Festa à vitória contra o Apartheid

Antigo tanque anti-minas das tropas sul-africanas (Foto: Rosário dos Santos)
Antigo tanque anti-minas das tropas sul-africanas (Foto: Rosário dos Santos)
Antigo tanque anti-minas das tropas sul-africanas (Foto: Rosário dos Santos)

Artilharia pesada, armas e bombas de longo alcance, minas que interromperam o sonho de milhares de combatentes e uma surpreendente resistência militar.

Este foi o cenário da maior Batalha registada ao Sul do Sahara, que mudou a história na África Austral e pós fim ao mito da invencibilidade das tropas do Apartheid, um dos mais cruéis regimes da história.

A Batalha do Cuito Cuanavale foi longa, destruidora, sangrenta e letal. Foram 60 dias de cerco e ataques de um adversário com um aparato militar que levou as tropas a uma decisão patriótica: vencer ou morrer.

Foram três ataques violentos ao Triângulo do Tumpo, que exigiram paciência e estratégias de combate que surpreenderam o mais temido Exército da África Austral, vergado ao poderio das Ex-FAPLA.

Angola celebrou nesta segunda-feira o XXVII aniversário do desencadeamento desse combate, no mesmo palco, com o mesmo sentimento de bravura e com os mesmos actores da defesa.

As marcas do confronto, as peripécias, as estratégias táctico – operativas lideradas pelo então Comandante em Chefe das FAPLA, José Eduardo dos Santos, estão ainda vivas na mente desses oficiais e soldados que arriscaram a vida para defender a Pátria.

Eles perderam amigos, companheiros de combate, enfrentaram duros riscos, viram a vida por um fio, mas resistiram e vergaram as forças do Apartheid.

António Valeriano foi um desses heróis. Era na altura o comandante da 25ª Brigada na derradeira batalha, a 23 de Março de 1988, o dia do fim para as tropas racistas sul-africanas no Cuito Cuanavale.

Volvidos 27 anos dessa vitória militar, tem ainda bem patentes cada estratégia, os momentos de angústia e o último passo para derrotar o inimigo.

O comandante e os seus companheiros foram determinantes para travar a ofensiva sul-africana e ajudaram a aniquilar um exército temido e três dos seus quase invencíveis tanques Oliphants.

Confessa que a vitória a 23 de Março foi fruto da aprendizagem em outras acções combativas, que melhoraram as performances das FAPLA.

Tumpo – a chave da vitória

Lembra que as FAPLA travaram o exército sul-africano no histórico Triângulo do Tumpo, onde estava confinada a sua unidade.

Segundo o oficial, a defesa do Tumpo levou dois meses de preparação, suficientes para contrapor à violenta ofensiva sul-africana.

“A região do Tumpo, onde esteve a minha brigada, é uma passagem obrigatória para acesso ao Cuito, à ponte. O inimigo não teve isso em conta, não estudou as características do terreno”, conta.

Lembra que a sua brigada esteve confinada num local de passagem obrigatória, tendo nas laterais chanas minadas. “Conforme as unidades foram entrando para o Cuito, pensaram tratar-se de uma retirada desorganiza e o inimigo caiu nessa bolsa”.

António Valeriano conhece bem aquele campo de operações e afirma que o Triângulo do Tumpo tem características próprias que favorecem a defesa.

A defesa da brigada, conta, foi preparada desde o ponto de vista militar e inclui, entre outras, minas reforçadas com caixas de TNT e bombas de aviação.

O general afirma que em momento algum o inimigo transpôs as fronteiras e barreiras da sua unidade.

“O inimigo foi derrotado à frente do nosso bordo dianteiro. O tanque Oliphant foi destruído a 200 metros do nosso bordo dianteiro”, exprime.

Trabalho conjunto na defesa

Refere que as minas foram fundamentais para travar a ofensiva sul-africana, mas foi a cooperação de várias forças que garantiu a vitória das FAPLA.

