Paulo Azevedo chega a chairman com uma pedra no sapato: Angola

Paulo Azevedo e Ângelo Paupério vão dividir presidência executiva da Sonae SGPS (Foto: Paulo Veludo/NFactos)
Paulo Azevedo e Ângelo Paupério vão dividir presidência executiva da Sonae SGPS (Foto: Paulo Veludo/NFactos)
Paulo Azevedo e Ângelo Paupério vão dividir presidência executiva da Sonae SGPS
(Foto: Paulo Veludo/NFactos)

Depois da meia derrota na OPA sobre a PT, que acabou por criar condições para a fusão da Zon e da Optimus, Paulo Azevedo, que vai substituir o pai como chairman da Sonae, tem em mãos vários desafios e um dossier difícil, a parceria com Isabel dos Santos para criar uma rede de hipermercados em Angola, que ameaça romper-se.

A chegada de Paulo Azevedo à liderança máxima da Sonae e dos restantes negócios da família era esperada, não surpreendeu ninguém, e não é contestada, nem interna nem externamente. Também não é expectável uma alteração profunda no modelo de gestão do grupo, que já tem o seu cunho pessoal desde que assumiu a presidência executiva.

Mas a nomeação de Paulo Azevedo para ao cargo de charmain da Sonae, na sequência da saída do seu pai, Belmiro de Azevedo, com 77 anos, não vai mudar nada na Sonae? Terá necessariamente de mudar. E tem desafios difíceis no horizonte, com o caso Angola no topo da lista.

Paulo Azevedo, presidente da comissão executiva da Sonae SGPS desde 2007, preocupou-se nos últimos anos em arrumar a casa, em reduzir o endividamento­, em apostar em novos modelos de negócios que consumissem menos capital. Mas ainda lhe falta dar salto para a frente, ou seja, acelerar no crescimento internacional, uma vez que na frente interna o espaço de expansão é mais reduzido.

A meta, que o próprio definiu, de conseguir 25% dos negócios da Sonae nos mercados externos já leva alguns anos de atraso e ainda está longe se concretizar. Dos quase cinco mil milhões de euros de volume de negócios em 2014, apenas 600 milhões foram realizados fora de Portugal.

Há várias razões que ajudam a explicar que a internacionalização tenha ainda uma quota modesta, desde logo o elevado peso dos negócios em Portugal, que mesmo assim têm continuado a crescer.

Mas há outras razões que impuseram prudência, desde logo a necessidade de desalavancar o grupo, tradicionalmente muito endividado. A crise financeira de 2008 e anos subsequentes forçaram a Sonae a fazer um caminho inverso, com assinalável êxito. Desde o início da crise até final do ano passado o endividamento líquido encolheu em mais de mil milhões de euros, para 1251 milhões, e a estrutura de capitais inverteu-se e é agora de 60% de capitais próprios e de 40% de endividamento bancário.

Depois da crise financeira internacional, veio a crise interna, em 2011, que obrigou o grupo a concentrar esforços na manutenção da quota de distribuição num cenário de redução do consumo e de forte concorrência. Este esforço foi dando resultados e até permitiu o reforço da liderança do mercado do grupo, que é proprietário do PÚBLICO.

Mas há outras razões para explicar o crescimento contido da internacionalização, a começar pelo não avanço da parceria com a empresária Isabel dos Santos para a criação de uma rede de hipermercados em Angola. Em 2010, as previsões do grupo apontavam para a abertura dos primeiros hipermercados em 2012 e a expectativa era a de que a porta do grande mercado angolano se abriria, depois, aos negócios do retalho especializado: Zippy, Worten, Sport Zone, entre outros.

Na apresentação de contas anuais, realizada esta quinta-feira, Paulo Azevedo não conseguiu disfarçar o desconforto que existe na Sonae a propósito desta parceria, que conheceu um desenvolvimento recente inesperado com a contratação, por parte de Isabel dos Santos, de dois altos quadros da Sonae, precisamente aqueles que melhor conheciam todo “o trabalho de casa” realizado pelo grupo português para o projecto.

Quando se perguntou em que ponto estava o projecto Angola, Paulo Azevedo deu uma resposta surpreendente: “Eu também gostava de saber”.

Estabilizada a fusão entre a Zon e a Optimus, que deu origem à Nos e garantiu o operador abrangente com que a Sonae sonhou quando avançou para a PT, este é o dossier mais quente e urgente que Paulo Azevedo tem em mãos. Até porque Isabel do Santos é parceira da Sonae precisamente na Nos, em partes iguais, uma repartição igualitária de poder de que Belmiro de Azevedo não gostava, mas que já tinha aceitado também na Sonae Sierra.

Sem Angola e sem as aquisições que admitia fazer em 2014, mas que não se concretizaram, o crescimento torna-se mais lento. O modelo de capital light, “as novas avenidas de crescimento”, nas palavras de Paulo Azevedo, como os acordos de franquia, de exportação de produtos e serviços, e o e-commerce, distintos da filosofia anterior do grupo, têm menos custos, mas os resultados também são menos visíveis. (publico.pt)

Por: Rosa Soares

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