Executivo trabalha para dignificar pessoas com deficiência

Humberto Costa, director Nacional de Integração Social da Pessoa com Deficiência (Foto: Rosário dos Santos)
Humberto Costa, director Nacional de Integração Social da Pessoa com Deficiência (Foto: Rosário dos Santos)
Humberto Costa, director Nacional de Integração Social da Pessoa com Deficiência (Foto: Rosário dos Santos)

O atendimento directo pelo Ministério de Assistência e Reinserção Social (MINARS) de 89 mil 438 pessoas com deficiência, o funcionamento pleno de 20 oficinas integradas de apoio e cooperativas sócio-profissionais no país, a elevação à categoria de utilidade pública de associações e a sólida parceria com diversos Departamentos Ministeriais para garantir a inserção no mercado de emprego constam, entre outros, dos assuntos revelados na entrevista exclusiva à ANGOP do director Nacional de Integração Social da Pessoa com Deficiência, do Ministério da Assistência e Reinserção Social, Humberto Fernando Costa.

ANGOP – Senhor director Humberto Costa (HFC), o último levantamento estatístico feito em Março de 2012 indicava a existência, no país, de 89 mil 438 pessoas com deficiência que se encontravam sob atendimento directo dos governos provinciais. Uíge, Huíla e Luanda tinham o maior número de beneficiários. Este número mantém-se ou alterou?

Humberto Fernando Costa (HFC): O levantamento é geralmente de quatro em quatro anos. Neste momento, estamos a trabalhar com as direcções provinciais no sentido de recolhermos as informações, os dados estatísticos para poder tornar público. Mas até agora, continuamos a usar os mesmos dados e até porque essas são as províncias com maior densidade populacional, de acordo com o Censo Populacional. Queremos acreditar e também pelos relatórios que nós recebemos essas são as províncias para onde temos encaminhado a maior parte dos meios disponíveis.

ANGOP – Como avalia o cumprimento, pelos mais diversos sectores públicos e privados da sociedade, das leis, entre eles a Lei da Pessoa com Deficiência que o Executivo fez aprovar?

HFC: A avaliação do cumprimento desses normativos jurídicos tem sido feita por via do Conselho Nacional da Pessoa com Deficiência. Nesse Conselho estão presentes 19 Departamentos Ministeriais, 10 associações de pessoas com deficiência e três organizações religiosas. Nesses plenários, que se realizam de três em três meses, os diferentes intervenientes apresentam aquilo que são as suas preocupações relativamente ao cumprimento dos normativos, assim como também as pessoas com deficiência presentes nos plenários têm uma oportunidade ímpar de colocar em primeira mão as suas questões, as que mais os preocupam sobretudo no âmbito do emprego, da educação e ensino e da habitação.

Esses problemas são colocados num plenário onde estão presentes secretários de Estado e plenária sempre dirigida pelo ministro da Assistência e Reinserção Social. Neste momento, não é só o Governo que elabora acções no âmbito da pessoa com deficiência, como também as associações de utilidade pública. Por exemplo, temos algumas associações que foram elevadas a categoria de utilidade pública e recebem verbas do Estado para desenvolver acções no âmbito da pessoa com deficiência. Todos juntos temos estado a avaliar continuamente o desempenho do Governo. Tanto mais que nós agora aderimos a Convenção Internacional da Pessoa com Deficiência e fruto disso temos responsabilidades acrescidas. O desempenho até ao momento é positivo.

ANGOP – Quais as associações que foram elevadas à categoria de utilidade pública?

HFC: A Fundação Lwini, a Associação Nacional dos Deficientes de Angola (ANDA), A ANADEV e recentemente foi elevada à categoria de associação de utilidade pública, a Lardef (Liga de Apoio a Reintegração dos Deficientes Físicos) que, infelizmente como foi aprovada apenas em Dezembro, este ano ainda não está a beneficiar dos fundos, mas a partir do próximo ano contamos ter já a situação resolvida.

ANGOP – Dois anos depois de Angola ter aderido (2013) à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a ratificação da mesma e dos seus protocolos facultativos, que frutos o país já obtém?

HFC: Sim, a responsabilidade, às vezes, é colocada do ponto de vista do Estado, porque é o Estado que assume. Mas o Estado é composto também pela sociedade civil. É nesse sentido que nós, o Minars e outros Departamentos Ministeriais, em parceria com as organizações da sociedade civil, as associações, no caso, temos estado a trabalhar em conjunto para criar maior visibilidade daquelas que são as questões que têm a ver com a pessoa com deficiência e também encontrar as melhores soluções para ultrapassar aquilo que são as maiores preocupações.

Temos também a responsabilidade de sentarmos, para avaliar o grau de cumprimento. Temos estado a elaborar relatórios sobre o grau de cumprimento das acções que foram dirigidas ao Estado angolano. Tanto mais é que nós recentemente participamos numa cimeira das Nações Unidas em Genebra (Suíça), onde fomos recolher subsídios do processo de elaboração do relatório inicial da Convenção sobre a pessoa com deficiência.

Estamos num bom caminho. Estamos a trabalhar não sozinhos, mas com o apoio das associações, sobretudo da FAPED (Federação Angolana das Pessoas com Deficiência), e estamos a trabalhar também com o apoio das organizações internacionais, que são nossos parceiros.

ANGOP – Qual é o ponto de situação que pode fazer a respeito da proposta de Lei das acessibilidades e regulamentação de alguns diplomas previstos na política da pessoa com deficiência?

HFC: Esse processo começou no ano passado e, quando começamos, a proposta foi apresentada no Conselho Nacional da Pessoa com Deficiência e daí depois penso que se criou grupo de trabalho. Já temos uma proposta bem avançada com 10 capítulos e 50 artigos. Trata-se de um instrumento jurídico dinâmico que procura responder as questões da sensibilidade, assegurando o acesso das Pessoas com Deficiência aos espaços internos e externos, assim como também aos equipamentos, sejam electrónicos ou não. Essa é nossa base. Nós fizemos o trabalho de recolha de contribuições, numa primeira fase dos Departamentos Ministeriais que são membros do conselho. Já estendemos essas consultas às associações. Tivemos já duas reuniões com as associações, onde tiveram a oportunidade de dar mais contribuições sobre o documento, até porque afinal o documento é mesmo dirigido a eles. Agora estamos numa terceira fase, que é de recolha dos subsídios junto de outros Departamentos Ministeriais, que, por não serem membros da Pessoa com Deficiência, ainda não tiveram acesso ao mesmo. Portanto, estamos à espera que essas contribuições cheguem. Vamos fazer primeiro acomodação, a arrumação das contribuições e depois voltar a ver em plenária e submeter aos órgãos superiores.

ANGOP – O acesso ao emprego é o principal problema vivido por essa franja da sociedade?

HFC: Na verdade, alguns podem dizer que sim o acesso ao emprego. Mas estamos mais preocupados com o acesso à educação, ao ensino, porque é daí onde se pode conseguir empregos com qualidade. Então, há muita gente que infelizmente não tem tido oportunidade de estudar e alguns é porque também por questões de índole cultural ou familiar não têm sido colocados com idades em que deveriam ir para escola e depois acabam por estar numa idade superior e não ter o nível que deveriam ter. Ou seja, podem e chegam aos 15 anos de idade e não têm aquele nível de escolaridade que deveriam ter e depois eles próprios sentem-se complexados em aderir aos programas de educação e ensino disponível ao nível nacional. Depois é uma cadeia. Se ele não consegue ter educação, depois não consegue ter emprego de qualidade e muitos acabam por estar virados em empregos precários. Nós temos parcerias com os ministérios da Educação, do Ensino Superior e também da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social em três áreas.

Primeiro é a formação profissional. As pessoas a partir das direcções provinciais conseguem estar inscritos nos cursos de formação profissional, outros que têm um pouco de mais ambição temos um protocolo com o Ministério da Educação para o ensino regular até a 12ª classe e outros que têm mais ambição. Temos também um protocolo com o Ministério do Ensino Superior, onde muitos jovens têm sido inseridos para frequentar cursos e adquirir licenciaturas nos vários ramos do saber. Isso é todo um processo. Cada vez mais estamos a ter jovens com deficiência com elevado grau de escolaridade. São eles que nos têm ajudado na identificação das áreas de possível intervenção. Depende muito da perspectiva. É importante ter um emprego, mas queremos que as pessoas tenham não só emprego precário, mas tenham também de qualidade e o que vai lhe dar emprego de qualidade é essencialmente a educação.

