O fim de um tempo. Jardim fecha a loja

(Rodrigo Cabrita)
(Rodrigo Cabrita)
(Rodrigo Cabrita)

O jardinismo durou 37 anos e acabou ontem. Jardim acha que não leva grandes recordações.

Acabou. Não há mais. Depois de 37 anos em sessões contínuas, as produções governamentais Jardim levaram à cena o último espectáculo. Mas quando aparece o The End no ecrã das coisas da vida – e da política – os sentimentos são estranhos, difusos e a felicidade não é o mantra obrigatório. “É o final de toda a minha intervenção na vida política como militante partidário, embora não leve grandes recordações do PSD, principalmente por causa do PSD de Lisboa”, disse ontem Jardim depois de votar no Funchal. O fim de um tempo pode acontecer em registo bipolar, mesmo para Jardim ou principalmente para Jardim, o político português há mais anos no mesmo posto: “A gente sente sempre saudades das coisas boas e sente um alívio por deixar as coisas más”.
Sobre o novo ciclo, Alberto João não se compromete. Afinal, Miguel Albuquerque foi um dilecto benjamim que depois abjurou o pai. Jardim não sabe se vai gostar do que aí vem nos próximos quatro anos: “Vamos lá ver como é que eles correm. Se correrem bem, dentro de uma linha de reforço da autonomia e fora das amarras coloniais, obviamente terá todo o meu apoio”.
Tudo começou há tanto tempo – 37 anos – que só os maiores de 50 e poucos podem ter alguma memória nítida. Era o dia 17 de Março de 1978 quando, no Palácio de São Lourenço, Alberto João Jardim, líder parlamentar do PSD no parlamento madeirense, se transforma em presidente do Governo Regional. Vai  substituir o líder da transição, Ornelas Camacho, que passaria a ser secretário regional do Equipamento no primeiro governo de Jardim.
O ministro da República para a Madeira, Lino Miguel, festejou Jardim porque o novo governo vinha “encontrar lançados os alicerces da autonomia constitucional”. Jardim prometeu “não adiar o processo socializante” (linguagem popular na época, incluindo no PSD), mas advertiu logo contra o comunismo. O “processo socializante” decorreria “pondo de lado utopias que nos pretendiam conduzir à partilha de misérias e a uma massificação que nada tinha a ver com igualdade”. Jardim iria “agir no sentido da criação da riqueza e da sua justa distribuição”. “Os custos da crise” não poderiam “sobrecarregar mais os mais sobrecarregados”.
Inclusivé lavar pratos Na sua última inauguração como presidente do Governo Regional da Madeira, um restaurante no concelho de Santa Cruz, Alberto João Jardim mostrou as suas mágoas de partida – cruzadas com o humor  histórico – ao proprietário, José Manuel Henriques. “Eu estou de partida da vida pública, aos 72 anos já tenho idade de ter juízo, foram 37 anos de governo, mais de metade de uma vida mas quero-lhe dizer que, como amigo, eu estou sempre ao seu dispor, de maneira que disponha, se for preciso lavar os pratos também eu venho, não tenho nada para fazer, mas com o acordo você dá-me a sua receita do leitão. O preço que levo é a receita do leitão”.
Em entrevista a Luís Osório, publicada no livro “25 Portugueses”, Jardim conta que conseguiu “quebrar a velha sociedade madeirense, feita de diferenças e preconceitos”. “Para dar este salto foi necessário um governo forte e, como lhe chamou, justicialista”. Reconhecia que, tendo marcado a Madeira da forma que se conhece, a coisa não seria “fácil para quem me substituir”.
Jardim nasceu para a política com o 25 de Abril, se descontarmos o tempo em que aos 17 anos “estava convencido que o Salazar era um génio”, como diz na entrevista. Atribui a ideia da adolescência “ao ambiente familiar e ao isolamento cultural da ilha”.  Acaba mesmo por discursar num aniversário de Salazar. “Hoje farto-me de rir com isso. Um dia convenceram-me a fazer um discurso na Liga 28 de Maio (…) Lá fiz o discurso onde disse que Salazar era bestial. Ainda na universidade apercebi-me que as coisas não eram bem assim. Salazar desenvolveu e geriu bem o país até à Segunda Guerra Mundial, depois perdeu o seu tempo”. Jardim passa o tempo da universidade “na grande farra” e nunca se envolveu nas lutas académicas, “onde as posições estavam extremadas” entre o apoio ao regime e o PCP. A crise académica de 1962 passou–lhe ao lado: “Andava tão divertido que não pensei muito nisso”.  Dava-se com Medeiros Ferreira, mas manteve-se à margem “dos sarilhos”. “Nunca fui um antifascista nem um pró-fascista”. Mas “adorava as greves porque era mais um pretexto para não ir às aulas”.  (ionline.pt)

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