Livro autobiográfico relança debate na França sobre assistência sexual para deficientes

Capa do jornal francês Libération (14/05). (Foto: DR)
Capa do jornal francês Libération (14/05). (Foto: DR)
Capa do jornal francês Libération (14/05).
(Foto: DR)

“O prazer para todos”, escreve em sua manchete desta quinta-feira (14) o jornal francês Libération em defesa do direito das pessoas com deficiência de recorrer a assistentes sexuais. O lançamento de um livro autobiográfico foi a ocasião para o jornal dedicar uma ampla reportagem sobre um tema considerado tabu na França.

Libération traz várias páginas com artigos e entrevistas para abordar os diversos aspectos desse assunto totalmente marginalizado e que a sociedade francesa insiste em evitar. Em 2012, o presidente François Hollande prometeu convocar um “amplo debate sobre o tema”, mas foi esquecido, lamenta o diário.

O tema volta à tona com a publicação de uma autobiografia de Marcel Nuss, um escritor com deficiência motora grave que milita pela criação da Associação para a Promoção do Acompanhamento Sexual (Appas, na sigla em francês). Sua intenção, disse ao Libération, é colocar o “debate em praça pública”.

A assistência sexual às pessoas com deficiências voltou a ser discutida depois que cinco franceses foram oficialmente reconhecidos, em Fevereiro, como assistentes sexuais. Eles seguiram uma formação de um ano e meio na Suíça promovida por uma associação especializada.

Libération diz que este debate incomoda e lança o questionamento: ajudar a liberar a sensualidade pode ser considerado prostituição?

No país, em 2013, o Comité consultivo de ética impediu o avanço do tema ao lembrar “o princípio de não utilização do corpo como mercadoria”. A prostituição é proibida na França, mas na prática, diz um psicólogo ouvido pelo Libé, essa assistência já existe.

Em editorial, o jornal afirma existir uma “desigualdade imensa no país em relação ao prazer” e argumenta a favor da possibilidade das pessoas deficientes recorrer a profissionais para ajudá-las a se satisfazerem sexualmente.

Isto em um contexto em que muitas delas não podem nem sequer tocar o próprio corpo. “Os deficientes vivem, em sua grande maioria, em uma situação de solidão afectiva e o pior seria o apego, mais cruel ainda seria não preencher esse vazio. Pagar permitiria superar essa armadilha”, defende o texto.

Depoimentos contra e a favor

O jornal traz vários depoimentos de pessoas com deficiência que expõem seus argumentos contra e a favor da assistência sexual. Julien, de 27 anos, relatou as dificuldades de ter relações íntimas com pessoas sem deficiências e confessou já ter tido vontade de recorrer a prostitutas. “Uma acompanhante sexual poderia nos permitir viver plenamente nossa vida sexual”, defende.

Laetitia, de 32 anos, vítima de uma doença genética na espinha, diz ter se apaixonado várias vezes, mas nunca foi correspondida. Ela diz ter apoio dos pais para recorrer a um assistente sexual. “Ele não irá resolver meu problema de solidão, mas eu me sentirei mais mulher”, confessa.

Já o documentarista Rémi, de 32 anos, diz ficar chocado com a ideia de ser tocado por uma assistente sexual. Ele estima que essa “caridade” seria um ato de extrema violência, e discriminatório. “A ideia de oferecer um serviço específico é afirmar que o corpo de um deficiente nunca será sedutor”, opina.

Libération ouviu também o relato de uma assistente sexual chamada Sabine, de 50 anos, formada por uma entidade especializada na Suíça. Ex-mulher de um deficiente, ela diz que um assistente deve “estar bem seguro de sua sexualidade” e ter “maturidade” para se colocar à disposição de um cliente. Sabine, que não aceita beijar e recusa penetração, diz cobrar até € 130 por hora (R$ 445).

“Um acompanhamento é, antes de tudo, um encontro entre um assistente e um beneficiário. Dar e receber em um clima de profundo respeito é forte”, afirma. (rfi.fr)

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