É assim o rosto da mulher que Lenine mais amou

Apollinaria Iakubova numa fotografia que faria parte da sua ficha de identificação no campo de detenção na Sibéria, para onde foi enviada devido à sua actividade política (Arquivos Estatais da Federação Russa)
Apollinaria Iakubova numa fotografia que faria parte da sua ficha de identificação no campo de detenção na Sibéria, para onde foi enviada devido à sua actividade política (Arquivos Estatais da Federação Russa)
Apollinaria Iakubova numa fotografia que faria parte da sua ficha de identificação no campo de detenção na Sibéria, para onde foi enviada devido à sua actividade política
(Arquivos Estatais da Federação Russa)

Foram precisos quase 100 anos para que um historiador encontrasse uma fotografia de Apollinaria Iakubova, a jovem revolucionária que recusou casar-se com o líder comunista.

Vladimir Lenine chamava-lhe Lirochka. Diziam os seus colaboradores mais próximos que a jovem revolucionária foi o seu verdadeiro amor, mesmo tendo recusado a sua proposta de casamento. Trocaram muitas cartas, participaram em reuniões políticas e tiveram acesos debates ideológicos – por escrito e de viva voz –, garantem os historiadores, mas até aqui ninguém conhecia o rosto desta mulher.

Agora, graça ao trabalho de pesquisa de Robert Henderson, especialista em História da Rússia da Universidade Queen Mary de Londres, Apollinaria Iakubova chega até nós numa fotografia a sépia, tirada quando esteve confinada a um campo na Sibéria devido à sua actividade política. Um retrato que, segundo este professor universitário, confirma os relatos da época que a dão como uma mulher bonita e serena, mas firme.

A fotografia foi descoberta em Abril, nos Arquivos Estatais da Federação Russa, em Moscovo, quando Henderson fazia pesquisa sobre um outro revolucionário, Vladimir Burtsev, para um novo livro, escreve o diário britânico The Guardian. Estava guardada entre cartas e outros documentos atados por um fio. “Não há dúvida que é ela porque há um texto manuscrito no verso da fotografia que assim o indica”, disse o historiador ao espanhol El Mundo. “Como muitos outros revolucionários cujos nomes foram apagados da história do movimento russo, Apollinaria merece o reconhecimento que até aqui lhe tem sido negado”, acrescentou o académico na primeira notícia a dar conta desta descoberta, publicada no início da semana passada no Camden New Journal, um semanário gratuito distribuído em Camden, um bairro do norte de Londres onde, por acaso, Apollinaria morou quando esteve refugiada na cidade.

Lembra o Guardian que a jovem russa chegou a Londres depois de fugir do campo de detenção siberiano. Tinha 27 anos e cedo começou a organizar concorridos debates sobre a doutrina comunista no East End, em que participavam operários russos exilados na cidade, integrando ainda um grupo mais restrito que se reunia em Whitechapel para falar de política.

“Foi um prazer inesperado dar com esta fotografia”, reconheceu Henderson. “Depois de 100 anos, o mistério que envolvia a sua imagem foi resolvido. Esta é uma das alegrias da pesquisa em arquivo – grande parte dela é só trabalho árduo.”

Um triângulo revolucionário
Vladimir Ilich Lenine (1870-1924) e Apollinaria Iakubova conheceram-se por volta de 1890 em São Petersburgo. Seria a futura mulher do líder bolchevique a fazer as apresentações. Nadejda Krupskaia e Apollinaria davam ambas aulas a operários e eram amigas.

Filha de um sacerdote, a jovem revolucionária fez estudos de Matemática e Física em São Petersburgo e cedo começou a dedicar-se à política com grande empenho. Lenine apaixonou-se por ela ao ponto de a pedir em casamento, e se alguma vez recuperou da rejeição de Apollinaria, isso ainda é tema de debate entre os historiadores. Seria o editor Konstantin Taktharev a conquistá-la, e os dois casais – Lenine e Nadejda casaram em Julho de 1898 – cruzar-se-iam muitas vezes em Londres.

Lenine teve o apoio e a lealdade de Nadejda até ao fim da vida, mas nunca deixou de ter relações extraconjugais, lembram os seus biógrafos. Apollinaria, com quem continuou a trocar cartas mesmo depois de ela ter regressado à Rússia com o marido, em 1908, não foi a única. A Nadejda referia-se como “amiga, camarada e irmã”, nunca como mulher no sentido de amante. Foi ela o braço direito do líder nas suas actividades revolucionárias e, talvez por isso, o casal se tenha mantido unido mesmo quando o político se envolveu com Inessa Armand, uma mulher descrita como atraente e apaixonante, que conheceu em Paris, em 1909.

Inessa, escritora, parecia ter a mesma tendência que Lenine para a infidelidade. Filha de um casal ligado ao teatro e à ópera, educada na Rússia e casada com um empresário, conhecem-se-lhe várias ligações, inclusive com um cunhado. Ideologicamente, Lenine estava mais próximo de Inessa do que de Apollinaria, e, sexulamente, sentia-se muito mais atraído por qualquer uma delas do que pela sua própria mulher, que muitos definem apenas como uma colaboradora do líder (as irmãs de Lenine chegam mesmo a dizer que Nadejda era assexuada e que, enquanto homem, Lenine nunca lhe interessou).

Uma “força primitiva”
As mulheres eram uma constante na vida de Lenine, e não só no seu círculo de colaboradores. Na juventude gastava parte da mesada que recebia da mãe em sexo e há mesmo quem defenda, como a historiadora Helen Rappaport, autora de Conspirator: Lenin in Exile, que foi a sífilis, contraída com uma das muitas prostitutas que visitava em Paris, a causa de morte do fundador da União Soviética. Mas de todas as mulheres, Apollinaria terá sido a preferida. Talvez pelo seu poder de sedução, ou pelo poder de sedução das suas convicções. (publico.pt)

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