe se a mãe percebeu bem essa informação, mas de uma coisa tem a certeza. Essa verdade ela não aceita.

Finalmente, em Abril deste ano, no âmbito da campanha de registo e cadastramento levada a cabo pelo Consulado de Angola no Rio de Janeiro, o grupo recebeu os primeiros passaportes que os identificam como cidadãos da República de Angola. Podem entrar e sair do seu país quando e sempre que quiserem.

“Não posso transmitir por palavras a emoção que estou a viver. Apenas posso dizer obrigada. Conseguimos e eu estou muito feliz. Esperei muito por este momento, mas valeu a pena”, desabafa Maria da Luz.

A agente consular que encaminhou o processo disse, na ocasião, que o momento é de “uma importância tão singular e tão esperada por todos, por isso a festa não podia ser diferente, já que este passaporte que hoje recebem dá-lhes a cidadania angolana, cria aquele laço há muito esperado. A partir de hoje, podem entrar quando quiserem em Angola”.

No acto de Abril, foram ainda entregues cartões consulares. Foi feito o registo de crianças, filhas de angolanos, além dos convidados terem tido a oportunidade de assistir dois filmes sobre Angola, sendo primeiro um retrato da vida daqueles cidadãos em Benguela, até Novembro de 1975, e o outro sobre Angola actual e a caminhada para o desenvolvimento.

Enfim, João reconhece que grande parte do mérito desta empreitada se deve ao Brasil, “que nos recebeu como pares, apesar de virmos como refugiados, e que foi o primeiro país a reconhecer a Independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975”. (portalangop.co.ao)

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