ANGOP – A vossa prioridade, então diante dessa franja da sociedade, não é o emprego. É a formação primeiramente?

HFC: Sim, porque a formação é que lhes vai dar a qualidade de emprego, porque nós não queremos que as pessoas com deficiência estejam só única e simplesmente virados ao emprego precário. Depois, isso pode criar um estigma de as pessoas olharem na pessoa com deficiência e dizerem “só tem capacidade de desempenhar essa ou aquela função de actividade” e não tem mais capacidade para outro tipo ou para outras áreas de emprego. Por isso é que a Lei estabelece a designação como Pessoa com Deficiência, porque antes de ter a deficiência é uma pessoa e como pessoa tem qualidade, competências e também tem desafios. É por aí que nós procuramos trabalhar.

ANGOP- Como avalia o funcionamento das 20 oficinas integradas para o apoio à Pessoa com Deficiência e cooperativas sócio-profissionais existentes no país, com vista a reintegração, formação e socialização?

HFC: Nós temos 20 oficinas espalhadas no país, todas elas estão a funcionar plenamente. Há zonas que têm maior aderência e há outras com menor, mas todas elas estão a funcionar. Temos especialidades nas áreas de corte e costura, serralharia, mecânica, construção civil, electricidade, construção civil. Todas estão a funcionar. De acordo com as últimas informações que recolhemos, saídas do Conselho Consultivo realizado em Fevereiro, todas estão a funcionar plenamente.

ANGOP – O director disse existir zonas onde há maior aderência às oficinas e outras com menor aderência. Quais são as zonas com maior e menor aderência e o que influencia nisso?

HFC: Depende, há turmas onde acabamos de ter 15 e outras com 20 estudantes. Os factores variam muito de caso para caso, porque há aqueles casos em que depende da faixa etária do grupo que entra e também depende muito de alguns factores sociais. Há pessoas que pensam que estar num centro de formação duranre seis, nove ou 12 meses é uma perda de tempo, porque durante esse período poderiam estar numa outra área a ganhar dinheiro, por exemplo. Há um trabalho muito intenso que tem sido feito pelas associações no sentido de mobilizar as pessoas a aderir os programas de formação profissional. Em alguns casos, temos tido muita aderência e noutros não por esses factores. Alguns pensam que mais vale perder tempo nesses lugares e preferem ficar num sítio a pedir dinheiro, precário e não a frequentar um curso de formação profissional que lhes vai dar a garantia de um emprego após terminar.

ANGOP – Insistimos na pergunta. Quais as zonas com maior e menor aderência às oficinas integradas para o apoio à Pessoa com Deficiência e o que influencia nisso?

HFC: A minha resposta foi no sentido de que há épocas que temos maior aderência e há outras em que registamos menor aderência às oficinas integradas. Não é exactamente em zonas, mas em épocas.

ANGOP – Falava-se da integração sócio-profissional de 2001-2014 de cerca de 250 mil 382 pessoas com deficiência. Até a presente data, quais são os números reais?

HFC: Nessa fase, temos um bom avanço. Nós, anualmente, continuamos a constituir cooperativas sócio-profissionais nos vários ramos, desde corte e costura, serralharia, carpintaria, mecânica, recauchutagem e isso tem ajudado as pessoas na sua inserção sócio laboral, assim como também tem diminuído, de alguma maneira, o número de pessoas na rua a pedir ajuda, apesar de que temos em Luanda um fenómeno que se repete. Certo número de pessoas insiste nessa prática. Estão já identificadas as pessoas. Algumas aparecem e desaparecem, outras são encorajadas por alguns membros da família a ir para rua fazer papel de pedintes ou de mendigos, assim como algumas famílias obrigam crianças a ir fazer esse trabalho, outras obrigam mesmo pessoas adultas a ir fazer esse trabalho.

Há casos que também identificamos de pessoas que vêm de outras províncias para fazer esse trabalho, porque eu, pessoalmente, já vi pessoas a pedir na rua e têm dois, três telefones, mas fazem papel de pedintes. Quer dizer, a base dessa pessoa não é verdadeiramente a falta de oportunidades. A base não é essa, é outra. Há um trabalho que está a ser feito junto do Governo Provincial de Luanda, no sentido de identificar efectivamente essas pessoas e depois com as associações fazermos um trabalho de sensibilização, identificação das famílias, para podermos, de forma pacífica, tirá-las da rua e colocá-las em programas de formação profissional e programas de reintegração sócio-laboral.

