O Petróleo vai continuar a cair?

(D.R.)
(D.R.)
(D.R.)

Os economistas têm fama de ser fantásticos a explicar o passado, mas péssimos a antever o futuro. Outra tirada certeira diz que se fechar dois economistas numa sala e lhes apresentar o mesmo problema, eles dificilmente vão concordar na mesma solução. Estas duas máximas são são perfeitamente adequadas ao actual cenário que muitos já designam como “o novo mundo do petróleo”.

Começando pelo mais fácil – onde existe consenso- a queda abrupta do preço do crude, a que assistimos desde Junho do ano passado (quando estava a 115 dólares por barril), parece ser explicada pela regra mais simples (e mais óbvia) da economia – “a lei da oferta e da procura”.

Hoje a oferta global de petróleo está entre 1,5 milhões a 2 milhões de barris por dia, acima da procura. E quando assim é, o preço cai.

É fácil explicar porque há menos procura. A economia chinesa, o motor do consumo, desacelerou, contagiando outros países asiáticos; o Japão e a Europa estagnaram e países emergentes como o Brasil e, sobretudo a Rússia, vivem dias complicados.

Bem mais interessante é a nova dinâmica da oferta, fruto da ascensão meteórica dos Estados Unidos (a Agência Internacional de Energia-AIE- diz que o país ultrapassará a Arábia Saudita e a Rússia como o maior produtor mundial ainda este ano), rumo à auto-eficiência energética.

(D.R.)
(D.R.)

Um segundo facto relevante foi a decisão tomada pela OPEP (cartel de 12 países, entre os quais Angola, que responde por cerca de 40% da oferta mundial de petróleo), em Novembro de 2014, de manter as suas quotas de produção inalteradas, o que fez precipitar os preços. Um terceiro factor foram os aumentos da oferta superiores ao esperado em países como a Líbia e o Iraque.

Depois vêm outras explicações menos objectivas, mas igualmente válidas. A ascensão dos Estados Unidos ao topo dos grandes produtores deve-se à explosão do shale gás (gás de xisto). Segundo a agência de Energia americana, entraram em actividade no país no país, 200 mil novos poços nos últimos quatro anos, dez vezes mais do que na Arábia Saudita. O epicentro do gás de xisto localiza-se nos estados do Dakota do Norte e do Texas ( o que justifica as referencias humorísticas a um duelo entre os shale boys americanos versus os sheiks oil do Médio Oriente).

O pior (para os sauditas) é que há condições geológicas para explorar gás de xisto em praticamente todo o território americano, incluindo Canadá, e noutros pontos do globo (desde a China até a República Checa, por exemplo). E enquanto a perfuração de um poço de shale gas pode ser feita numa semana, a perfuração de 1,5 milhões de dólares, a de um poço convencional, num local extremo como a Sibéria, pode demorar dois meses e custar 700 milhões.

(D.R.)
(D.R.)

Perante esta ameaça crescente, a Arábia Saudita parece ter recordado as lições aprendidas na década de 70, onde a escalada dos preços impulsionou novos investimentos em locais, até então inexplorados, como o Mar do Norte (Noruega e Inglaterra). Daí que segundo os analistas, os xeques estejam a forçar propositadamente a baixa de preços, na esperança de que os shale percam o entusiasmo.

A estratégia é brutal, mas eficaz. Muitos investidores americanos já estão atolados em dívidas e a desistir de novos investimentos.

O problema é que o break even )o ponto a partir do qual um negocio é lucrativo) do shale gas é cerca de 65 dólares) ao passo que os árabes podem extrair crude ao custo mais baixo do mundo (5 a 6 dólares por barril). Logo, a Arábia Saudita não se importa de prolongar este braço-de-ferro (diz-se que até ao limite de 20 dólares por barril).

Até porque eles têm um bónus adicional. A queda do preço afecta dois países pelos quais os sauditas não morrem de amores – Rússia e Iraque. A actual conjuntura também interessa aos Estados Unidos, dado que prejudica outros regimes “antipáticos” como a Venezuela, Argentina ou Irão e, sobretudo, os terroristas islâmicos financiados pelo petróleo.

Para mais há a esperança de que os custos de produção do gás de xisto baixem, à medida que a tecnologia de extracção se tornar mais eficiente (em projectos de ponta a média de custos passou de 70 dólares para 57 por barril no último ano).

A Europa, por sua vez, ganha em todas as frentes com a pressão acrescida sobre o cada vez mais imprevisível Putin e com o alívio orçamental que resulta da baixa dos preços. No meio desta batalha geoestratégica de gigantes estão os grandes produtores africanos, como a Nigéria e Angola.

(D.R.)
(D.R.)

A DÚVIDA É SABER SE OS PREÇOS JÁ BATERAM NO FUNDO

Mas se a generalidade dos analistas concorda com este diagnóstico do passado, há poucas vozes coincidentes sobre a antevisão do futuro. Tanto as previsões da AIE como as da OPEP, ambas lançadas em Janeiro, dizem que a procura mundial vai crescer timidamente (1%) em 2015. Do lado da oferta, tudo depende da posição que a Arábia Saudita irá tomar na próxima reunião da OPEP )a regular está marcada para Junho, mas há quem refira a possibilidade de haver uma reunião extraordinária mais cedo).

Quanto aos preços, a dúvida é saber se o mercado já terá batido no fundo, depois da queda de 60% entre Julho e Janeiro. Recorde-se que nos mercados de futuros, o Brent atingiu o pico em Junho (112 dólares) e o mínimo histórico desde 2009, no dia 28 de Janeiro (42,33 dólares). Dois dias depois, a cotação recuperou 8% (para 52,9 dólares), o que, para alguns analistas, foi o primeiro sinal da inversão de tendência.

Abdullah al-Badri, secretário geral da OPEP é um dos mais entusiastas. No Fórum de Davos, em Janeiro, declarou estar convencido de que os preços já não baixarão mais. Na sua visão, eles vão manter-se mais um mês nos níveis actuais, altura em que iniciarão o movimento ascendente. Para justificar a polémica decisão da OPEP em manter as quotas inalteradas, acrescentou que face à quebra dos investimentos em novos projectos que se irá verificar este ano, o preço pode chegar a 200 dólares no fim da década..

A maioria dos analistas não partilha esse optimismo. Os grandes bancos de investimento, como o Goldman Sachs, Morgan Stanley, Deutsche Bank e Merril Lynch prevêem que os preços que os preços se mantenham na faixa dos 40 dólares mais algum tempo, não havendo retoma até ao final do primeiro semestre.

Nessa altura, subirão para os 65 dólares no caso do WTI e 70 para o Brent. O Barclays Bank é o mais céptico dizendo que os preços ainda vão cair até ao limiar dos 30 dólares, ascendendo aos 40 no final do primeiro semestre, até ao máximo de 44 a 72 no segundo. Já o FMI, no relatório de Janeiro, prevê que este ano, a média de preços seja de 57 dólares e que a cotação só chegará aos 70 dólares em 2018.

Resta a consolidação de que há três traços comuns neste conjunto díspar de previsões. Primeiro, os preços não deverão baixar mais no primeiro semestre. Segundo, haverá uma recuperação gradual a partir da segunda metade do ano. Terceiro, no final deste ano os preços deverão estabilizar num novo patamar de equilíbrio que será bastante inferior aos dos níveis pré-queda. (exame.ao)

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA