E agora pergunto eu…

GERALDA EMBALÓ Directora adjunta Nova Gazeta (Foto: D.R.)
GERALDA EMBALÓ
Directora adjunta Nova Gazeta
(Foto: D.R.)

No final da semana passada, o meu primo, com quem havia combinado um almoço, ligou a cancelar a combina. Quase em lágrimas contou que na noite anterior, ele e os colegas de trabalho com quem divide renda em Viana, foram vítimas de um violento assalto à mão armada de AKA’s cortadas e catanas, levado a cabo por três jovens tão novos quanto 16 anos, que os torturaram com tanta pancada quanto fisicamente lhes foi possível disferir durante três horas.

Não satisfeitos com as coronhadas, pontapés, murros e catanadas, violaram, perante os seus olhos impotentes, a menina que cuidava da casa, enquanto um se ocupava de levantar dos cartões de banco todo o dinheiro possível.

Nada de novo, lembro-me de ouvir falar há uns tempos de um caso em que os assaltantes se instalaram confortavelmente um dia inteiro na casa de uma família, roubaram tudo, violaram as duas meninas na presença dos pais, que espancaram, sentaram-se para comer o funge e ainda se queixaram de que “num tava bom, tinha muito óleo”.

O conselho da polícia quando o meu primo e os outros foram dar queixa foi “esta zona de Viana está um caldeirão com muitos assaltos, aconselhamos a mudarem-se para uma zona mais segura”.

Durante o fim-de-semana, a minha afilhada, que depois de 17 anos de amizade, adoro mais que muita família, foi assaltada com o marido por sete jovenzinhos (provavelmente com menos idade que a nossa amizade), também eles empunhando armas automáticas que não se coibiram de encostar às testas das vítimas. Desta feita em plena ilha de Luanda, um dos muito poucos cartões-de-visita da capital. O conselho da polícia, aquando da queixa, foi “não devem andar de noite na ilha é perigoso”…

Já no início da semana, a senhora que nos cuida da casa contava que o seu primo fora assaltado com o mesmo tipo de armas automáticas cortadas (para maior impacto e para caberem em pequenas mochilas), desta vez, num candongueiro.

Os jovens entraram e ‘pentearam’ toda a gente que ali ia a caminho de mais um dia de trabalho. Pergunto-me se o conselho dado normalmente pela polícia lhes seria extensivo, talvez qualquer coisa como “evitem andar de candongueiro que está perigoso”.

A primeira reacção das vítimas, particularmente quando se trata de assaltos com direito a violência e abusos, é, não apenas seguir o conselho perene da polícia, mas ir mais longe e ponderar mesmo, se possível, deixar o país.

Mas aqui as palavras-chave são ‘se possível’, porque a verdade é que para milhões de angolanos sujeitos a assaltos e todo o tipo de violência e sevícias às mãos de criminosos, não é de todo possível. Viana tem mais de 1,5 milhões de habitantes a quem ‘não é possível’ simplesmente evitar a zona perigosa onde vivem. A ilha é dos poucos locais da cidade onde se pode ir respirar um ar de maresia enquanto se desfruta da vista e dos restaurantes.

Que dizer dos candongueiros, é impossível passar sem eles para evitar ser assaltado.
A solução não pode passar por seguir estes conselhos que se dá às vítimas à falta de coisa melhor. Não apenas porque podem não ter condições de o seguir, mas essencialmente porque existirão sempre milhões que não o poderão fazer e que também merecem paz sem medo de assaltos ou violência.

A insegurança, em que vive a grande maioria dos bairros da cidade, é insustentável. E a polícia, por mais que se desdobre, não consegue por si só dar resposta à altura.É necessária uma abordagem compreensiva, que estude a tipologia da nossa criminalidade, os perfis dos nossos criminosos e que consiga delinear estratégias de Estado articuladas entre diferentes órgãos públicos que possam num futuro próximo, de facto, combater a criminalidade de forma efectiva em vez de ‘tentar parar o fluxo da barragem com a mão’. É preciso olhar para experiências internacionais para perceber paralelos e respostas possíveis.

Estes assaltos são cometidos por jovens cada vez mais novos e que não se coíbem de matar as vítimas. Só jovens formados nas ruas, expostos e habituados também eles a todo o tipo de violência, desenvolvem a insensibilidade necessária para espancar outros seres humanos por três horas. É preciso identificar o que têm em comum os nossos criminosos, tratar os focos e sobretudo prevenir que mais se formem.

A correlação, entre a criminalidade e os bandos de crianças que crescem nas ruas entregues à sua própria sorte, é evidente e as abordagens do tipo “eles criminosos” como oposição a “nós pessoas de bem” não chegam para isolar os ditos bandidos e não surtem qualquer efeito.

As cadeias não chegam para os conter como conta esta semana, no seu NG, o próprio director dos Serviços Prisionais e tão pouco o facto de se circular por zonas mais seguras é garante de segurança, porque o criminoso vai onde encontra vítimas.

Ninguém está totalmente protegido. Eles e a violência que arrastam têm sempre como chegar perto e tocar pelo menos um amigo, um familiar, alguém próximo. E agora pergunto eu, será que quem governa se dá conta do que se passa fora do seu círculo de segurança?

Será que muros, guardas e afins são suficientes para protecção absoluta sua e dos seus? De que vale construir pequenos oásis de luxo se têm de estar enjaulados para tentar manter a criminalidade longe? (novagazeta.co.ao)

2 COMENTÁRIOS

  1. Temos que começar na mudança dos nosso próprio comportamento, por exemplo: deixar de fazer compras nas ruas, porque muitos produtos aí vendidos são roubados, usem de preferencia lojas legalizadas, não serem muito ostensivos, principalmente na área da sua residência. Quando desconfiar da frequência de jovens estranhos de dia ao redor da sua casa, comunique logo PN. Fique atento as actividades diárias dos filhos dos vizinhos, de vez em quando conversando com eles para os conhecer e saber quem são os seus amigos. Isto não e tudo naturalmente. O comentarista vive em Viana a mais de dez anos e nunca fui assaltado.

  2. A periferia de Luanda está possuida pelos melhantes. Todos os dias há informações infelizes nos Bairros. Há mortes a lamentar, e o MPLA se não tomar medidas sérias contra a bandidagem, vai perder o eleitorado. Qual pode ser a solução?

    1. O Cda. Secretário do MPLA para a Periferia deveria agir, empregando os valores monetários que detém para o fomento do emprego, abrindo Oficinas mecânicas, Serralharias e outros para asorver os jovens sem ocupação.
    2. Já que os melhantes utilizam viaturas Hiaces que alugam para os assaltos à mão armada, o Governo deveria permitir que este tipo de viaturas viajasse também em toda extensão do território nacional. Assim estaria-se a desafogar Luanda com enchente de Hiaces e jovens sem ocupação.
    3. A Polícia Nacional deveria instalar Esquadras Móveis em áreas de incidencia criminal.
    4. Refrescar o Comando Geral da Polícia Nacional com Comandante mais activo e enérgico, porque o actual já deu a sua quota parte e deve descansar.
    5. Tomar em consideração as minhas prpostas, porque senão o MPLA vai estar desacreditado, por haver muitas lamentações de ponto de vista segurança.

    CDA. MINISTRO DO INTERIOR, MÃOS A OBRA.

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