ANGOP – Isso em Luanda e nas outras províncias?

HFC: Nas outras províncias não se assiste esse fenómeno. Eu já tive a sorte de andar por algumas províncias do país e não encontrei esse fenómeno. Aqui em Luanda existe, noutras províncias não.

ANGOP – O que gostaria que fosse feito mais em prol da pessoa portadora de deficiência no país?

HFC: Tudo o que nós estamos a fazer nesse sentido é para a regulamentação de alguns normativos jurídicos que já foram aprovados. A título de exemplo, temos a Lei 6/98 de 7 de Agosto que estabelece o subsídio da pessoa com deficiência. Esta Lei ainda não está regulamentada. Há um processo a decorrer. Já submetemos as instâncias superiores o projecto que contou também com a contribuição das associações e de outros parceiros, para definir exactamente quem com deficiência pode beneficiar desse subsídio e em que condições pode beneficiar, qual a regularidade, quais os montantes. Estamos a trabalhar, há uma proposta que já foi feita nesse momento. Estamos à espera que o processo em si termine e termos o veredicto final.

Temos também a Lei 21/12 de 30 de Junho, que é a Lei da pessoa com deficiência que estabelece a quota de dois porcento de emprego para pessoas com deficiência. Mais uma vez estamos a regulamentar essa lei, o projecto também já está bem avançado. Estamos só a terminar algumas situações que depois vão poder ser submetidas às instâncias superiores.

Com base na regulamentação desses e de outros normativos, como fiz referência, vamos fazer com que algumas questões que hoje são vistas do ponto de vista da solidariedade sejam por direito. A Lei estabelece, tem os seus regulamentos e as pessoas têm que cumprir. É isso que estamos a trabalhar, é um processo que todos gostaríamos que já tivesse sido concluído. Mas só que mesmo no trabalho de grupo que temos tido com as associações, temos reparado que eles próprios têm dificuldades de estabelecer alguns limites, barreiras. Ficamos a discutir, até encontrar meio termo leva tempo. O que nós queremos é que a regulamentação dessas leis seja inclusiva, para facilitar a vida das pessoas e não para dificultar. Queremos que esses documentos, ao serem aprovados, as pessoas possam efectivamente beneficiar sem grandes constrangimentos.

ANGOP – O Minars tem recebido queixas de portadores de deficiência que tenham sido aparentemente discriminados nos seus empregos?

HFC: Assim directamente não, porque também não há nenhum mecanismo para aferir se foi mesmo por ser pessoa com deficiência ou não! Mas temos recebido algumas inquietações. Não vamos dizer queixas, porque, na verdade, o Minars não é um órgão para receber queixas. Recebemos inquietações de alguns dos nossos parceiros relativamente ao acesso ao emprego.

Relativamente ao acesso ao emprego, por exemplo, há um senhor que uma vez disse numa das plenárias que gostaria que o Jornal de Angola publicasse também na versão braile. Isso porque algumas oportunidades de emprego são publicadas no Jornal de Angola e ele não consegue ler essa publicação, porque é cego. Porém, gostaria que o Jornal de Angola criasse esse serviço. Então, são inquietações que nos são colocadas.

Outras preocupações são os empregos em edifícios sem rampa. Há casos também de estudantes universitários que são surdos, por exemplo, e que a Universidade não tem intérprete de língua gestual. Ele quer fazer um curso de medicina, mas a Faculdade de Medicina não tem um intérprete de linguagem gestual. Essa é uma questão que também temos a responsabilidade de trabalhar com os órgãos de direito no sentido de se criar as condições, para que as pessoas com deficiência possam frequentar determinados cursos. Falo de nível igual com outros estudantes que aparentemente não tenham qualquer tipo de deficiência. São essas inquietações que nos chegam, daí temos trabalhado nos normativos para a regulamentação desses aspectos.

ANGOP – Qual tem sido o trabalho do Minars para a consciencialização das pessoas em relação a não discriminação aos portadores de deficiência?

