A História da Casa dos Estudantes do Império volta a ser Escrita

(Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)
Da direita para a esquerda: Edmundo Melo Rocha (Médico angolano), Fernando Mourão (Professor Catedrático de Arquitectura angolano a residir entre Angola e Brasil), Beto Traça (General e antigo Adido de Defesa Militar da Embaixada de Angola em Portugal), Manuel Videira (Médico angolano), Tomáz de Medeiros (Médico santomense) e Rute Magalhães (Investigadora angolana). (Foto: Gabriel Baguet Jr/Jorge Monteiro/PORTAL de ANGOLA)
Da direita para a esquerda: Edmundo Melo Rocha (Médico angolano), Fernando Mourão (Professor Catedrático de Arquitectura angolano a residir entre Angola e Brasil), Beto Traça (General e antigo Adido de Defesa Militar da Embaixada de Angola em Portugal), Manuel Videira (Médico angolano), Tomáz de Medeiros (Médico santomense) e Rute Magalhães (Investigadora angolana). (Foto: Gabriel Baguet Jr/Jorge Monteiro/PORTAL de ANGOLA)

Memórias, Legados, Testemunhos e Comunicações académicas diversas e distintas de análise ocupam desde quinta-feira, um encontro com a História e a fundação da histórica Casa dos Estudantes do Império. Como o Portal de Angola ontem noticiou, o debate já gerou caminhos para a continuidade da discussão e da análise que este Movimento gerou em torno de homens e mulheres de origens geográficas diferentes que tinham como objectivo combater o Fascismo, mas também criar uma corrente de opinião Nacionalista em prol das Independências dos territórios de que eram parte integrante do seu desenvolvimento. Mas as controvérsias da História, o fim  da 2ª Grande Guerra Mundial na Europa e as conturbações emergentes à época noutros locais do mundo, faziam da Casa dos Estudantes do Império, um ponto de encontro que entre a recreação e a frequência de estudos universitários em Lisboa, crescia e aumentava a necessidade imperativa de criar mecanismos de combate e de resistência para a mensagem e a consciência política chegasse ao Poder Colonial. Foi um longo caminho e talvez agora se abra caminhos a outras reflexões quer de ordem política, quer de ordem cultural e até social pelas transformações ocorridas nos últimos 25 anos em toda a Humanidade. Os cenários à escala mundial são outros. Mas esta iniciativa da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e de uma vasta Comissão organizadora e científica, reafirmam o propósito desta abordagem da Casa dos Estudantes do Império, pois alguns dos homens e das mulheres que a frequentaram e habitaram estão vivos e podem contar a sua vivência e percurso. Esta coincidência no tempo e no espaço acontece quando os 40 anos de Independência que os cinco Estados Africanos que integram a CPLP celebram, coincide com a realização deste Colóquio Internacional. Num texto que citamos e reproduzimos, Victor Ramalho, actual Secretário-Geral da UCCLA refere em retrospectiva, mas com análise futura que a ” Casa dos Estudantes do Império (CEI) foi criada em 1944, pelo regime anterior, para responder ao reforço do convívio dos estudantes universitários das ex-colónias portuguesas, que não possuíam instituições de ensino superior e que tinham assim que continuar a frequência universitária em Portugal. Este objetivo integrou-se num outro, mais visto, de formação de eleitos que se admitiam virem a ser enquadradoras dos objetivos que o próprio regime colonial prosseguia.Sob os ventos da descolonização, documentos da Segunda Guerra Mundial, e da aprovação da Carta das Nações Unidas que reconhecem o direito inalienável dos povos à autodeterminação e à independência, o mundo assistiu ao surgimento de novos países no continente africano, o primeiro dos quais foi o Gana, em 1957″. Mas a esta contextualização, o Secretário-Geral da UCCLA refere que “a partir dessa altura muitos dos associados da Casa dos Estudantes do Império são impulsionados para o aprofundamento dos estudos relativos à identidade dos territórios de que eram originários, frequentando debates, colóquios e promovendo edições próprias, com conteúdo diversificado, incluindo poemas, contos e outras formas de expressão cultural.

