Uma questão de responsabilidade

JUSTINO PINTO DE ANDRADE Economista
JUSTINO PINTO DE ANDRADE Economista
JUSTINO PINTO DE ANDRADE
Economista

1 Ao contrário do que sucedeu aquando da crise financeira iniciada em 2008, nos EUA e, depois, propagada para a Europa e outras partes do mundo, o começo do declínio do preço do petróleo no mercado internacional tem sido acompanhado, por parte das autoridades angolanas, com declarações de visível preocupação.

Desencadeou-se, então, uma onda de cuidados e medidas para prevenir ou minimizar os inevitáveis impactos negativos resultantes de uma tal situação.

2 Nota-se, pois, uma clara diferença de comportamentos face à crise de 2008. Nessa altura, o Presidente da República manteve-se, durante muito tempo, em profundo silêncio, pronunciando-se somente quando a crise já estava a causar malefícios sobre a nossa economia.

Ela ia varrendo literalmente sectores económicos geradores de rendimentos e criadores de volumosos empregos, como são os casos da construção civil e do comércio, para citar apenas estes.

3 Face ao silêncio tumular de José Eduardo dos Santos, os ministros e outras autoridades foram falando e agindo como se nada estivesse a acontecer… Alguns até se atreveram a dizer que a nossa economia estava perfeitamente “blindada”, sendo, por isso, capaz de resistir aos mais violentos “bombardeamentos” causados pela crise internacional que, entretanto, fazia os seus estragos quer lá fora, quer aqui entre nós.

4 Desta vez, porém, José Eduardo dos Santos antecipou-se, sendo o primeiro a declarar, publicamente, que os impactos da baixa do preço do petróleo seriam tremendamente negativos para a performance da nossa economia. Com tal assunção, os seus dependentes directos (subordinados na governação) ganharam coragem e, eles também, assumem já que “as coisas não estão bem” e que, por esse facto, medidas urgentes terão que ser tomadas.

5 Adivinho, pois, que a “crise actual” irá ser o “alibi perfeito” para justificar todos os incumprimentos que se avizinham. Tal como tem sucedido com o vetusto “passado colonial” que é, não poucas vezes, rebuscado, para fazer a figura do culpado por todos os males que, 40 anos depois, nos afligem…

6 Quando, por exemplo, se aborda a problemática de Luanda e o seu desconcerto, o argumento é invariavelmente este: “A Cidade de Luanda foi planificada para 600 mil habitantes e hoje tem dez vezes mais…”.

Assim, os decisores ficam em paz com as suas consciências… Passando, indirectamente, a responsabilidade por termos a cidade que hoje temos,

desordenada, entupida, descaracterizada, ao colono… Pois ele não teve capacidade de prever que, 40 anos depois, teríamos aqui mais de 6 milhões de habitantes…

7 É verdade que a guerra que se seguiu à Independência e o consequente êxodo das populações tiveram a sua quota-parte de responsabilidade neste actual sobrepovoamento da nossa capital. Mas, também é verdade que as políticas económicas e sociais, da responsabilidade de quem nos tem governado até hoje, conduziram-nos a esta espécie de beco sem saída… Isto não pode ser escamoteado.

8 A declarada ambição de fazer de Luanda “uma espécie de Brasília ou Nova Iorque”, enchendo-a, por exemplo, de prédios altos no centro, não só matam a velha beleza que a cidade tinha, como tem também, progressivamente, eliminado a sua herança histórica, caracterizada por uma arquitectura muito peculiar. Para já não falar no caos do trânsito e nos impactos ambientais provocados pelo acúmulo de betão no centro e pela eliminação dos espaços verdes. É preciso, pois, assumir que a cidade que temos hoje, tal como ela está, é da inteira responsabilidade de quem a tem governado, e de quem governa o país no seu conjunto.

9 Mas, voltando à crise económica e financeira. O contexto internacional tem a sua quota-parte de responsabilidade na situação que hoje vivemos, mas não deixa de ser verdade que a má utilização dos resultados do petróleo contribuiu também para a nossa presente extrema dependência desse produto.

O que tornou a nossa economia tremendamente vulnerável. E, ao contrário do que seria expectável, as muito propaladas reservas internacionais líquidas de divisas não têm sido tidas nem achadas para virem em socorro da nossa economia nesta época de crise. Será que a sua dissipação é ainda da responsabilidade de outros que não os governantes? (A Capital)

Por: Justino Pinto de Andrade

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