A boa e a má gestão

VALDINO SIMA Jurista e Docente universitário (Foto: D.R.)
VALDINO SIMA Jurista e Docente universitário (Foto: D.R.)
VALDINO SIMA
Jurista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

As transformações políticas, económicas, sociais e tecnológicas do mundo moderno têm estado a ganhar ritmos acelerados e a assumir contornos cada vez mais complexos que forçam as pessoas e os Estados a reinventar-se quando diante destes ingentes desafios. O surgimento, o triunfo e a “globalização” do capitalismo alteraram totalmente a forma de como os seres humanos passaram a conceber as relações de troca impelindo-os para a necessidade de redimensionarem as suas vidas relativamente a um “novo conceito de dinheiro”.

Os actos de comprar, vender, gastar, poupar, entre outros que se inserem no processo de manuseamento do dinheiro pessoal ou familiar, já não são tão inconscientes, nem tão-pouco estão desacompanhados de informações sistematizadas que influenciam e garantem a boa tomada de decisão para tal. Nesta vertente, tem-se utilizado nos últimos dias, e com frequência, o conceito de “educação financeira” para se referir ao conjunto de informações e hábitos necessários a uma melhor gestão e utilização do dinheiro pessoal, sempre na perspectiva de uma melhor qualidade de vida.

A educação financeira é um processo que se baseia na tomada de decisões conscientes acerca do correcto aproveitamento dos recursos financeiros próprios, visando contribuir para uma cultura de previsibilidade e estabilidade financeira, de poupança e de redução do consumismo. É indiscutível o papel importante da educação financeira para uma sociedade. Além de contribuir positivamente na disciplina pessoal do indivíduo, livrando-o do stress da falta de dinheiro e das angústias do endividamento, permite também que cada vez mais cidadãos criem capital susceptível de se converter em motor de investimentos e gerar novos mercados, novos negócios e novos empregos.

Com a educação financeira, o dinheiro já não é mais a raiz de todos os males. Bem gerido e utilizado converte-se num importante factor de cooperação e socialização económica entre os seres humanos, trazendo, de acordo com as aspirações de cada um, importantes valências na qualidade de vida das pessoas e das famílias. Repare-se que o que está em causa na educação financeira não são os ensinamentos para que uma pessoa possa tornar-se rica, nem de qualquer outra maneira exige-se que as pessoas para serem educadas financeiramente deixem de gastar dinheiro. Simplesmente apela-se para alguns valores, tais como: “planeamento, poupança, investimento e consumo consciente”.

Em Angola, por exemplo, o programa de educação financeira, presidido pelo Banco Nacional de Angola e iniciado em 2009, “visa facilitar a população de baixa renda o acesso a serviços bancários” – pode ler-se em vários comunicados publicados na internet. Neste sentido, a educação financeira corresponde a uma ideia de bancarização do dinheiro, ajudando, claro está, na realização da poupança para posterior investimento. Por outro lado, sobretudo através dos meios de comunicação social, o programa de educação finaceira angolano parece ganhar (mais) um sentido. Desta vez ligado ao manuseio das moedas (em sentido físico) em circulação no mercado.

Muito recentemente foi noticiado o lançamento do projecto de educação financeira na província do Namibe, uma iniciativa do Ministério da Educação, em parceria com o Banco Nacional de Angola, “que visa dotar os professores e alunos de conhecimentos sobre a gestão financeira no seu dia-a-dia”. É digna de reconhecimento uma iniaciativa como esta, sobretudo por expressar preocupação do Ministério da Educa- ção de Angola com a questão dos “bons hábitos financeiros”. Daqui para frente é mister que actos semelhantes sejam levados a cabo com toda a abrangência necessária. A solução ao problema da falta de educação financeira não devia ficar somente pelo lançamento de uma ou mais campanhas de forma institucionalizada.

O compromisso social no sentido da reprovação de atitudes e comportamentos imediatistas e despesistas associados à ostentação de riqueza seria um dos fortes aliados na batalha contra a iliteracia financeira. Outrossim, um dos grandes desafios que mais se colocam no seio das famílias angolanas é a de poderem abordar questões financeiras com normalidade entre os seus membros, sobretudo com os menos crescidos. No contexto da família tradicional angolana, falar de dinheiro com crianças e adolescentes e/ou permitir que estas manipulem valores monetários pode ser motivo para muitos constrangimentos. A educação financeira também é uma superação que cada indivíduo deve aceitar em si mesmo, que cada família deve aprender a lidar com ela no seio quotidiano. Afinal de contas, ter muito ou pouco dinheiro não é em si um problema, o problema é geri-lo mal. (jornaldeeconomia.ao)

 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA