Sexo, mentiras e professores

(Foto: D.R.)
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Oficialmente não há conhecimento do envolvimento sexual de professores com alunas do ensino geral, mas como a realidade é bem diferente, o Governo vai mudar a indumentária dos educandos. A tradicional bata que podia tapar muito pouco o corpo – provocando desejos nos docentes, segundo alegam alguns professores – será substituída por uma farda com cores e medidas definidas.

«À semelhança do que vestem os estudantes dos colégios, os alunos das escolas públicas também serão obrigados a usar um determinado traje, com cores e medidas definidas», revelou ao SOL António Pacavira, presidente da Associação Nacional do Ensino Privado (ANEP). A medida vai ser adoptada «porque muitas meninas vestem-se de forma indecente, o que as deixa mais vulneráveis ao assédio sexual dos professores».

Um caso recente reacendeu o debate sobre o assédio sexual nas escolas, sobretudo em meninas com idades entre os 12 e 17 anos. Na semana passada, uma rapariga de 14 anos, aluna do colégio Girassol, no Benfica, foi violada, supostamente por um dos motoristas da referida instituição.

O homem em causa, de 25 anos, deu boleia à estudante acabando por a violar nos arredores do Jardim de Rosas, que fica a vários quilómetros da escola.

O suposto violador tinha sido, no ano passado, o motorista da ‘rota’ daquela estudante.

Ao aceitar a boleia do motorista, a vítima correu riscos desnecessários, segundo António Pacavira. De acordo com alguns testemunhos, no interior do autocarro iam inicialmente mais 20 alunas e um segurança, tendo a jovem ficado para último.

O motorista já está a ser investigado pelas autoridades policiais.

Professores assediados
São várias as histórias que se contam de alegadas violações de estudantes, embora as queixas sejam praticamente inexistentes, ou por vergonha ou por receio de represálias. «Temos conhecimento de modo oficioso do envolvimento entre professores e alunas, mas os casos têm vindo a diminuir nos últimos anos», revela Pacavira.

Alerta, no entanto, para outras situações anómalas: «Ultimamente estamos a receber queixas de professores que dizem que estão a ser assediados por alunas, que se mostram muito ousadas, com roupas provocantes. Para chamar a atenção dos professores, usam saias curtas, colãs e colocam imagens provocadoras nas redes sociais, onde muitas vezes também são amigas dos docentes», acrescenta o responsável associativo.

Garrido, nome fictício, tem 29 anos e é professor há cinco. Está colocado numa escola do ensino geral no bairro Palanca, na periferia de Luanda.

O jovem professor diz sentir-se constrangido com as situações a que assiste na instituição onde lecciona: «Antes pensava que o assédio era só de professor para aluna, mas vi recentemente duas meninas a provocarem um professor mais velho. Elas não são de todo ingénuas».

No entanto, não deixa de criticar os seus colegas, pois eles é que são adultos e as alunas apenas adolescentes. A promiscuidade entre docentes e educandos é notória.

«É preocupante. Ainda há dias vi e ouvi duas meninas a dizerem a um colega, enquanto íamos ao parque de estacionamento, que naquele dia não seria possível fazer-lhe sexo oral», contou ao SOL.

Dificilmente passavam de classe
Panzo Joaquim, professor na escola do ensino geral no bairro São Paulo, vai mais longe: «Sei de muitas raparigas que, enquanto estudaram nessa escola, passaram pelas mãos de vários professores, chegando ao ponto de serem motivo de conflito entre eles, quando estes descobriam que estavam relacionados com a mesma menina». Quando os docentes descobriam que ‘partilhavam’ a mesma aluna, «ela dificilmente passava de classe e era perseguida».

De acordo com Panzo Joaquim, os professores que se envolvem com as alunas «são irresponsáveis» e não têm a noção do que fazem. «Quando são chamados à atenção respondem que as meninas são o subsídio de risco resultante da exposição ao pó de giz e às condições precárias de trabalho…», revela.

Passaporte para boas notas
Regina, nome fictício, 16 anos de idade e estudante da nona classe na Escola Nzinga Mbande, dá outras explicações para o envolvimento de menores com os professores. «Para as meninas daqui da escola namorar um professor é um prestígio, faz delas, aos olhos das colegas, mais mulheres, mais adultas e mais seguras quanto aos resultados das provas», justifica.

