Os retalhos da filha de Angola

Marcela Costa (ao centro), com as suas admiradoras. (Foto: D.R.)
Marcela Costa (ao centro), com as suas admiradoras. (Foto: D.R.)
Marcela Costa (ao centro), com as suas admiradoras.
(Foto: D.R.)

Após mais de uma década nos bastidores da criação, Marcela Costa regressa com uma dupla produção: a biografia Marcela, Filha de Angola e a exposição Retalhos de Angola.

A gravidez, pronunciada pela imagem de um ventre farto, exibe-se sob o título ‘Dádiva’, enquanto a descrição ‘Ofícios Femininos’ transporta-nos para uma longa tradição de manualidades domésticas. Expressões da veia criativa de Marcela Costa, as duas obras de tapeçaria integram a mostra Retalhos de Angola, inaugurada esta semana em Luanda, no Camões – Centro Cultural Português (até dia 20).

Com 22 trabalhos, dos quais 13 inéditos, a apresentação marca o regresso da artista às exposições individuais, após mais de uma década de ausência.

«Já não me lembro do ano. Só sei dizer que Arte Mulher – Angola 25 anos foi a última», recua Marcela, de volta à mostra que antecedeu Retalhos de Angola.

Sem as indefinições das memórias pessoais, entretanto amadurecidas na fundação da Galeria Celamar, o percurso da artista revisita-se – além das assinaturas de tapeçaria – no livro Marcela Costa, Filha de Angola.

Lançado como extensão da mostra, o título traduz, na descrição da sua mentora, a argentina Diane Biet, «um sonho tornado realidade».

No país de propósito para homenagear a amiga e parceira de caminhada artística, Diane revela ao SOL com que ímpeto se produziu a obra.

«Nos quatro anos que vivi em Angola [de 2008 a 2011], percebi que a vida da Marcela é valiosa demais para não estar documentada. Tudo o que faz para ajudar os outros, através das artes plásticas, merece ser promovido», assinala.

Obra de género

O tributo de Diane Biet, que convenceu a angolana a avançar para o livro, estende-se por mais de 100 páginas, iniciadas pela exaltação da identidade artística da autora, de 58 anos.

«Marcela nasceu na província do Kwanza-Norte, mas sempre divulgou as formas artísticas tradicionais de todas as regiões do país», destaca a amiga, destapando a inspiração por detrás do epíteto ‘Filha de Angola’.

«Ela fez muito em nome da integração do país, que promove através da cultura, ao apoiar e valorizar as expressões artísticas de toda a nação», reforça Diane Biet, em declarações ao SOL.

O cunho colectivo da obra da proprietária da Galeria Celamar, situada na Ilha de Luanda, ressalta também da apreciação da deputada do MPLA e presidente do Grupo das Mulheres Parlamentares, Cândida Celeste da Silva.

Admiradora de longa data do trabalho de Marcela Costa, a ex-governadora do Namibe chama a atenção para a «verdade nacional» concentrada em Retalhos de Angola.

«Temos um bocadinho das missangas do Sul, das kindas do Centro, das conchas do Norte… com esta miscelânea a artista conseguiu fazer um quadro que emociona, transmitindo a presença de todo o angolano em pequenos retalhos».

A reprodução do país pelas artes de Marcela Costa assume, contudo, um traço marcadamente feminino, ou não fosse ela a única mulher galardoada com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de Artes Plásticas.

«Sou mulher, artista e mãe, e procuro juntar todo esse meu ser nas obras», remata a autora que, através da Celamar, procura corrigir as desigualdades de género.

O esforço tem no Grupo Feminino de Percussão Celamar um dos rostos mais visíveis. «É um projecto dirigido a jovens mulheres e adolescentes desprotegidas», introduz a artista, nos últimos anos intensivamente comprometida com as causas sociais. «Na rua chamam-me de mãe e tia, e eu assumo essa responsabilidade de acompanhar os mais novos».

O resultado ressoa dos tambores do ‘seu’ grupo de percussionistas que, à porta do Camões, celebra a arte da ‘madrinha Marcela’ com batucadas. (sol.ao)

 

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