“Para a derrota inimiga participaram não só as minas, como a artilharia e engenharia. Havia uma confiança mútua entre os homens, porque na guerra cada um tem o seu papel, a sua missão”, sublinha.

Remígio do Espírito Santo é outro histórico dessa Batalha terminada a 23 de Março de 1988.

Era na altura dos ataques brutais segundo tenente e comandante do terceiro Batalhão de Tanques do Agrupamento do Cuito Cuanavale.

Confessa que o último ataque ao Tumpo foi o que mais marcas o deixou, pois conseguiram, finalmente, vergar um exército temível.

“Naquele tempo, o Exército Sul-africano era considerado o mais temível da África Austral e quiçá de África. Enfrentar um exército daquele tão forte, com a capacidade que tinha, foi um momento impar”, refere o agora tenente -general.

Aviação decisiva

Quem também arriscou a vida em defesa da Pátria e sentiu as amarguras do sangrento confronto com o exército racista sul-africano foi Evaristo Domingos Mety.

Ostentava na altura a patente de capitão e funções de estado-maior na 52ª Brigada de Mísseis Anti-Aéreos. As suas lembranças reflectem bem a dor e angústias das tropas.

Revela que a sua posição no campo de operações era privilegiada e permitia ver todos os ângulos do confronto e como as tropas das FAPLA aniquilavam os inimigos do Apartheid.

“Até hoje não me sai da cabeça a forma quase cinematográfica como se desenrolavam os combates, com o avanço e desdobramento dos tanques inimigos em solo angolano e a defesa das nossas tropas”.

O actual coronel do exército lembra que as tropas sul-africanas já usavam equipamentos de ponta, como aviões não pilotados.

Era com estes que travava confronto directo.

“Num sábado, por volta das 15:00 abati o primeiro avião, domingo abati o segundo que tentava destruir a ponte sobre o rio Cuito Cuanavale”.

Essa eficácia, lembra, levou o inimigo a mudar de táctica e outro avião não pilotado conseguiu atingir a ponte, sem destruí-la totalmente.

“Ainda possibilitou a travessia dos tanques para esta defesa”, recorda o oficial.

Campo de minas à altura do inimigo

Na mesma senda, o então chefe de Estado Maior da Sexta Região Militar, Fernando Mateus, lembra bem da engenharia montada no Tumpo.

Recorda que aquando da criação da defesa do Triângulo do Tumpo, tinha-se em frente do bordo dianteiro um campo de minas, onde montaram a mesma estratégia do inimigo.

“Utilizamos armadilhas de minas anti-tanque reforçadas, com todo o tipo de obstáculos: TNT, tambores de gasolina, bombas de avião, projecteis de artilharia. Era um sistema não organizado de campo de minas. Para qualquer lado onde eles fossem, se não batessem num anti-pessoal, batiam numa anti-tanque”, lembra.

Essas e outras histórias ficaram patentes no acto alusivo ao XXVII aniversário do desencadeamento da Batalha do Cuito Cuanavale, presidida pelo ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa.

A celebração decorreu no “coração” do Triângulo do Tumpo e foi antecedida de visitas a pontos estratégicos dessa luta, como a histórica aldeia de Samaria.

Ali a delegação ministerial viu o hastear da bandeira, em reconhecimento ao apoio daquela comunidade aos militares das FAPLA.

Visitou também o local onde estão os destroços dos poderosos tanques Oliphants sul-africanos, antes de participar no acto central que culminou com um discurso e deposição de coroas de flores.

Crianças, jovens e adultos juntaram-se no Triângulo do Tumpo e deixaram centenas de flores, em honra aos bravos militares, cuja conquista ajudou a libertar a Namíbia e democratizar a África do Sul.

Içar da Bandeira no lugar onde foi travada Batalha do Cuito Cuanavale  (Foto: António Escrivão)
Içar da Bandeira no lugar onde foi travada Batalha do Cuito Cuanavale (Foto: António Escrivão)

No Triângulo do Tumpo foi também hasteada a bandeira da República. (portalangop.co.ao)

por Elias Tumba

DEIXE UMA RESPOSTA