Um ano depois, maioria da população da Crimeia aprova anexação

Maioria da população da Crimeia aprova anexação pela Rússia (Reuters)
Maioria da população da Crimeia aprova anexação pela Rússia (Reuters)
Maioria da população da Crimeia aprova anexação pela Rússia (Reuters)

Um ano após a anexação da Crimeia pela Rússia, a antiga península ucraniana vive uma grave crise económica e minorias são alvo de perseguição – a vasta maioria da população local apoia a integração da região ao território russo, graças a um patriotismo alimentado por pesada propaganda do Kremlin e ao fato de a Crimeia, bem ou mal, ter sido poupada do derramamento de sangue no Leste da Ucrânia. A região foi incorporada ao território russo em 21 de Março do ano passado, cinco dias depois de um controverso referendo.

Em pesquisa realizada no início de Fevereiro pelo grupo GfK, maior instituto de pesquisa da Alemanha, 82% dos cidadãos da Crimeia disseram que aprovam a anexação. Os russos étnicos correspondem a 58,5% dos residentes da península da Crimeia, segundo dados do censo de 2001, o mais recente.

– Nós, na Crimeia, somos russos e sempre quisemos fazer parte da Rússia. Falamos russo em casa e agora estamos apenas retornando à pátria. Temos direito de escolher de qual país fazemos parte, não? – questionou a professora Svetlana Turkinova, de 53 anos.

A amiga Daria Plyutsina confirma com a cabeça e completa:

– As pessoas precisam entender que não nos identificamos com a Ucrânia. Em jogos de futebol, sempre torcemos pela Rússia. Nossa nação é a Rússia e (o presidente russo Vladimir) Putin fez apenas o que nós pedimos: uma reunificação.

Além da questão étnica e de identidade dos residentes da Crimeia, o temor de que o conflito no Leste da Ucrânia atingisse a região é outro argumento frequente para defender a anexação. Pelo menos seis mil pessoas já morreram nos combates e bombardeios desde Abril do ano passado.

– Pelo menos aqui não há guerra. Olha a situação na Ucrânia, em Donetsk, Lugansk. As pessoas estão perdendo tudo o que construíram durante todas as suas vidas. Aqui estamos em paz – diz Viktor Pulyanov, técnico em informática, de 37 anos.

A assessora de imprensa do movimento juvenil pró-Kremlin Rede, Anastasiya Melnik, disse em entrevista ao GLOBO que defende a autodeterminação da Crimeia e que os possíveis problemas servem apenas para unir o povo russo.

– Para a gente, o orgulho nacional é o mais importante. Não estamos preocupados com iPhones ou com frutas polacas. Estas sanções ajudam a impulsionar a economia russa.

A península está isolada economicamente e depende totalmente de Moscovo. Cartões das principais bandeiras internacionais não funcionam na região anexada e todos os voos internacionais para o principal aeroporto local, na cidade de Simferopol, foram cancelados. A inflação oficial já chegou a 38% e o custo dos produtos nos supermercados aumentou em 50% entre Março e Dezembro do ano passado.

– A minha aposentadoria agora é em rublo (moeda russa) e eu ganho mais do que eu ganhava em hrivna (moeda ucraniana). Mas o aumento do meu salário não compensa o aumento dos preços – conta a médica aposentada Elena Jukova, de 73 anos.

Os problemas económicos não param por aí. Muitas empresas de pesca e de construção civil foram obrigadas a fechar por causa de novas regras que se baseiam na legislação russa. Além de novas regulamentações, não há mercado para as empresas da Crimeia por causa das sanções impostas pelo Ocidente, e não há demanda no mercado russo. Em Sebastopol, houve uma diminuição de 80% na produção industrial no ano passado.

– Agora a Crimeia é parte da Rússia, mas isso não faz diferença para mim. Na prática, a única coisa que mudou é que tudo ficou mais caro – diz a engenheira Irina Proshina, de 42 anos.

MINORIAS PERSEGUIDAS

A propaganda patriótica russa na Crimeia é omnipresente. Cartazes e outdoors espalhados pela região enaltecem a anexação, quase sempre descrita como um ato heróico. Na semana passada, a TV estatal Rossiya 1 exibiu um documentário de duas horas e meia intitulado “Crimeia: o caminho para casa”, onde acusa os EUA de estarem por trás do actual governo ucraniano pró-ocidental.

O líder político da Crimeia, Sergei Aksionov, disse na última semana que “Putin tem o apoio de 90% dos cidadãos”, e destacou a “coragem, vontade política e sabedoria de Estado” do presidente russo em apoiar o resultado do referendo que permitiu a integração da região à Rússia.

Aksionov concluiu:

– A escolha era evidente: Ucrânia, sangue e guerra, ou Rússia, paz e estabilidade.

A anexação da Crimeia ajudou a aumentar a popularidade de Putin. O governo do presidente russo conta hoje com 88% de aprovação, segundo o centro de opinião russo Levada.

Apesar de majoritária, porém, a aprovação à anexação está longe de ser unânime. A Amnistia Internacional acusou as autoridades russas da Crimeia de uma “campanha implacável de intimidação para silenciar a dissidência” da região. Dezenas de crimeanos tártaros foram interrogados, presos ou desapareceram desde que a Rússia assumiu o controle da região. Pelo menos um foi morto em circunstâncias ainda não explicadas. A minoria tártara representa 12% da população local.

– Sempre que ouço algum barulho, penso que é a polícia russa que vem nos prender. Somos vítimas, mas parece que somos suspeitos de algo. Eles querem nos silenciar e estão conseguindo, através do medo – explica Djafer, um crimeano tártaro que pediu para não ter o sobrenome publicado.

Um dos sobrinhos de Djafer foi interrogado pela polícia no ano passado por ter participado de uma manifestação contra a Rússia. Em Janeiro deste ano, a sede do único canal de televisão em idioma tártaro da Crimeia foi alvo de uma batida feita por representantes do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, na sigla em russo). Cidadãos ucranianos também estão enfrentando problemas com o Kremlin.

– Já não há escolas na Crimeia com aulas em ucraniano. Nós falamos ucraniano em casa, e minha filha não fala russo tão bem. Da noite paro dia, o nosso idioma passa a ser um idioma estrangeiro, mas estamos no nosso próprio país – reclama Yana Jukova, de 48 anos.

A península também atraiu ucranianos fugidos do conflito no Leste do país, mas eles são tratados como imigrantes na Rússia, e têm que sair a cada três meses para renovar o visto de permanência, além de viverem em moradias improvisadas – espécies de favelas recém-criadas nos arredores das grandes cidades. ()

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