General anuncia destituição de presidente do Burundi, mas governo nega

Presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza (Foto: FRANCOIS GUILLOT/AFP)
Presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza  (Foto: FRANCOIS GUILLOT/AFP)
Presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza (Foto: FRANCOIS GUILLOT/AFP)

Um general do Burundi anunciou nesta quarta-feira a destituição do presidente Pierre Nkurunziza, após semanas de protestos contra seu projecto de terceiro mandado, mas a presidência assegurou que a tentativa de golpe fracassou.

O general Godefroid Niyombare assegurou ter o apoio “de muitos oficiais do exército e da polícia”, em uma mensagem que parece direccionada aos generais e soldados ligados ao partido Cndd-FDD no poder.

Contudo, de acordo com a presidência do Burundi, o golpe de Estado, liderado por um grupo de militares “amotinados”, foi “frustrado”. Mas é impossível saber imediatamente quem controla o país, que enfrenta desde 26 de Abril um movimento de contestação à candidatura de Nkurunziza a um terceiro mandato em 26 de Junho.

As manifestações contra o chefe de Estado, no poder desde 2005, têm sido marcadas pela violência, que deixou vinte mortos.

Imagens transmitidas nas redes sociais mostravam manifestantes comemorando no centro e nos bairros da capital Bujumbura, confraternizando com os militares. Na noite desta quarta-feira, poucos policiais eram vistos na cidade, onde grupos de manifestantes gritavam, com galhos de árvores nas mãos em sinal de paz, “vitória, nós vencemos!”.

Uma autoridade leal ao presidente disse à AFP que “negociações” estavam em andamento entre legalistas e golpistas para encontrar uma solução que preserve os “interesses nacionais”. Ambos os lados estão “de acordo em não derramar o sangue dos habitantes”, assegurou.

Aeroporto fechado

Segundo a presidência da Tanzânia, o presidente Nkurunziza deixou no final na tarde a capital económica Dar es Salaam para retornar a Bujumbura, onde o líder dos golpistas ordenou o fechamento das fronteiras e do aeroporto.

De fato, o aeroporto da capital doo Burundi se encontrava fechado nesta quarta à noite, sem ser possível determinar de que lado estão os militares e policiais que o controlam, segundo um jornalista da AFP no local.

O general golpista pediu “a todos os cidadãos e às forças de ordem que fossem ao aeroporto para garantir sua segurança”. A principal rota de acesso ao aeroporto, a poucos quilómetros ao norte da cidade, foi bloqueada por policiais que, muito nervosos, impediam a passagem de qualquer pessoa.

O presidente Nkurunziza viajou a Dar es Salaam para uma reunião extraordinária dos chefes de Estado da Comunidade do Leste Africano (Burundi, Quénia, Uganda, Ruanda, Tanzânia).

Seus colegas tanzaniano Jakaya Kikwete, queniano Uhuru Kenyatta, ugandês Yoweri Museveni e de Ruanda, Paul Kagame, que discutiram a situação de seu país, condenaram o golpe em andamento e solicitaram o adiamento das eleições legislativas, marcadas para 26 de Maio, e presidenciais, em 26 de Junho, dizendo que “as condições não eram propícias à realização de eleições”.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu urgentemente que todas as partes mostrem calma e moderação no país, segundo seu porta-voz, Stéphane Dujarric.

“Seguimos avaliando a evolução em terra de uma situação que muda rapidamente”, acrescentou o porta-voz, indicando que a ONU acompanha a situação com grande inquietação.

Por sua vez, a Casa Branca chamou nesta quarta-feira as partes em disputa no Burundi a depor as armas. “Os Estados Unidos seguem com preocupação as notícias procedentes de Bujumbura”, disse o porta-voz Josh Earnest.

O equilíbrio de poder dentro do exército entre legalistas e golpistas continua desconhecido, mas os militares, que têm desempenhado um papel moderador desde o início da crise, desfrutam da simpatia de muitos manifestantes, inversamente à polícia, acusada de estar a serviço do partido no poder e de pactuar com sua liga da juventude “Imbonerakure”, descrita pela ONU como uma milícia.

Ex-companheiro de armas

A tentativa de golpe de Estado é conduzida por um ex-companheiro de armas do chefe de Estado na ex-rebelião hutu, o Cndd-FDD, que se tornou o partido no poder desde o fim da longa guerra civil (1993-2006) entre a maioria hutu e a minoria tutsi, dominante no exército.

“O presidente Pierre Nkurunziza foi destituído de suas funções, o governo foi dissolvido”, anunciou na rádio Insaganiro o ex-general Nyombare.

Ele havia sido destituído em fevereiro pelo chefe de Estado depois que recomendou ao presidente não disputar o terceiro mandato, considerado inconstitucional por seus adversários políticos.

O ex-general afirmou que está disposto a formar um “comitê para a restauração da harmonia nacional”, uma entidade temporária que terá como missão, entre outras coisas, a “restauração da unidade nacional e a retomada do processo eleitoral em um ambiente pacífico e justo”.

“Peço a todos que respeitem a vida e as propriedades dos outros”, acrescentou Nyombare.

Esta mensagem foi transmitida pela rádio privada RPA (Rádio Pública Africana), a mais ouvida do país, que voltou a funcionar na terça-feira à tarde depois de ter sido fechada em 27 de abril pelas autoridades que a acusaram de retransmitir chamadas para protestar.

Personalidade respeitada e considerado um homem de diálogo, o general Nyombare havia se tornado após a guerra civil chefe adjunto do Estado-Maior e chefe do Estado-Maior do Exército. Nomeado em dezembro de 2014 como chefe do Serviço de Inteligência Nacional (SNR), ele foi afastado três meses mais tarde. (afp.com)

 

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