Salgado arrasa Banco de Portugal. Eram enviadas informações diárias sobre a conta escrow

(Ana Brígida)
(Ana Brígida)
(Ana Brígida)

Ex-presidente do BES acusa Carlos Costa de falta de isenção, repete que dinheiro não desapareceu e dá respostas vagas sobre contabilista e a E.S.Enterprise

Ricardo Salgado sabia ao que vinha. E antes de ser bombardeado com as falhas apontadas pelos primeiros dois capítulos da auditoria forense, o ex-presidente do BES entrou, pela segunda vez em três meses e meio, na sala 6 do parlamento, com uma declaração inicial de uma hora em que prometia desfazer todos os “equívocos” da auditoria e com um alvo bem escolhido: o governador do Banco de Portugal. O regresso de Salgado cem dias depois, com uma gravata da mesma cor, e o mesmo discurso sobre a necessidade de salvaguardar a honra da sua família e mostrar que a queda do GES não foi obra de um homem só. “Formou-se uma imagem errática sobre este caso e os seus responsáveis. Nunca pretendi dizer que nada fiz nem nada tenho que ver com nada, mas certamente que não terei tudo a ver com tudo, como tantas vezes foi sugerido pela opinião pública.”

Depois de deixar uma palavra aos clientes, investidores e accionistas que confiaram no BES, Salgado partiu de imediato para o ataque, rebatendo, ponto a ponto, as conclusões do primeiro capítulo da auditoria forense. Se esta concluiu que a conta escrow terá servido para outros fins que não só o de reembolsar os clientes de retalho do BES que tinham investido em papel comercial do GES, Salgado não esteve para meias medidas: “Eram enviados relatórios diários com os movimentos da conta escrow ao Banco de Portugal.”

Mais à frente, questionado sobre se o supervisor bancário nunca levantou questões sobre o uso que estava a ser dado à conta, o ex-presidente do BES disse desconhecer. Joaquim Goes, contou, seria o administrador com maiores responsabilidades no acompanhamento da escrow account. Como o i já adiantara, cartas enviadas pelo BES ao Banco de Portugal, em Dezembro de 2013, já mencionavam a existência de relatórios sobre os movimentos desta conta. Não diários, como disse Salgado, mas semanais.

E houve clientes favorecidos em relação a outros, como frisava a auditoria? Salgado também rejeitou. Os clientes que foram reembolsados seriam clientes não institucionais e não qualificados do BES Açores, do BEST, e da ESAF, por exemplo, e todos eles constavam de uma base de dados que estava na posse do Banco de Portugal.

E por que razão o dinheiro que deveria servir para o reembolso dos clientes foi usado para pagar empréstimos ao BCP e Montepio? Por uma razão simples, explicou Salgado. “Porque foi necessário pedir financiamentos de curto prazo para reembolsar clientes de papel comercial. Quando a conta teve fundos, esses foram utilizados para pagar estes empréstimos.”

O ataque não terminou por aí. Salgado acusou o Banco de Portugal de divulgar “gota a gota” informações na imprensa para motivar um julgamento antes de tempo na opinião pública. E chegou mesmo ao ponto de acusar o governador de falta de isenção, razão pela qual levantou um incidente de suspeição contra Carlos Costa, num processo administrativo movido pelo Banco de Portugal. O seu pedido, contou, ainda carece de resposta. Salgado, por mais de uma vez, mostrou-se revoltado por, na conferência dada pelo governador a 3 de Agosto de 2014, Carlos Costa ter falado de práticas fraudulentas. “Onde estão essas fraudes?”, perguntou, voltando a repetir: “O dinheiro não desapareceu. Ficou no Novo Banco.”

Mas nem para tudo Salgado teve respostas na ponta da língua. Nem sequer para algumas perguntas que seriam previsíveis. Embrulhou-se quando confrontado com as declarações de Machado da Cruz: não teve encontros em Lisboa para combinar discursos, não o enviou para o Brasil, nem o mandou falsificar discursos. E a Espírito Santo Enterprise? Salgado voltou a embrulhar-se. Disse apenas que não é um saco azul, mas uma empresa de serviços partilhados virados para operações no exterior. E onde ficava? “No Luxemburgo? Haaaa. Não me lembro.” (ionline.pt)

por Sílvia Caneco

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