RUI LEGOT: Morreu em Paris, aos 73 anos, um angolano casado com a música

Os irmãos Conceição e Rui Legot. (Foto: D.R.)
Os irmãos Conceição e Rui Legot.  (Foto: D.R.)
Os irmãos Conceição e Rui Legot.
(Foto: D.R.)

VIDEO – Conceição e Rui Legot, num testemunho sobre a sua carreira artística. (Yetu-BDA)

Já passava das 22 horas – tempo de Luanda, quando registamos, ontem, a chamada do nosso director, Jorge Monteiro, a anunciar o desaparecimento físico do seu grande amigo, Rui Legot, aos 73 anos, em Paris, vítima de doença prolongada.

Antigo integrante do Duo NGola, Rui Legot marcou uma época, a da afirmação da cultura angolana, ainda na era colonial. Pertencia a uma geração de vanguarda, intervencionista, que se impôs, em 1955, ao sistema reinante, aproveitando a boleia do Luso-tropicalismo, para vincar a personalidade cultural de Angola.

O nosso director, Jorge Monteiro, ao relembrar a figura indelével de Rui Legot, no processo que daria origem, depois da independência, a toda uma envolvência em prol do país livre e senhor dos seus destinos, que se tornou Angola, recuou no tempo de “Gente do Mato”, em que privou com Rui Legot, desde Paris a Bruxelas, onde frequentemente se encontravam.

“Fazíamos parte de um grupo de angolanos (Bonga, Batalha Bob Júnior, Carlos Nascimento e outros) que se destacava, por via da cultura, na divulgação dos nossos valores. Trocámos muitas opiniões, organizamos encontros, sempre naquela perspectiva da solidariedade, que nos caracteriza”.

“O Rui era simplesmente um entusiasta da cultura. Irrequieto, não se conformava com o status quo. Procurava sensibilizar os seus amigos para a causa angolana e dava como credenciais, a sua amizade com o embaixador Elísio de Figueiredo, de quem era muito amigo” – confidenciou-nos Jorge Monteiro.

O nosso interlocutor foi mais explícito ao referir o facto de Rui Legot pertencer a um grupo de antigos estudantes do Liceu Salvador Correia, que partilhavam os mesmos ideais. A amizade entre colegas perdurou e o facto de pertencerem à mesma unidade escolar fez o resto.

Rui Legot, segundo Jorge Monteiro, fazia jus à sua condição de “colega de carteira”, no velho “Salvador Correia”, do Presidente José Eduardo dos Santos, com quem dedilhou os primeiros acordes de violão.

Do ponto de vista artístico Rui Legot ultrapassou a barreira do preconceito ao exibir nos concertos pelo mundo a bandeira cultural angolana, levando sempre consigo o momento em que, no ano de 1955, lançara as bases de uma carreira artística, ao lado da sua irmã, Conceição Legot, tendo formado mais tarde, o Duo NGola, com Henrique Rosa Lopes (ver vídeo).

VIDEO mona kilumba –

NOTA RELEVANTE: Video Carregado a 27/01/2011
Convivia eu com os meus amigos angolanos Henrique Rosa Lopes e Rui Legot, elementos do Duo N’gola quando me predispus a criar algo que pudesse ser interpretado por eles.
Para eles escrevi uma letra extremamente simples, salpicada com algumas palavras do dialecto quimbundo. “Alinhavada” a composição, baptizei-a de Mona Kilumba (menina,menina) e corri ao encontro dos meus amigos do Duo N’gola que faziam “poiso” na Pastelaria Tarantela, na Estefânia, em Lisboa.
Dias decorridos, depois de alguns ensaios a canção era gravada em disco e apresentada na TV.
Decorridos tantos anos, sou, agora, agradavelmente surpreendido por Mona Kilumba ser reeditada, fazendo parte duma bem apresentada colectânea, em livro, como “As 100 grandes musicas dos anos 60 e 70” de Angola.
A esta distinção acresce a particularidade de ser o único autor incluído nessa colectânea que não nasceu, nem nunca esteve naquele país. [João Videira Santos]

A história registará, certamente, um lugar de eleição a pessoas como Rui Legot, Bonga, Trio Feminino, NGola Ritmos, Duo Missosso, Duo Ouro Negro, Ana Maria de Mascarenhas, Sara Chaves, Milita, Garda e seu conjunto, Trio Assis, que personalizaram a música de Angola, no momento em que se impunha a sua afirmação além fronteiras.

Com uma vivência internacional marcante e uma saúde débil exigindo cuidados especiais, Rui Legot foi forçado a escolher Paris, para se manter no activo, sendo traído na madrugada do dia 21, pelo silêncio sepulcral, deixando aos seus, unicamente, uma eterna saudade. Paz à sua alma! (portaldeangola.com)

4 COMENTÁRIOS

  1. Fói com bastante pesar que recebemos a triste notícia, da morte do nosso querido amigo Rui Legot.
    Neste momento de dor e consternação, pedimos a Deus que lhe ilumine e lhe dê paz, na esperança de poder estarmos juntos algum dia.
    Agradecemos imensamente o tempo que podemos conviver com ele, que será sempre lembrado pela grandeza do seu coração e, nobreza do seu caráter, pelo combate pela liberdade e, divulgação da cultura Angolana.
    Agradecemos ao Portal de Angola com esta notícia de homenagem e, em particular ao seu Diretor que nos confirmou, que as exéquias vão decorrer no dia 26(Quinta-Feira) das 9 às 14, na Igreja São Maximiliano em Chelas, donde saírá pelas 14,30, o funeral para o Alto de S. João.
    Honremos a sua memória, vivendo a nossa vida em paz e alegria.

  2. Foi-se o angolano, dono do abraço mais sincero, que alguma vez recebi em Paris. Dono também, sem muito possuir, de uma grande generosidade, à época que o encontrei pelo Quartier Latin, naqueles anos em que a “rive gauche” ia perdendo seu brilho. Registo com muita mágoa, o facto de nao ter sido avisado a tempo, pois muito gostaria de o ter visto ainda em vida. À família, os meus mais profundos sentimentos.

  3. Recebo com grande tristeza a noticia do nosso irmâo e compatriota, RUI LEGOT.Embora seja certo que a vida de cada um é necessariamente votada a ter um fim, o melhor seria enchê-lo de AMOR,GENEROSIDADE e ESPERANCA, durante a existência terrena.Partilho naturalmente a dor dos membros de toda a familia, e gostaria de lhes manifestar a minha compaixâo.Adeus meu Amigo; Adeus meu irmâo; Adeus meu Compatriota.

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