Outra homenagem em vida: B.B. King

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Os fatos são estarrecedores. B.B. King, necessitando de cuidados médicos urgentes, estava trancado em sua própria casa em Las Vegas, por seu empresário, Laverne Toney. A filha Patty, desesperada, liga para a polícia e denuncia que seu pai está praticamente em cárcere privado e pede que os oficiais vão até lá acompanhados de uma equipe de paramédicos. Lá chegando, as equipes de socorro verificam que a filha estava certa: King teve um ataque cardíaco e precisa urgentemente ser internado em um hospital.

A seguir, mais detalhes sórdidos surgem. Primeiro, uma foto, tirada pela própria filha, mostra o estado em que o pai foi encontrado. Veja abaixo e tente não ficar deprimido:

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Depois, é protocolada uma acção contra o empresário, acusado de abuso físico de idoso, roubo de centenas de relógios, jóias e uma quantia estimada entre 20 e 30 milhões de dólares da conta bancária do lendário bluesman, além de restrição de acesso a medicamentos por parte de King. Por outro lado, o tal empresário alega ter uma procuração para responder por seu artista. Um verdadeiro horror!

Mesmo já sendo bastante calejado nestas histórias escabrosas envolvendo artistas em suas respectivas intimidades, não consegui ficar alheio a este estado de humilhação que atinge não apenas o homem que se tornou a personificação viva do blues para várias gerações, mas também um dos artistas mais amáveis que tive o prazer de entrevistar anos atrás. Não há ninguém no mundo que personifique tão bem a sonoridade do blues como este extraordinário guitarrista, que cunhou um estilo próprio e inconfundível.

Há um clube muito restrito dentro do universo das guitarras, composto por instrumentistas cujo som é identificável a anos-luz de distância – Jimi Hendrix, David Gilmour, Eddie Van Halen, Yngwie Malmsteen, Mark Knopfler e uns poucos outros -, mas nenhum deles tem uma identidade sonora tão imediatamente marcante quanto B.B. King.

Embora ele jamais tenha negado que surrupiou todos os licks possíveis de caras como T-Bone Walker e Blind Lemon Jefferson, King conseguiu estabelecer um padrão para o seu próprio som tão personalizado que é impossível de ser ouvido sem um sorriso no rosto. Quando você ouve um único bend extraído de sua amada “Lucille”, a associação a seu nome é fulminante e instantânea. Tudo isto fez com que se tornasse uma referência estilística para todos os guitarristas que surgiram depois dele. Incluindo o próprio Hendrix.

Nada mal para quem nasceu em uma cabana miserável no meio de uma plantação de algodão no Mississipi em 1925. A educação feita pela avó – seus pais se separaram pouco depois que ele nasceu e cada um foi para um lado, largando o pequeno Riley B. King para trás – levou o garoto a frequentar igrejas e a cantar nos corais. Quando ganhou seu primeiro violão aos doze anos, presente do primo de sua mãe, o bluesman Bukka White, o garoto enlouqueceu. Era a possibilidade de deixar para trás uma infância e adolescência muito pobre e sofrida, tendo que trabalhar como motorista de tractor nos campos para poder comer. Quando White foi para Memphis em 1948, King não teve dúvidas em seguir o seu “padrinho”.

O golpe de sorte veio quando conseguiu se apresentar no programa de rádio de outro bluesman, o famoso – e depois lendário – Sonny Boy Williamson. O sucesso foi tão surpreendente que logo o jovem guitarrista passou a ter um quadro de dez minutos dentro da programação da emissora, no qual era disc jockey – apelidado como “Beale Street Blues Boy” -, embora isto não o impedisse de cantar ali mesmo. Logo passou a ser chamado de “Blues Boy King”. Daí para “B.B” foi um passo…

Mas foi o encontro com o ídolo T-Bone Walker que fez com que King assumisse de vez o seu rumo como guitarrista. Começou a gravar algumas canções em 1949 sob a produção do até então desconhecido Sam Phillips – que mais tarde fundaria a mitológica gravadora Sum e descobriria um outro garoto, só que branco, chamado Elvis Presley. Todos os envolvidos apostavam no sucesso “Miss Martha King”. Nada aconteceu.

O estouro nacional só aconteceu em 1952 com “3 O’Clock Blues”. A partir dele, King emendou um hit atrás do outro – para os padrões da época, claro -, como “Woke Up This Morning”, “Everyday I Have the Blues” e “Please Accept My Love”, entre tantos outros.  O guitarrista passou a ser o maior astro do blues – condição que carrega até os dias actuais – e passou a excursionar como um louco, tocando tanto em locais com maior capacidade de publico e mais luxuosos quanto em pequenos bares ao longo das imensas estradas americanas.

O sucesso e a respeitabilidade que King conseguiu erguer em torno de seu nome o levou em 1956 a tomar uma decisão até então inédita: criar seu próprio selo, Blues Boys Kingdom, com o qual produziu uma série de discos para jovens e veteranos bluesmen.

Mas se era um fenómeno dentro do mercado americano de blues, o mesmo não acontecia no restante do planeta. Bem, pelo menos até 1970, quando King arrebentou com o sucesso obtido por sua versão de “The Thrill is Gone”, uma obscura canção dos anos 50 composta por Roy Hawkins. A partir dali, ele se tornou conhecido mundialmente e acabou tendo seu nome imediatamente relacionado a qualquer menção à palavra “blues”. Também ajudou bastante o fato de ele ter sido convidado pelos Rolling Stones para abrir os shows da turnê que a banda inglesa fez em 1969 pelos Estados Unidos, já que foi visto por uma plateia roqueira branca que o catapultou a um novo patamar de visibilidade e apreciação. Tudo isto fez com que seu sucesso perdurasse durante as décadas de 70 e 80, principalmente por meio de canções como as maravilhosas “I Like to Live the Love” e “To Know You is to Love You”.

Quando se pensava que King iria cair em certo ostracismo disfarçado de aposentadoria, eis que sua participação em 1988 no filme e no álbum Rattle and Hum, do U2, dando um show de carisma e mostrando aqueles licks na óptima canção “When Love Comes to Town”, revigorou a sua carreira novamente. O guitarrista, mais uma vez, foi apresentado em escala mundial a uma molecada que nunca havia ouvido um blues na vida. Foi o bastante para que chovessem novos convites para turnês com o velho bluesman.

O guitarrista conduziu sua carreira com segurança nos anos seguinte, gravando discos consistentes e se divertindo em parcerias, como aquela com Eric Clapton – um assumido fã de King desde os tempos de garoto – registada no bom álbum Riding With the King, lançado em 2000. Mas a partir de então ele veio se sentindo cada vez mais cansado com o peso da idade e de sua diabetes. Chegou até a anunciar uma “turnê de despedida” em 2006. Só que isto não acabou acontecendo pela absoluta relutância de King em abandonar os palcos e os aplausos das plateias mundiais.

King vinha se apresentando regularmente, mesmo tocando sentado o tempo todo. Mas depois de algumas apresentações um pouco problemáticas no ano passado, em que passava grande parte do tempo conversando com a plateia e não tocando e cantando com o sempre fez, começou a pegar muito mal. E agora aconteceu este fato lamentável que relatei no início deste texto.

Assim como fiz com Lemmy – leia aqui -, presto neste exacto momento as minhas homenagens ao velho bluesman enquanto ele ainda está vivo. Não vou esperar a sua morte para celebrar a sua obra musical simplesmente espectacular. Faço isto agora. E para sempre.  (Na Mira do Regis)






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