BRINCANTAR, poemas de viver

(Foto: D.R.)

 

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I estrofe

“A festa principal do jazz no mundo é aqui no Epic Sana”, assegurou Jerónimo Belo, um jazzista compulsivo que, a cada ano, nos dá, numa bandeja metafísica, o som (e o tempo) desse estilo musical que representa “a força para unir pessoas e à qual se juntam os contributos de todos os países”, como o considera a UNESCO, a propósito do Dia Internacional do Jazz, o 30 de Abril.

Realmente, aquela noctívaga quintafeira de final de Abril luandino, com uma certa nostalgia do Cacimbo e a correspondente mística do poema concreto de viver a pairar no ar, a festa mundial do jazz uniu músicos de Angola, Cuba e Israel e cidadãos de várias bandeiras, num estado pio de catarse colectiva perante o toque e o estoque de magia dos dois concertos aos quais a ministra Rosa Cruz e Silva juntou o seu ouvido oficioso de mecenas.

No primeiro acto, abriu o pano o baixo de N’Sheriff, a configurar as longitudes míticas da harmonia. ATÉ JAZZ. Com Terinho Mumbanda e o seu chapéu quimérico a namorar o lábio ritualístico nos teclados. Naná Vieira Dias na percussão e bateria a marcar o compasso daquele quarteto, ou bando (banda) de pássaros com asas no interior de cada veia capilar, enquanto o israelita Illic Kuchner saxofonava o peixe iónico que (in)existe na biomemória.

A emoldurar a pintura das ondas sonoras, renasce no palco Diana Debrito (19 anos, cresceu em Manchester, primeira vez em Angola), uma menina voz saxónica, tecnicamente apurada, suavíssima respiração do ventre até à ponta dos dedos que teciam flores por entre as fábulas dançantes na atmosfera diáfana do palco.

Da coreografia singular de Diana nasceu a romagem da deusa Melodia a correr na palma das mãos do Mundo. Lume iniciático, faúlha azul de pedra de burgau beijada por outra pedra de burgau. Materiais de construção da virtuosa voz de algodão levada pela brisa.

A ministra da Cultura, Rosa da Cruz e Silva e esposo. (Foto: D.R.)
A ministra da Cultura, Rosa da Cruz e Silva e esposo.
(Foto: D.R.)

II estrofe

O pano da voz de Jejé Belo subiu e abriu o palco para a outra surpresa da noite.

Irina Vasconcelos esculpiu a tessitura do canto ferindo as luzes do palco com a felina foice do vestido, o corte de cabelo à jamaicana Grace Jones e a irreverente gravata enrolada ao pescoço nu. Irina sabe brincantar poemas de viver. Recompor a letra do poema vida.

O ser e o sentir da carne musical.

Aos 30 anos, com dois projectos artísticos (Café Negro de rock e esta viragem (voragem) para os mistérios da

terra). Na composição deste grupo, a bateria de Dilson Santos não dói, esvoaça qual incauto colibri na floração

do jazz-semba. O virtuosismo do cubano Enrique Cupull, no violoncello electrónico, é como uma novela de amor de perdição. É de partir o coração.

E o saxofone soprano de Bix a doirar os ecos da saudade de Lurdes Van-Dúnem recantada pela jovem Irina.

Voz que desenrola pergaminhos de genes cintilantes de estrelas vocais.

Um pouco do grito silencioso de Tracy Chapman. Belina, de Artur Nunes, apenas em modo experimental, deve ser reciclada sempre em kimbundo, visto que não soa lá nada bem na língua de Shakespeare.

A noite desfilava alta e abrupta como o corte do cabelo de Grace Jones. E com ela, o Dia Internacional do Jazz,

comemorado em Luanda, no calor da terra de onde partiu, há séculos, o virus bantu que infectou o piano de Herbie Hancock. (cultura.ao)

Por: José Luís Mendonça

 

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