Luanda: A tristeza do porta-voz da Proteção Civil

ANA SOUSA DIAS Diário de Notícias (Foto: D.R.)
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Diário de Notícias
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O Serviço de Proteção Civil e Bombeiros registou, com tristeza, a morte de duas pessoas em consequência das chuvas.” Assim falou ontem em Luanda Faustino Minguês, porta-voz do serviço de Proteção Civil e Bombeiros, na Televisão Pública de Angola. Agostinho da Silva, vice-governador de Luanda para a área técnica, explicou à agência Angop: “Há bairros com grandes bacias de água, casas completamente inundadas e, por isso, decidimos encontrar soluções pontuais e desta forma diminuirmos o sofrimento dos moradores.” Foi ordenada “a distribuição com urgência de motobombas, eletrobombas e alguns camiões de sucção, para sugarem as águas em várias ruas e residências”.

Anos, décadas de comunicados técnicos que falam de indivíduos e viaturas e ditos cujos e bacias hidrográficas não me prepararam para a presença de palavras como tristeza e sofrimento nas comunicações oficiais perante uma catástrofe. Um político pode dizer que está consternado e manifesta solidariedade com as vítimas. Um polícia dirá que se registaram baixas em indivíduos civis, e poderá comparar o número de mortos com os do ano anterior – a situação melhorou, morreram menos cinco pessoas do que no ano passado. A preocupação com o sofrimento dos outros está lá também, isso é garantido e humano, mas não virá à superfície das palavras.

Com 6,5 milhões de pessoas e uma superfície gigantesca, infraestruturas precárias e ultrapassadas, trânsito caótico e pouquíssimos transportes públicos, Luanda debaixo de uma chuvada tropical só pode ser uma cidade em sofrimento, a precisar de todas as bombas de sucção imediatas e de muitos planos para o futuro mais próximo. Visitei-a em dias de sol e posso imaginar o grau de destruição em que os últimos dois dias a deixaram, uma massa de lama a invadir a cidade antiga e os musseques.

As fotografias de ontem recordaram-me outras idênticas, de 1963: automóveis caídos em buracos, fissuras ao longo das ruas, o olhar espantado de quem não acredita que coisas assim acontecem. Vivia lá nesse ano e as imagens ficaram-me na memória como se fosse sempre assim: chovia e a cidade ficava desfeita, recompunha-se e no ano seguinte a chuva voltava a desfazê-la. Foi o escritor e antropólogo maravilhoso Ruy Duarte de Carvalho que me esclareceu: está a falar de 1963, disse-me quando lhe falei nas chuvadas. Como sabe? Foi nesse ano exato que aconteceu, nem antes nem depois.

O mito trazido da infância, como quem sabe que a seguir às férias grandes chegam as aulas, foi desarmado pelo homem que foi visitar pastores e um dia não voltou. Lembrei-me dele quando li a tristeza do porta-voz da Proteção Civil. (dn.pt)

 

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