Sobrevivente revela acontecimentos do Monte Sumi

(OPAIS)
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O adolescente Albino Cassoma, um dos sobreviventes do confronto entre os efectivos da Ordem e os seguidores de Kalupeteka, conta o cenário de terror que se instalou na “montanha santa” do Sumi durante a intervenção policial

Venâncio Valentim, 34 anos, foi atingido por um tiro no abdómen disparado por um agente da Polícia Nacional (PN) quando tentava escapar do conflito entre os seguidores de José Julino Kalupeteka e as forças da ordem, revelou a O PAÍS Albino Cassoma, irmão da vítima.

Ainda em estado de choque pela perda do irmão, o adolescente, de 14 anos, que fez parte do grupo da seita ‘Luz do Mundo’ do município de Cacuaco que rumou ao Huambo para o tão pretendido encontro com Julino Kalupeteka, contou que os fiéis foram surpreendidos por volta das 12 horas de Quinta-feira, 16, pela Polícia quando se encontravam reunidos em acampamento. Os efectivos da PN iam executar um mandado de captura emitido pela Procuradoria-geral da República no Bié.

Segundo a fonte, tão logo Kalupeteka se deu conta da presença dos agentes orientou os seus seguidores a reagirem caso as forças da Ordem não dessem qualquer possibilidade de diálogo, tendo sido nesta circunstância que os agentes da Polícia, “sem qualquer explicação”, prenderam o líder da seita e os fiéis de imediato reagiram com paus e pedras e atingiram mortalmente três agentes.

De seguida, segundo Albino Cassoma, a Polícia foi atirando à queima-roupa sobre os crentes que foram se defendendo com paus e pedras. Naquele momento, o seu irmão Venâncio que estava a poucos metros de si foi atingido na tentativa de acompanhar o grupo que estava em fuga.

Apesar de não conseguir descrever o número exacto de fiéis mortos no dia 16 de Abril, a fonte que alegou estar a viver momentos angustiantes por força dos acontecimentos que presenciou, diz ter visto mais de 20 crentes mortos, numa operação que segundo estimou, “durou mais de cinco horas porque eu fugi às 17 horas”.

“Ele estava numa posição mais acima de mim e quando tentou correr levou um tiro da barriga e morreu no momento. Era muita gente no chão e não consigo dizer quantas pessoas morreram, porque não dava para contar”, afirmou.

Além do malogrado, Albino fez saber que estavam no Monte Sumi, no Huambo, mais quatro irmãos seus, entre eles Valentim Cassoma que foi alvejado com três tiros nos membros superiores, inferiores e na região do abdómen mas conseguiu resistir aos ferimentos.

Durante o seu depoimento, o entrevistado referiu que, tal como Valentim, os restantes feridos eram transportados para o interior das cubatas que foram construídas para albergar os fiéis que deviam permanecer no local “até à vinda de Cristo”.

Questionado sobre o destino do corpo do malogrado, o adolescente disse desconhecer o seu paradeiro, tendo acrescentado que apenas recebeu informações de um dos seus correlegionários que também estava no local, segundo as quais os mortos estavam a ser enterrados em valas feitas por máquinas retro-escavadoras.

“Kalupeteka não tinha armas”

Contrariamente às informações avançadas pelos responsáveis da Polícia Nacional, segundo as quais os crentes da seita ‘Luz do Mundo’ liderada por Julino Kalupeteka possuíam armas de fogo, Albino diz que no Monte Sumi os fiéis tinham em sua posse apenas os paus (chamados de canjavites) e as pedras que estavam espalhadas no chão do campo de adoração. “Os primeiros polícias foram mortos com paus e pedras”, disse a fonte, tendo justificado que as armas usadas posteriormente pelos seguidores de Kalupeteka eram as mesmas que estavam em posse dos agentes da Ordem que foram mortos pelos crentes durante o desenrolar dos confrontos.

Prosseguiu dizendo que entre as vítimas mortais estavam crianças e outros adolescentes que perante este cenário se foram dispersando, tentando escapar dos tiros. No seu caso, escapou com mais dois companheiros (Zé e Careca) e refugiaram-se no interior de uma caverna onde permaneceram mais de uma semana, alimentando-se de milho e tubérculos. “Ficamos uma semana e três dias na caverna, mas depois vimos que o sofrimento era demais, ganhamos coragem e decidimos sair, já não queríamos saber se vão nos matar. Passamos numas matas e felizmente conseguimos sair no bairro ”, disse.

Segundo explicou, dirigiram-se a uma cantina a fim de telefonarem para os seus pais em Luanda para darem a conhecer o sucedido, mas graças à bondade do proprietário do referido estabelecimento “que nos deu 2 mil Kwanzas para comermos e nos meteu no autocarro de Luanda porque nos disse que somos inocentes”, contou.

Albino, que aderiu à seita ‘Luz do Mundo’ em 2012, realçou que ele e os parceiros já eram dados como mortos, por esta razão, os familiares organizaram uma cerimónia festiva para celebrar o regresso dos sobreviventes.

Durante o período em que permaneceu no Sumi, antes do confronto com a Polícia, Albino Cassoma referiu que não passaram nenhuma privação alimentar porque, segundo disse, além das lavras que estavam ao redor do acampamento, Kalupeteka era detentor de diversas cabeças de gado, principalmente bovino.

Oito viaturas da Polícia e sete das FAA

Tomás Rafael, de 22 anos de idade, outro seguidor de Kalupeteka do município de Cacuaco, chegou a Caála apenas na tarde de Quinta-feira, 16 e a viatura em que seguia foi interpelada no sector Quilómetro 25, não tendo conseguido chegar ao Sumi. Segundo ele, a viagem foi interrompida pela Polícia, em função dos conflitos que estavam a decorrer.

Durante o período em que ficaram retidos naquela secção, Tomás Rafael declarou ter visto oito viaturas abarrotados de agentes da Polícia acompanhadas de outras sete das Forças Armadas Angolanas (FAA) a se dirigirem ao Monte. Disse não saber de concreto o que aconteceu no local, alegando apenas que viu muita gente dispersando-se no local para o qual as tropas se dirigiram.

Desaparecidos preocupam familiares

Neste momento reina o sentimento de incerteza por parte das famílias que ainda desconhecem o paradeiro dos parentes que rumaram ao Huambo. De acordo com os moradores do bairro Garcia, em Cacuaco, seguiram ao encontro de Kalupeteka mais de 15 membros da seita, tendo regressado a Luanda apenas três.

No lote dos desaparecidos estão quatro irmãos de Albino, um dos quais ferido na sequência dos confrontos, para além de Jambito Lucas (17 anos), familiar de Tomás Rafael e uma senhora que abandonou o esposo e levou consigo os filhos.

A única informação que alguns familiares possuem dá conta que parte dos sobreviventes está em alguns bairros da Comuna do Alto Hama, mas até ao momento, segundo Isabel Wayolela, irmã de Jambito, só um morador no Cacuaco conseguiu comunicar-se com a esposa. (opais.co.ao)

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