África – três narrativas

VICENTE PINTO DE ANDRADE Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
VICENTE PINTO DE ANDRADE Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
VICENTE PINTO DE ANDRADE
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

Há três narrativas em África e sobre África, que podem ser encontradas, não só nos registos da comunicação social contemporânea, mas também na literatura política e económica: uma narrativa de progresso, uma narrativa do desastre e uma narrativa prismática.

A narrativa do desastre prevaleceu durante as décadas de 80 e 90 do século passado. A narrativa do desastre assenta na longa história de instabilidade política, erosão do Estado, abusos grosseiros dos poderes públicos, catástrofes humanas, no meio de histórias de avanços económicos notáveis.

Depois dessas duas décadas, surgiu uma nova narrativa: a narrativa do progresso, que tem sublinhado o crescimento económico, a redução da pobreza e os ganhos sociais, que são visíveis em cerca de um quarto dos 55 países do nosso continente. A narrativa do progresso está claramente argumentada em dois livros publicados em 2010: Africa Rising, da autoria de Vijay Rahajan, e Emerging Africa, de Steven Radelet.

A narrativa do desastre foi recentemente reforçada por Jeffrey Gettleman, quando dizia no New York Times: «Muitas partes de África estão claramente a afundar-se, cada vez mais, na violência, no caos e na obscuridade».

Esta narrativa pessimista está a ser, novamente, alimentada pelos surtos de violência e terrorismo que se têm localizado em países como o Egipto, a Líbia, o Mali, o Sudão do Sul, a República Centro-Africana e, ultimamente, a Nigéria e o Quénia.

Contudo, essa narrativa pessimista não consegue sobrepor-se à onda de optimismo que existe em relação ao continente africano. O African Economic Outlook 2014, produzido anualmente pelo Banco Africano de Desenvolvimento, o Centro de Desenvolvimento da OCDE e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, mostra que a África resistiu bem aos choques internos e externos e está na rota de taxas de crescimento económico «saudáveis».

Em 2014, África terá registado uma taxa de crescimento de 4,8% e, para 2015, prevê-se uma taxa entre 5% e 6%. O relatório argumenta que o crescimento económico de África tem uma base mais alargada, animado pela procura interna, pelas infra-estruturas e pelo aumento do comércio continental de bens manufacturados.

Já a narrativa prismática requer a avaliação dos desenvolvimentos africanos através do prisma de como as dimensões-chave se inter-relacionam e a complexa interacção entre factores locais, regionais e globais. Por exemplo, no Quénia, o grupo Al-Shabbab, através de acções terroristas, tem procurado fragmentar a narrativa prismática de crescimento, democracia e segurança.

A questão crítica que se coloca hoje em África é saber se o despertar representa um acontecimento passageiro ou se é um arranque económico. É inegável que muitos países africanos estão a registar um crescimento económico real e uma melhoria nos seus índices sociais. Contudo, um terço dos mais de mil milhões de africanos tem uma idade inferior a 21 anos e, para além de não estar escolarizada, muita desta população não tem formação profissional, não tem empregos e não tem saídas para o futuro.

A África necessita de um crescimento que, não só tenha uma taxa igual ou superior a 7%, mas também que seja gerador de emprego. Precisamos de mais uma geração para fazer pender os pratos da balança para a narrativa do progresso. Só assim é que a transformação de África será consolidada. (sol.co.ao)

Por: Vicente Pinto de Andrade, Professor universitário, economista e sociólogo

 

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