HFC: Temos um trabalho de criar condições que facilitem quer a mobilidade, quer o acesso a determinados serviços. Temos três programas. O primeiro programa, que é um dos mais visíveis, é o “Programa de assistência social”, que consiste na atribuição de ajudas técnicas ou meios de locomoção às pessoas com deficiência. Entregamos, de forma gratuita, canadianas, muletas, triciclos manuais, guias para cegos e cadeiras de rodas. Já tivemos um programa de atribuição de triciclos motorizados para a construção de cooperativas de moto-taxi, mas agora estamos mais direccionados à atribuição de triciclos motorizados. À medida que os recursos vão permitindo, vamos entregando triciclos motorizados aos estudantes universitários. Essa é uma forma de facilitar o acesso e também fazer com que não haja discriminação.

Temos ainda o “Programa Geração Trabalho e Renda”, que consiste na criação de oportunidade de formação e emprego a pessoas com deficiência. Logo que tenham uma formação técnica, recebem kits profissionais e com base nos quais podem criar cooperativas ou podem concorrer a outros empregos. Essa também é uma das formas de eliminar a discriminação. Outro programa, que é o menos visível mas que tem ajudado muita gente, é a “Reabilitação com base na comunidade”. Esse programa consiste no encaminhamento de pessoas com deficiência e não só, pessoas vulneráveis, no geral, aos serviços especializados de saúde, educação, formação profissional e de emprego. Felizmente, temos contado com a boa colaboração das entidades empregadoras.

As pessoas têm encontrado o seu primeiro emprego e são muitos a nível nacional. Temos também o caso de pessoas que são inscritas a nível das instituições de ensino, quer regular, quer superior. Temos muitos jovens que têm conseguido, por nosso intermédio, por via de uma carta de recomendação que nós, a nível do Ministério, enviamos e que as direcções provinciais elaboram conseguem acesso a bolsas de estudo internas. Quer dizer, é muito trabalho que fizemos sem muita visibilidade, porém tem encontrado grande impacto na vida das pessoas e muita resposta positiva da parte das entidades empregadoras, do ensino, da saúde e de outros sectores.

ANGOP – Qual é a faixa etária com maior índice de portadores de deficiência?

HFC: Temos, de acordo com a Lei e daquilo que temos estado a apreciar, deficiência motora. Fruto do clima de guerra que se viveu, havia muitos jovens que voltavam das frentes de combate mutilados e havia outro grupo que fruto da irregularidade de vacinas muitas crianças contraíram poliomielite, porque o país naquela altura estava dirigido à defesa nacional. Esse grupo felizmente começa a diminuir. Já não temos casos de pólio em Angola há vários anos. A guerra felizmente acabou, já não temos amputações por razões da guerra. Já não temos casos de accionamento de minas, felizmente, porque o país está a ser desminado e as zonas de minas estão devidamente marcadas e fruto disso as pessoas evitam essas áreas. Isso já está resolvido. O que temos estado a receber agora são casos de acidentes e, infelizmente, digo isso com tristeza – a maior parte dos envolvidos nos acidentes são jovens. Se por um lado temos jovens envolvidos em acidentes, por outro temos pessoas com uma certa idade, os idosos, que têm problemas de AVC (Acidentes Cárdio Vasculares). Temos nessa condição não só idosos, mas também jovens com idades que rondam os 40 anos.

Além desses dois grupos de pessoas (jovens e idosos) temos crianças que nascem com deformação congénita. Temos muitos casos de género a nível nacional. Temos muitos casos também de crianças altistas. Atento a essa situação, o Executivo fez aprovar o ano passado o Decreto 07/14 de 15 de Agosto que consiste numa estratégia nacional de inclusão de criança com deficiência. Existem vários departamentos ministeriais chamados a intervir nessas acções. Todas as crianças estão inseridas numa família, temos o caso do Ministério da Saúde, porque essas crianças precisam de um atendimento prioritário e privilegiado, em primeiro lugar, sobretudo em diagnóstico. Muitos pais são obrigados a sair do país com as crianças para fazer diagnóstico, para saber que tipo de patologia a criança tem. Para acudir isso, temos o Ministério da Saúde.

