Saudosa metrópole

JOSÉ SANTOS Jornalista
JOSÉ SANTOS Jornalista
JOSÉ DOS SANTOS
Jornalista. Director de A Capital

Naquele tempo o meu pai já era assimilado”. Esta é uma frase com que me confronto quase sempre nas vá- rias conversas que vou mantendo com pessoas mais-velhas. Há dias, numa animada tertúlia, vi-me novamente assaltado com esta palavra que, em boa verdade, muito me inquieta: “e naquele tempo, já éramos assimilados”. Não há muito tempo, enquanto acompanhava uma concorrida entrevista numa das rádios da capital, fui tomado por uma outra desilusão: o entrevistado, uma pessoa que muito prezo pelas suas posições académicas, jactou-se do facto dos ancestrais terem sido, no período de vigência colonial, cidadãos assimilados.

Na verdade, este recuo ao tempo, este sentimento saudosista, estarrece-me. E dou comigo a perguntar por que, afinal, dedicamos anos a fio a lutar para a libertação do país e dos angolanos do jugo colonial. Quando me confronto com alguém que se sente um ser maior por os seus antepassados terem sido considerados assimilados pelos mesmos colonos que diziam combater fico com a nítida sensação de que todo o esforço despendido para libertar o país das garras colonialistas terão sido em vão.

Na minha ainda pouca idade, sei que os assimilados podiam, por exemplo, adquirir propriedade, ao mesmo tempo que não eram obrigados pela autoridade colonial a trabalhar em obras públicas. Mas tinham que prestar o serviço militar e trabalhar para o serviço público, apresentar formação escolar em português, comprovar bens e manter uma vida cristã. E era, pois, disso que os nossos “assimilados” se envaideciam. Esqueciam-se (ou ignoravam?) que tal estratégia colonial visava apenas dividir para melhor reinar…

Do pouco que sei e pesquisei sobre este processo de assimilação, consigo sentir-lhe o cheiro: sabe a pejorativo. E não estou distante da verdade, pois quanto sei a política de assimilação de que muitos se vangloriam aos quatro ventos não foi mais do que uma clara tentativa do regime colonial para destruir a tradição cultural das referidas colónias. Portugal e França, por esta ordem, lideravam este processo.

Objectivo número um: através da europeização procuravam a todo o custo formar uma elite privilegiada de potenciais colaboradores. Desta aparente colaboração aos delatores, vulgos ‘bufos’, foi apenas um simples piscar de olhos. E, claro está, são estes que ainda hoje se gabam da mesma assimilação que os levou a “queimar” compatriotas, muitos dos quais foram e acabaram condenados à morte. Existem aos magotes. Há os que passeiam a assobiar de lado com as mãos ao bolso. Outros há cuja vida foi madrasta e lamentam do “trabalho sujo” prestado a favor do regime colonial. Os “assimilados” são os mesmos saudosistas, os mesmos “duplos” que se apresentam com um coração em Angola e outro na antigo Metrópole. Aculturados, morrem de saudade da velha República. Não raras vezes dão até a entender que a Angola libertada é ainda uma provincia ultramarina. (A Capital)

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