O facto de os professores terem – sobretudo os mais jovens, com menos de 30 anos – boa aparência ajuda a criar ilusões, pois há quem chegue a acreditar que pode ter uma relação séria, de namoro, com o docente.

Regina fala ainda das colegas que querem sentir-se muito bonitas, ao ponto de despertarem a atenção dos professores: «Os pais não têm conhecimento dessas situações. As alunas que namoram com os professores normalmente encontram-se com eles no carro, nos arredores da escola,  e tudo é combinado por telefone».

Muito se fala em Angola de adolescentes grávidas, mas a ANEP não tem registo de casos de alunas envolvidas com professores. Pacavira conta que já ouviu «histórias de professores que casaram com ex-alunas, mas, segundo eles, tornaram-se casais depois de a menina ter deixado a escola onde esteve como discente».

Abortos na escola
Garrido tem uma versão diferente da de Pacavira: «Se já houve alunas engravidadas por docentes? Eles próprios, os professores, gabam-se disso. Apontam uma e outra menina que já fizeram entre um e dois abortos».

Há três anos, recorda, assistiu a um episódio em que a família de uma aluna apareceu na escola a reclamar que o professor tinha engravidado a sua filha. «Os pais estavam dispostos a dar um correctivo no professor, mas alguém muito influente na escola abafou o caso e aconselhou o professor a pagar a ‘multa’ – cerca de 100 mil kwanzas – e simular uma espécie de pedido de noivado, que não durou muito tempo, já que a relação acabou pouco tempo depois». No caso em apreço, a aluna tinha apenas 14 anos e o professor estava na casa dos 27.

Garrido contou ainda ao SOL que se fala que as adolescentes envolvidas com professores normalmente têm menos aproveitamento escolar, pois perdem o interesse pelos estudos. Acreditam que os professores com quem namoram lhes garantirão boas notas.

O fenómeno não é exclusivo do ensino geral, já que no superior muito se fala em notas positivas a troco de sexo. Ainda há dois meses o tema mereceu largo destaque na imprensa, nomeadamente situações relatadas que tinham acontecido nas universidades das províncias afastadas de Luanda.

Crime silencioso
Para o porta-voz do Comando Provincial da Polícia Nacional em Luanda, inspector-chefe Mateus Rodrigues, «com a conivência ou não da menina, se o professor que é, necessariamente, maior de idade, se envolver com uma menor, estará a incorrer na prática de um crime de pedofilia, punível por lei. Esses casos, quando são denunciados merecem o repúdio da sociedade e são punidos de forma exemplar». O crime de pedofilia tem em Angola uma moldura penal que pode ir dos dois anos aos oito anos de prisão efectiva.

Mateus Rodrigues revelou que este ano só há registo oficial do caso da menina de 14 anos que terá sido violada por um motorista. É notório que o problema é muito mais vasto, mas «o fenómeno existe de forma silenciosa, pois a sociedade, perante situações do género, não apresenta queixa».

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2 COMENTÁRIOS

  1. António Pacavira, presidente da Associação Nacional do Ensino Privado (ANEP) És uma vergonha para a pedagogia, tu não tens princípios para insinuar que a Bata curta e as roupas das estudantes é que provocam o assédio. Um professor é um Pai e ele por mais que a sua filha usar uma saia curtinha não vai a assediar. Vê se emites um curso de pedagogia.

  2. ara o porta-voz do Comando Provincial da Polícia Nacional em Luanda, inspector-chefe Mateus Rodrigues, «com a conivência ou não da menina, se o professor que é, necessariamente, maior de idade, se envolver com uma menor, estará a incorrer na prática de um crime de pedofilia, punível por lei. Esses casos, quando são denunciados merecem o repúdio da sociedade e são punidos de forma exemplar». O crime de pedofilia tem em Angola uma moldura penal que pode ir dos dois anos aos oito anos de prisão efectiva.

    Aplauso para ti, é desses tipos de dirigentes que a nossa sociedade precisa.

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