Temos o Ministério da Educação, porque as crianças estão inseridas no sistema normal de ensino e nalguns casos as crianças vão ser transferidas para o sistema especial, o Ministério da Assistência e Reinserção Social, com vista a assegurar aspectos colaterais de apoio técnico de sensibilização, mobilização não só a nível social, mas também de recursos para uma melhor intervenção nessa área, o Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, por causa de questões que têm a ver com a atribuição de subsídios e também para ver a questão da ausência dos pais nos locais de trabalho. Um pai com uma criança altista ou outro tipo de patologia precisa, se for um funcionário, durante a semana de algum tempo, alguns dias para se dedicar ao filho para levá-lo à escola, consulta ou para cuidá-lo quando está em casa.

Temos estado a estudar para vermos como é que vamos fazer, este ano, para juntos defender a melhor estratégia para as nossas crianças.

ANGOP – Falou da existência de muitos casos de crianças com má formação congénita. Pode avançar números?

HFC: Números, provavelmente o Ministério da Saúde poderá ter. Temos o Ministério da Educação, que é nosso parceiro, que avança a existência, no país, de 200 famílias com crianças altistas a nível nacional controladas por esse organismo.

ANGOP – Qual é a resposta entre o Minars e as Associações que lidam com pessoas com deficiência?

HFC: Temos uma parceria privilegiada com essas associações. Por exemplo, com Silva Lopes Etiambulo, o presidente da FAPED. Temos trabalhado sempre juntos. Todos documentos que preparamos em prol da pessoa com deficiência, trabalhamos sempre com a colaboração das associações. Mesmo para a elaboração do lema em saudação ao dia nacional da Pessoa com Deficiência, 10 de Dezembro, cotamos sempre com a colaboração das associações. Com as associações, felizmente temos tido uma boa parceria. Podemos nos dar felizes por ter os parceiros que temos e contamos continuar a colaborar na mesma linha na base do respeito, entendimento e colaboração.

ANGOP – Como encara a falta de elevadores em transportes públicos e rampas em alguns edifícios?

HFC: É uma dificuldade e grande constrangimento para as pessoas com deficiência, a falta de elevadores em transportes públicos, assim como a falta de rampas em alguns edifícios. A falta de elevadores em transportes públicos é um assunto que já foi abordado numa das plenárias e o Ministério dos Transportes garante haver um projecto de aquisição de alguns autocarros com essa valência.

ANGOP – Em que momento deixou de olhar a questão da pessoa com deficiência não como solidariedade?

HFC: De 2000-2002 até a data, altura em tivemos o processo da paz e partir dessa altura em que começamos a olhar para questões sociais mais com uma visão de direito e não com uma visão de solidariedade. A partir desse momento, foram elaborados vários normativos jurídicos, desenvolvidos vários programas sociais, várias estratégias de intervenção em prol da pessoa com deficiência. É verdade que de lá para cá evoluímos muito. Para quem acompanhou a situação, sobretudo da cidade de Luanda, em 2000 ou antes desse período, havia pessoas com deficiência que estavam concentradas nas principais ruas, centros de aglomeração de pessoas (ex-Largo 1º de Maio, mercados informais e outros).

Esse número de pessoas com deficiência diminuiu consideravelmente. Muitos foram inseridos no mercado de emprego. Actualmente já não se nota muitas pessoas nessa condição. Muitas delas conseguiram ter uma formação académica ou profissional e estão inseridas. Existem associações que com o nosso apoio e de parceiros internacionais conseguiram superar-se. Conseguiram fazer formação dos seus quadros do ponto de vista de liderança. Do ponto de vista de elaboração de projectos, são essas pessoas com quem contamos na elaboração de projectos para ajudar a levar adiante aquilo que é a estratégia do Executivo. Continuamos a dizer que existem várias oportunidades a nível nacional, quer na área de formação, quer na área do emprego, apoio social. Pelo país, temos as direcções provinciais onde as pessoas podem se dirigir para colher informações sobre o tipo de programas e oportunidades existentes. Existem também as associações que têm levado um conjunto de acções, não só aquelas que beneficiam do Orçamento do Estado, mas outras que não beneficiam do OGE também têm levado acções de sensibilização social de pessoas com deficiência.

O Estado está presente por via dos governos provinciais, do Minars ou outros departamentos ministeriais que podem apoiar as pessoas. Isto é, estão disponíveis para dar respostas em função das necessidades. Assim sendo, temos que continuar a colaborar todos juntos para ver se podemos dar cada vez mais dignidade a essas pessoas com deficiência no país. (portalangopo.co.ao)

por Serafim Canhanga e Liliana Constantino

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