Reino Unido: Livre de coligação, David Cameron flerta com a direita

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Agenda do primeiro ministro britânico contempla cortes em auxílios sociais, redução da máquina estatal e mudanças na relação com a UE. Ao mesmo tempo, porém, ele terá que lidar com o fortalecimento dos independentistas escoceses.

Durante meses, analistas saudaram o que viam como o fim do bipartidarismo no Reino Unido. Mas as eleições de 7 de maio tiveram um resultado que poucos esperavam: uma vitória absoluta do Partido Conservador. A margem foi pequena – 331 das 650 cadeiras da Câmara dos Comuns. Mas isso não muda o fato de que, pela primeira vez em 20 anos, os tories conquistaram, sozinhos, a maioria absoluta.

E parece que David Cameron pretende usar sua maioria na Câmara – suficiente para reelegê-lo primeiro ministro sem necessidade do apoio de outros partidos – para pôr em prática uma agenda radical. Ela contemplaria cortes nos auxílios sociais, redução do tamanho da máquina estatal e mudanças nas relações britânicas com a União Europeia.

Mas navegar com uma maioria tão estreita será um desafio. E é provável que Cameron olhe mais para a direita, de modo a consolidar sua base na Câmara, após cinco anos de coligação com os liberal-democratas.

Aumento da vigilância on-line

O novo governo está no poder há menos de duas semanas, mas já está ocupado recuperando propostas que vinham sendo bloqueadas pelos liberal-democratas na última legislatura.

Espera-se, por exemplo, que nos primeiros cem dias de governo os conservadores divulguem planos para substituir o chamado “Human Rights Act” por uma nova lei geral de direitos humanos.

Segundo especialistas, a medida pode ser uma dor de cabeça para o governo. E um dos motivos é que o Acordo de Belfast, que levou paz à Irlanda do Norte em 1998, está anexado ao “Human Rights Act”.

Com as mudanças, os conservadores planeiam também dar maior poder à polícia para monitorar comunicações na internet, algo a que os liberal-democratas, por temores de violação dos direitos civis, se opunham de forma ferrenha. Outro plano é o de dar à Câmara dos Comuns o direito de vetar leis que afectem apenas o território inglês.

“Vai ser interessante ver se os conservadores conseguirão pôr em prática os cortes de impostos que prometeram”, diz o analista político Ed Rennie, do instituto ResPublica. “Eles não podem mais usar os liberal-democratas como desculpa. A aplicação dependerá do desempenho da economia. Haverá sérios cortes nos auxílios do Estado.”

Os conservadores do chamado “backbench” – que se sentam na bancada de trás da Câmara e não têm cargo no governo – vêem com suspeita a agenda de Cameron. E, agora, eles têm mais voz do que possuíam na ampla coligação com os liberal-democratas.
UE e Escócia

Um dos principais pontos da campanha eleitoral de Cameron era a promessa de realizar um referendo em 2017 sobre a permanência britânica na União Europeia – votação que conta com apoio de muitos desses deputados de segundo escalão.

Cameron vai fazer campanha pela permanência na UE, mas, se os britânicos votarem pela saída, ele terá que agir.

“O partido populista de direita Ukip tem apenas um deputado e, por isso, sua voz vai ser menos ouvida do que durante a campanha”, diz o analista político Duncan O’Leary, do instituto Demos. “No entanto, deputados conservadores eurocépticos terão mais força, porque o governo depende do voto deles para ter maioria no Parlamento.”

A preferência de Cameron é por renegociar a relação britânica com a UE, em vez de deixar o bloco completamente. Sua esperança é assegurar mudanças na forma como as directivas de Bruxelas se aplicam ao Reino Unido e, assim, aplacar a resistência dos eurocépticos.

Outro desafio para Cameron é a questão escocesa. Nas eleições, o Partido Nacionalista Escocês (SNP) elevou sua bancada na Câmara dos Comuns de seis para 56 assentos, de um total de 59 reservados à Escócia. Como resposta, o primeiro ministro prometeu “unir o Reino Unido” nos próximos cinco anos.

“O poder – incluindo para aumentar ou cortar impostos – será devolvido à Escócia como parte de um Reino Unido mais ‘federal'”, afirma O’Leary. “Ninguém sabe se isso será suficiente para manter a União a longo prazo. Porém, no curto prazo, só haverá um novo referendo sobre a independência escocesa se os britânicos optarem por deixar a UE.” (dw.de)

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