Em resultado desta ação, a Casa dos Estudantes do Império é encerrada por intervenção da PIDE em 1965. Em 2015 ocorrerá a passagem do 50.º aniversário desse encerramento que coincide com o 40.º aniversário das independências das ex-colónias portuguesas.Foram associados da Casa dos Estudantes do Império, ou tiveram participação nela, personalidades incontornáveis da cultura e da política como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Fernando França Van Dúnem, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Pedro Pires, Onésimo Silveira, Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito Santo, Vasco Cabral, Pepetela, Alda Lara e tantos outros”. Da reflexão histórica e política, Victor Ramalho, antigo Deputado do Partido Socialista português e actual Secretário-Geral da UCCLA não deixa de reafirmar o seguinte : “Decorridos, como se disse, cinquenta anos sob a extinção da Casa dos Estudantes do Império, a UCCLA entendeu dever dar um pontapé de saída para homenagear o conjunto desses jovens, tanto mais que Lisboa, que foi sede da Casa dos Estudantes do Império e Coimbra, onde existiu uma delegação, são associadas da UCCLA. No Porto houve também uma delegação durante alguns anos.Esta homenagem corresponde, sem dúvida, a um desígnio comum dos povos de língua oficial portuguesa e não é possível conceber-se o futuro sem a preservação da memória que a todos respeita.Enquanto Secretário-Geral da UCCLA agradeço à Comissão Organizadora, constituída para a preparação e execução do programa, aos patrocinadores, sem os quais não seria possível levá-lo a bom porto, às instituições públicas de todos os nossos países e às respetivas embaixadas acreditadas em Portugal, aos convidados que prontamente aceitaram participar nos inúmeros eventos que foram programados e, por fim, à comunicação social que, desde a primeira hora, acolheu de forma muito solidária a iniciativa, fazendo repercutir pela opinião pública”. O futuro está em aberto em relação a esta pertinente  abordagem da Casa dos Estudantes do Império. Documentos e diversos materiais bibliográficos e outros documentos moram em Arquivos e Bibliotecas para que a partir de agora e como se traduz neste debate também científico, para além do olhar político, se reescreva a História. (Portal de Angola)
por Gabriel Baguet Jr, Jornalista/Escritor para o Portal de Angola
Fotos de Jorge Monteiro/Arquivo Portal de Angola

2 COMENTÁRIOS

  1. Um extraordinário Debate. Um oportuno Colóquio Internacional sobre a Casa dos Estudantes do Império.Quem tem estado na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa tem sentido esse pulsar da História. Mas há muito por dizer. E esta tarde não se disse tudo e essa limitação de tempo impostas aos Oradores e a Oradores históricos é inaceitável. Possa este Colóquio fazer com que a Câmara Municipal de Lisboa reabra a Casa e lhe confira por Direito próprio a entrega aos Antigos Associados. Este compromisso não foi assumido. E é importante que se fale nisso para não se cair no esquecimento.

  2. Tem valido ir à Fundação Calouste Gulbenkian revisitar a História.
    O cruzamento de várias gerações no grande Auditório da Gulbenkian mostra a sede de falar de África, dos seus protagonistas e dos continuadores. Concordo inteiramente que a Casa dos Estudantes do Império possa e deva ser aberta. Esperemos que a UCCLA e a Câmara Muncipal de Lisboa assumam esse compromisso com a História e a Memória. Afinal não basta comemorar. É importante reabrir as portas e juntar Gerações para discutir e fazer Cultura e refazendo a Biblioteca, espólio espalhado por gavetas de várias Arquivos e Bibliotecas. É preciso lembrar. Mas é preciso continuar a dar a conhecer o que se passou e irá passar.

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