Água do canal do Kikuxi roubada de todas as formas

(Foto: Paulo Mulaza)
(Foto: Paulo Mulaza)
(Foto: Paulo Mulaza)

O canal construído pela Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL) entre o rio Cuanza, em Calumbo, e a estação de tratamento do Kikuxi, em Viana, está a ser usado para regar estufas de plantas decorativas.

O uso da água do canal é feito sem  o consentimento da EPAL, mas a verdade é que a produção de plantas gera empregos e rendimentos para centenas de trabalhadores e respectivas famílias. Ao longo do canal são visíveis os tubos através dos quais a água é roubada. Além das estufas, há quem se dedique à lavagem de carros. As mulheres lavam a roupa e as crianças mergulham descontraidamente no canal.Para muitos, o canal funciona como um rio, com pouca corrente e sem grande profundidade. A conduta, além de transportar grande parte de água consumida na capital, transformou-se agora numa fonte geradora de negócios para muitas famílias. Mas, em paralelo, é o fim para muitas crianças, que aí morrem afogadas.
As estufas existentes nas duas margens do canal transformaram aquele espaço num mercado de plantas decorativas. A produção e comercialização das plantas garantem o sustento de muitas famílias.

Outro negócio que vai de vento em popa é o roubo da água. Os “garimpeiros” todos os dias enchem as cisternas no Canal do Kukixi. E vendem o produto ao preço de ouro. O “negócio” está lá, às claras, sem que ninguém atrapalhe os ladrões de água.
Além da água transportada pelos “garimpeiros”, uma grande quantidade é extraída de forma descontrolada por negociantes e donos de quintas situadas nos arredores do canal com o uso de moto-bombas.

Um verdadeiro rio

Rosa David, filha da dona de uma estufa, disse à reportagem do Jornal de Angola que “o canal do Kukixi é um lugar para tudo”. Nenhuma entidade interpela ou cobra impostos sobre a actividade comercial, acrescentou. “Nós estamos bem e cuidamos do canal que, para mim, é como um rio”, explicou Rosa David, que lavava a roupa numa tábua de madeira.
“Nas nossas casas não temos água nem reservatórios”, continuou. A água do canal, embora turva, é usada para beber, lavar a roupa, tomar banho e confeccionar alimentos.

Armilheira Samba, um dos vários meninos que tomavam banho no canal, disse que fazem falta espaços de recreio e lazer no bairro. “Não há outro lugar para tomar banho. Quando está muito calor, eu e os meus amigos tomamos sempre banho no canal”, afirmou. Para as crianças, o canal é como uma piscina.

Negócio florido

Rosa Carlos, proprietária de uma estufa, trata de plantas há três anos. Disse ao Jornal de Angola que produz e vende flores para arranjos, vasos, plantas de jardim e árvores para transplante, como eucaliptos, coqueiros e acácias.
A venda de plantas é o sustento da família de Rosa. “Quero que o futuro dos meus filhos não seja difícil como o meu”, sublinhou. “Sabemos que a qualquer momento vamos sair daqui”, reconheceu. Um dia o roubo e “desvio” da água do Canal do Kukixi vai ter fim. A EPAL não pode continuar de olhos fechados, como se fosse normal o que se está a passar, mesmo em termos de saúde pública.

Por enquanto, os técnicos da EPAL e os agentes da Ordem Pública não intervêm na actividade. Fazem-no apenas em relação à lavagem de carros e às crianças que tomam banho no canal. Tudo o resto é tolerado.

Fonte de rendimentos

Natural da Huíla, Clementina Chilombo, vive em Luanda há cinco anos. Ajuda a tia na venda de plantas. “Trabalho aqui há dois anos e já consigo sustentar a minha família”, afirmou. “Quando cheguei a Luanda, não trabalhava e vivia em casa da minha irmã mais velha. Foi a minha tia quem teve a ideia de cultivar e vender plantas decorativas”, contou.  Afonso André compra plantas decorativas no Canal do Kukixi e revende-as no Golfe II. Disse que, com o negócio, juntou dinheiro suficiente para adquirir um terreno no Bita Tanque. Antigo cobrador de táxis, sente-se feliz com a actual actividade. A degradação acentuada da via, com muitos buracos, lama e água em alguns pontos, é ainda agravada pelo facto de existirem ao longo do canal “girafas” que abastecem de água centenas de camiões cisternas. Há mais de três meses que a situação se verifica.
Eulália Susana, moradora na zona do Kukixi há vários anos, solicitou o apoio das autoridades para recuperação definitiva da via, uma vez que são obrigados a andar vários quilómetros a pé, pois, devido à degradação da estrada, tanto viaturas  ligeiras como moto-taxistas deixaram de circular naquela zona.

Caderno reivindicativo

“A estrada está toda esburacada e só grandes jipes ou camiões conseguem passar, por enquanto. Mas basta chover e ninguém anda, temos de ir a pé até ao Zango ou à Via Expresso, a mais de três quilómetros”, referiu Eulália Susana. Os que  usam ilegalmente o Canal do Kukixi, sobretudo os “garimpeiros” das cisternas, exigem que as autoridades facilitem o roubo da água.
Querem uma estrada em condições. A estrada é de terra batida e percorre o perímetro irrigado do Kikuxi. Pode servir de alternativa para ligar a Via Expresso ao rio Cuanza, numa extensão de mais de cinco quilómetros. Mas também facilita o caos à volta de um canal que abastece Luanda de água potável.

Existem ao longo do canal vários empreendimentos hoteleiros, que se dizem prejudicados pelo mau estado da via. Pedro Santos, gerente da Quinta do Canal, disse que a estrada fica instransitável no período chuvoso. “Estamos a pensar em convocar os proprietários dos vários estabelecimentos para resolvermos o problema em conjunto”, realçou. De ilegalidade em construções clandestinas se constrói o caos urbanístico.  (jornaldeangola.com)

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