África: Longo caminho

(Foto: D.R.)
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Cinquenta e dois anos depois da fundação da Organização de Unidade Africana (OUA), actual União Africana, o continente registou progressos assinaláveis, o maior de todos acabar de vez com o colonialismo, dando aos povos o direito de escolherem livremente o seu caminho.

A União Africana (UA), fundada em 2002, é a sucessora natural da Organização da Unidade Africana (OUA), esta última responsável pela fixação do 25 de Maio como data para comemorar o Dia de África.

A UA é essencialmente uma instituição vocacionada para ajudar à promoção da democracia, dos direitos humanos e ao desenvolvimento económico, sobretudo através da captação de investimento estrangeiro para ser aplicado no progresso dos seus 54 estados membros.

Longe parecem ir os tempos da fundação da OUA por 32 estados independentes do continente, no distante 25 de Maio de 1963, em Adis Abeba. Reuniram-se sob o olhar dos seus primeiros responsáveis: o imperador Hailé Selassié, da Etiópia – considerado o principal impulsionador do projecto –, Gamal Nasser, do Egipto, e Kwame Nkrumah, do Gana.

Entre os objectivos da OUA estava a erradicação de todas as formas de colonialismo no continente e a defesa da soberania, integridade territorial e independência dos estados africanos.

Passados 52 anos, o colonialismo está definitivamente erradicado do continente e dos 32 fundadores da OUA, passou-se para os actuais 54 na UA. Os efeitos do domínio colonial, contudo, fazem-se ainda sentir, pesadamente, sobre uma esmagadora maioria dos mais de mil milhões de africanos.

Difíceis condições de vida

O acesso generalizado à educação, saúde, água potável e electricidade está muito longe de atingir os parâmetros dos países mais desenvolvidos. Uma grande parte da população africana vive com menos de dois dólares por dia; e 70% continuam a viver e trabalhar nos campos, sobretudo mulheres, com base em processos ancestrais que não conseguem quebrar o ciclo de pobreza. Isto num continente que detém 60% das terras aráveis do planeta, mas onde a agricultura vale em média menos de 10% do PIB.

Cerca de 400 milhões de africanos continuam sem ter acesso a água potável. Esta é também apontada como uma das causas para a prevalência de uma série de doenças. A falta de água potável tem como consequência que mais de 70% das camas dos hospitais em África estejam ocupadas por pessoas que sofrem de doenças evitáveis, relacionadas com a qualidade do precioso líquido e com o saneamento.

A malária continua a ser a principal causa de morte no continente. Todavia, nos últimos 12 anos o número de mortos anuais pela picada do mosquito baixou de mais de um milhão para menos de 500 mil. Um progresso assinalável, mas a doença continua a preocupar e mobilizar governos e instituições de saúde.

Na educação, a escolaridade entre as crianças subiu de 39% para 50% nos últimos 15 anos. Todavia, a qualidade do ensino continua a ser considerada baixa, com poucos professores e muitos alunos em salas de más condições, quando as têm.

Hoje há cerca de 130 milhões de alunos matriculados no ensino superior, um crescimento na ordem dos 50% em quatro anos. Isto num continente em que 75% da população é jovem, com menos de 35 anos. No ranking mundial de 500 universidades, apenas dois países da UA conseguem colocar universidades: a África do Sul com quatro e o Egipto com uma.

O acesso à ciência e às tecnologias para catapultar o continente para outros níveis de desenvolvimento e bem estar também continua a ser ainda residual.

Fonte de matérias-primas

África, segundo estudos recentes, é a segunda região do planeta onde mais se faz sentir o investimento directo estrangeiro.

Mas o continente ainda é visto (e vive) mais como fornecedor de bens (matérias-primas) do que como base para exportação de produtos transformados. Os conflitos étnicos, religiosos e de base ideológica, que atingiram de forma transversal quase toda a África ao longo dos últimos 100 anos, muito contribuíram para impedir um desenvolvimento integrado e harmonioso entre nações e povos.

A falta de infra-estruturas – designadamente boas redes de transportes e distribuição de água e electricidade – e os custos elevados para a respectiva edificação, têm impedido um crescimento mais rápido.

Por outro lado, fruto de alguns erros estratégicos de governantes, muitas economias de África desenvolveram-se na base da venda de matérias-primas, cuidando pouco da diversificação das respectivas economias. Hoje em dia, esse é uma das principais preocupações das novas gerações de dirigentes.

A caminho da estabilidade

Nos últimos anos, com a gradual aceitação dos princípios democráticos, uma esmagadora maioria dos países vive sobre o signo de eleições, de um modo geral classificadas como livres e justas pelas diversas instâncias internacionais.

Esta estabilidade institucional não é alheia à atenção que outros estados vêm dando a África. A agricultura, o sector mineiro e os recursos energéticos são as grandes mais-valias do continente africano e cativam cada vez mais investimento. Entre os países que mais investem no continente estão a China – com um ambicioso programa de financiamento a troco de matérias-primas, em especial o petróleo –, Estados Unidos, Reino Unido, França, Portugal, Japão, Espanha e Índia.

E outro factor que deixa o mundo inteiro de olhos postos em África é a sua riqueza natural, com paisagens naturais e vida selvagem de tirar o fôlego, de Norte a Sul, na costa ou no interior. O potencial turístico do continente é tão grande como as principais matérias-primas.

O_caminho, como se diz, faz-se caminhando. Todavia, parece estar ainda longe a célebre frase de um dos principais ícones africanos, o antigo presidente sul-africano Nelson Mandela, quando um dia disse: «Sonho com uma África em paz consigo mesma». (sol.co.ao)

 

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