Nos bairros mais expostos de Donetsk, a paz não passa de uma ‘doce ilusão’

Uma mulher caminha em Donetsk em meio aos destroços, no dia 5 de março de 2015 (Foto de JOHN MACDOUGALL/AFP/Arquivos)
     Uma mulher caminha em Donetsk em meio aos destroços, no dia 5 de março de 2015 (Foto de JOHN MACDOUGALL/AFP/Arquivos)

Uma mulher caminha em Donetsk em meio aos destroços, no dia 5 de março de 2015 (Foto de JOHN MACDOUGALL/AFP/Arquivos)

Em Donetsk, reduto dos separatistas pró-russos no leste da Ucrânia, a guerra que já dura meses destruiu a vida de muitos habitantes, enquanto muitos que não conseguiram fugir vivem com medo em difíceis condições.

“Vim para cá em Agosto, quando um morteiro caiu em minha cozinha. Depois disso a minha casa desabou”, conta Tatiana Antolina, que vive agora em um antigo abrigo antiaéreo soviético da cidades.

Como esta ex-empregada doméstica de 49 anos, que parece ter dez anos a mais, cerca de 40 habitantes de Donetsk vivem há meses no abrigo subterrâneo no bairro de Petrovski, após perderem tudo nos combates.

Com lágrimas nos olhos, Tatiana lembra várias vezes “os morteiros que caíam sobre nós”. “Todas as paredes tremiam”, conta, com o braço enfaixado com um tecido branco.

“Todos temos medo de sair, mesmo que agora a situação pareça mais calma” graças ao cessar-fogo em vigor desde meados de Fevereiro e que parece estar sendo globalmente respeitado.

No abrigo, onde vivem cinco crianças pequenas, roupas secam penduradas em cordas instaladas entre velhos colchões e cobertores húmidos. Velas acesas fazem lembrar que a electricidade não chega há dois meses.

“Todo mundo fugiu deste bairro. Aqueles que ficaram não têm lugar para ir”, explica Elena, de 76 anos, que afirma que o abrigo chegou a acolher 200 pessoas no ápice dos combates.

“Esperamos a paz há tempos. Mas só escutamos bombardeios… Quase nunca saímos do abrigo”, suspira, lembrando como sua casa perdeu telhado e janelas.

Galina Lebeditch explica, por sua vez, que vai para casa apenas para alimentar seu cachorro. Mesmo continuando habitável, ela continua a ter pesadelos com os morteiros que atingiram seu lar.

“Tenho medo de morar em casa. Não importa quando, alguma coisa pode acontecer. Já vivemos isso em Dezembro: nada de violência por um mês, e de repente tudo recomeçou”, conta, em meio às antigas instruções soviéticas que explicam como sobreviver a um ataque aéreo americano.

‘Tiros continuam’

No bairro de Kievsky, um das mais afectados pelo conflito, localizado não muito longe do aeroporto de Donetsk, a destruição do último mês ainda é omnipresente. A maioria das fachadas apresenta as cicatrizes dos bombardeios.

“Como podemos acreditar na trégua? Os tiroteios continuam. Ouvimos todas as noites”, diz Vadim, de 55 anos, do lado de fora de sua casa, que teve o telhado rasgado e as janelas quebradas. Um míssil Grad atingiu a residência e machucou seu cão há três semanas.

No mercado local, único edifício que parece ter recuperado uma aparência de vida com a reabertura de algumas barracas de comida, as pessoas profetizam novos combates em Abril, após a Páscoa ortodoxa.

“Eu não tenho nenhuma esperança e confiança neste trégua. Nós ainda ouvimos os morteiros, embora com menor frequência do que antes”, explica Igor, de 30 anos, enquanto rajadas são ouvidas em intervalos regulares ao longe.

No hospital número 21, não muito longe dali, voluntários trabalham duro para tentar reparar os danos dos últimos meses.

Nem uma única janela está intacta, tudo está coberto com plástico preto e fita enquanto destroços circundam o prédio. No tecto, trabalhadores retiram pranchas de madeira carbonizadas perto de um buraco causado por fogo de artilharia, alguns dias antes do cessar-fogo.

A ala de infectologia pediátrica é a que mais sofreu com a guerra. A fachada está em parte destruída, com as paredes crivadas de impactos e todas as janelas quebradas.

“Os tiros vindo da área do aeroporto e de Piski chegam facilmente até nós. Isso é que chamam de um cessar-fogo”, ironiza a enfermeira-chefe Lyubov Chakourova, de 53 anos .

No entanto, os funcionários trabalham todos os dias para tentar restabelecer o serviço em Abril, data de reabertura. Uma equipe de Médicos Sem Fronteiras trouxe medicamentos. Uma associação russa prometeu fornecer as janelas.

“Nós queremos paz, queremos trabalhar e cuidar de nossos pacientes. Faz quase um ano que atiram contra nós”, diz Lyubov, mas “estamos todos com medo de que a trégua seja apenas uma doce ilusão.” (afp.com)

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